Sem rua e sem número, área rural de MS terá “endereço digital” no Google
Código parecido com CEP promete localizar propriedades que hoje ainda dependem de ponto de referência

Quem mora na cidade se localiza por rua, número, bairro e CEP. Já em muitas áreas rurais de Mato Grosso do Sul, o endereço ainda é explicado no improviso: entra na estrada de terra, passa a porteira, segue até a árvore grande e vira depois do mata-burro.
RESUMO
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Mato Grosso do Sul firmou parceria com o Google para criar códigos alfanuméricos de localização para propriedades rurais sem endereço convencional. A iniciativa vai atender 24 mil propriedades em 2025, com meta de expandir para 90 mil imóveis. Os códigos, gerados por inteligência artificial, comprimem coordenadas geográficas e permitem localização com precisão de 3 metros quadrados, facilitando entregas, emergências e serviços públicos.
É esse tipo de problema que uma parceria entre o Governo do Estado e o Google promete enfrentar. A iniciativa, anunciada na tarde desta segunda-feira (1º), durante evento na Governadoria, em Campo Grande, vai criar um código alfanumérico, parecido com um CEP, para identificar propriedades rurais que hoje não têm endereço convencional.
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A primeira etapa deve alcançar 24 mil propriedades ainda neste ano. A meta, depois, é expandir a ferramenta para cerca de 90 mil imóveis rurais em Mato Grosso do Sul. O ponto de partida serão áreas com informações mais avançadas no CAR (Cadastro Ambiental Rural), especialmente aquelas em que a sede da propriedade já aparece referenciada.
A proposta é transformar coordenadas geográficas, normalmente formadas por longas sequências de latitude e longitude, em um código mais simples, capaz de ser usado em sistemas públicos, rotas, entregas e atendimentos de emergência.
Segundo Newton Neto, diretor-geral de Parcerias para América Latina e Canadá do Google, qualquer ponto marcado no Google Maps já possui uma localização exata. O problema é que latitude e longitude não são práticas para o uso cotidiano.
“Quando você procura um endereço, ele coloca um pontinho ali, que representa uma latitude e uma longitude. Só que latitude e longitude são códigos muito grandes, enormes. Então, através da inteligência artificial, a gente criou um algoritmo que comprime esses códigos em uma formação alfanumérica que lembra muito um CEP”, explicou.
Com isso, o produtor rural poderá ter acesso a um código capaz de indicar a localização da propriedade com precisão. Esse endereço digital poderá ser usado, por exemplo, para uma compra online, para solicitar uma ambulância ou para permitir que um órgão público desenhe uma rota até o local.

“A partir desse número, você consegue identificar com precisão de 3 m² qualquer ponto no planeta Terra. Então, para as primeiras 24 mil propriedades rurais, a gente vai fazer esse mapeamento indicando esse código alfanumérico”, afirmou Newton.
O representante do Google disse que a empresa usa inteligência artificial, imagens de satélite e dados de mapeamento, como os do Google Street View, para identificar estradas, ruas e acessos. Em Mato Grosso do Sul, porém, o Pantanal exige uma solução à parte.
A dificuldade é simples de entender e difícil de resolver: no Pantanal, a rota muda com a água. Uma estrada que existe na seca pode desaparecer na cheia. O caminho que funciona em uma época do ano pode não servir em outra. “Nos lugares mais difíceis, como no Pantanal, a gente está estudando uma solução técnica única, porque esse é o único lugar do planeta Terra que tem essa condição”, disse Newton.
O governador Eduardo Riedel (PP) afirmou que a parceria faz parte de uma estratégia mais ampla de transformação digital do Estado. Segundo ele, tecnologia não pode ser apenas “digital no papel”, mas precisa mudar a relação entre o serviço público e o cidadão.
“Quando a gente fala governo próspero, inclusive verde e digital, digital não é digital no papel, é transformação. No centro dessa transformação está o cidadão e a cidadã”, afirmou.
Riedel citou uma experiência pessoal no Detran (Departamento Estadual de Trânsito) para defender que a digitalização precisa reduzir burocracias. Ele contou que, no início do governo, foi renovar a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) e, depois de passar por várias etapas presenciais, descobriu que o pagamento só poderia ser feito em dinheiro.
“Eu já tinha passado por umas cinco etapas dentro daquele ambiente. E aquilo me incomodou profundamente. Hoje você não precisa mais ir. Então, a gente está pensando no Estado ou no cidadão? A transformação digital é simplesmente para mudar completamente, a partir do que existe hoje disponível em tecnologia, essa relação do Estado”, afirmou.
No caso das propriedades rurais, o governador disse que a identificação alfanumérica deverá funcionar como uma linguagem única para diferentes estruturas públicas. A ideia é substituir orientações informais por um código reconhecido pelo Estado.
“Essa identificação alfanumérica passa a ser a linguagem única de todas as estruturas de Estado, seja agência sanitária, seja para levar assistência técnica lá no cantinho que hoje é assim: está lá na estrada da goiabeira, depois que passa aquele pé, vira à direita. Às vezes não tem uma estrada municipal, pega uma estrada interna de propriedade para chegar a outra. Então, o CEP passa a ser, a partir de agora, o endereço único daquele produtor para todas as estruturas governamentais”, disse Riedel.
Artur Falcette, titular da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), explicou que as primeiras 24 mil propriedades foram escolhidas porque têm dados mais completos no cadastro ambiental.
“Essas 24 mil entram nessa primeira etapa porque são propriedades que têm o processo mais avançado do Cadastro Ambiental Rural e possuem, nas informações do CAR, a sua sede já referenciada”, afirmou.
Segundo Falcette, o Estado trabalha com a base de dados do Iagro (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal), considerada a mais completa neste momento para identificar propriedades rurais. A expansão dependerá do avanço das informações no CAR.
“Conforme esses CARs vão sendo finalizados, a gente vai tendo esse detalhamento da informação. Esse banco de dados vai sendo comunicado ao Google para que a gente possa expandir esse horizonte de 24 mil propriedades e chegar próximo dos 90 mil imóveis rurais que temos no Estado o quanto antes”, termina o secretário.
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