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Campo Grande, Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

13/12/2015 12:08

Um ano após mortes em disputa por poder, festival reúne famílias rivais

Liana Feitosa e Caroline Maldonado, de Bodoquena
Miss Indígena Kadiwéu, Patrícia, e Miss Indígena Simpatia, Maikelly. (Foto: Caroline Maldonado)Miss Indígena Kadiwéu, Patrícia, e Miss Indígena Simpatia, Maikelly. (Foto: Caroline Maldonado)

Um ano após morte de dois índios por disputa de liderança na aldeia Alves Barros, que fica em Bodoquena, a área hoje é palco do 1° Festival da Cultura Guaicuru-Ejiwajegi Kadiwéu, que reuniu seis aldeias.

Familiares das vítimas mortas no dia 11 de dezembro do ano passado, o cacique Ademir Matchua e o indígena Orácio Ferraz, participaram do evento ocorrido neste sábado (12). Com as festividades, a aldeia pode ver a paz selada na comunidade que conta com cerca de 600 indígenas, afirmou o cacique Joel Vergílio, de 39 anos.

"Esse é o primeiro grande evento que reúne tanta gente desde as mortes, agora que a situação está se normalizando", disse o cacique.

União e paz - "Acabou o medo das pessoas de andarem na aldeia. No dia 19 de abril teve uma pequena festa em comemoração ao Dia do Índio, mas este festival é o primeiro que está realmente reunindo todo mundo", completou. 

A festa promoveu várias competições. Entre elas, a escolha da Miss Indígena Kadiwéu e da Miss Indígena Simpatia. Também foi realizada uma disputa de arco e flecha, cujo alvo era a imagem de uma capivara que ficava a 40 metros de distância dos competidores.

Também foram feitas prova de arremesso de lança e competição de montaria, com o uso de cavalos pintados com grafismos Kadiwéu, técnica de pintura antiga utilizada há gerações por esse povo.

Troca cultural - Segundo Benilda Kadiwéu, organizadora do evento, pessoas de outras cidades e, também, de outros estados, foram até à aldeia Alves de Barros para participar do festival. "A festa uniu as pessoas. As mães ajudaram no desfile, ajudaram no desenvolvimento das roupas das participantes, envolveu as pessoas", conta.

Aos 12 anos, Zedequias Vergílio foi o campeão da prova de montaria. (Foto: Sidney Albuquerque)Aos 12 anos, Zedequias Vergílio foi o campeão da prova de montaria. (Foto: Sidney Albuquerque)

Além disso, de acordo com ela, membros das famílias vítimas da disputa por liderança no ano passado participaram do evento.

Com isso, a indígena Cleuza Vergílio, de 43 anos, percebeu que o festival veio para animar a comunidade. "A aldeia tava muito desunida, com medo, mas esse evento marcou uma nova realidade", compartilhou.

Desfiles - No concurso que definiu as misses indígenas, ocorreram dois desfiles com dois tipos de trajes, um com roupas referentes à cultura tradicional dos povos indígenas e, o outro, com roupas country.

Segundo a organizadora, a escolha do traje country foi porque é assim que a comunidade se veste no dia a dia e há uma forte identificação com essa cultura, inclusive pela presença do cavalo como animal criado pelo povo Kadiwéu há muitas gerações.

Esses animais participaram da prova de montaria ornamentados com grafismos Kadiwéu, técnica tradicional que despertou o interesse do artista plástico Carlos Vergara, que veio do Rio de Janeiro para acompanhar o evento como convidado para ser jurado de uma das provas.

Grafismo - O artista estuda as semelhanças entre expressões culturais de diversos povos que utilizam o grafismo, técnica aplicada também nas roupas das índias que disputaram a título de miss.

Para Cleuza, usar também nas roupas o grafismo que originalmente é aplicado ao corpo é uma transformação bem-vinda. "Eu vejo que a gente não deve permanecer naquela cultura antiga, tem que se desenvolver, é normal essa reinvenção", analisa.

Patrícia Pedroso, de 21 anos, da aldeia Córrego do Ouro, foi coroada Miss Indígena Kadiwéu e Maikelly Costa, de 14 anos, da aldeia Tomázia, foi eleita Miss Indígena Simpatia.

No concurso que definiu as misses indígenas, desfiles tiveram dois tipos de trajes (Foto: Sidney Albuquerque)No concurso que definiu as misses indígenas, desfiles tiveram dois tipos de trajes (Foto: Sidney Albuquerque)

Campeão aos 12 anos - Entre os campeões também se destacou Zedequias Vergílio, vencedor da prova de montaria. Membro da aldeia anfitriã, Zedequias chamou a atenção por vencer aos 12 anos de idade.

Para o cacique, a vitória demonstra a força da tradição, que aproxima os mais jovens dos anciãos. O encontro também foi celebrado com um almoço na casa do cacique, composto de churrasco, macarrão, abacaxi e arroz. Além disso, o evento contou com o apoio da Polícia Federal.

Com duas viaturas no local, a presença de força policial a princípio deixou as pessoas preocupadas. "Várias pessoas perguntaram por que eles estavam ali", conta Benilda. "Mas explicamos que se tratava de um apoio. A partir de agora, em todos os nossos eventos, queremos contar com eles", completou a organizadora.

O festival teve apoio da Fecomércio (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de MS), das prefeituras de Porto Murtinho e Bodoquena, Ponto de Cultura Kopenoti Terenoe, além do artista plástico Carlos Vergara.


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