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Campo Grande, Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

12/01/2015 14:54

Para cartunista de MS, atentado em Paris é o 11 de setembro dos chargistas

Sandra Luz, do Porto – Portugal, especial para o Campo Grande News
Ique faz charge sobre o atentado que uniu a EuropaIque faz charge sobre o atentado que uniu a Europa
Charge de Ique sobre o atentado a Charlie HebdoCharge de Ique sobre o atentado a Charlie Hebdo

O rompimento da rotina dos franceses após os assassinatos na sede do semanário satírico Charlie Hebdo oferece lições que respigam no modo de fazer jornalismo em todo o mundo, até mesmo em Mato Grosso do Sul. A avaliação é do cartunista e caricaturista Victor Henrique Woitschach, o Ique. Para ele, o atentado na França é o 11 de setembro dos chargistas.

“É preciso avançar em uma discussão qualificada em que todos se respeitem e que seja mais civilizada. Essa é grande reflexão. E que aqui no Brasil, isso deve acordar os chargistas que estão dormindo enquanto os terroristas da corrupção estão agindo”.

Na incitação em provocar o chargista brasileiro a acordar, Ique pontua que os riscos ao trabalho do profissional não estão restritos às questões religiosas e políticas que vitimaram os jornalistas do Charlie Hebdo. “O trabalho do chargista é um trabalho jornalístico. E como jornalista, também é um trabalho de impacto social. É função dele ridicularizar uma situação, expor mazelas. É preciso ter coragem para expor os desmandos”.

Em 35 anos de profissão, Ique rabiscou as primeiras charges para jornais sul-mato-grossenses e emprega na palavra coragem mais que senso moral, ele mesmo vencedor de dois prêmios Esso. “É uma luta inglória. Nós temos aqui nossos Charlies. Aqui, o terrorismo maior que se faz na nossa profissão é demitir o chargista. Eu comparo ao terrorismo de poder condenar à sentença de ‘morte profissional’ desse jornalista. É muito profundo. Me deixou com medo. Não faço charge política há alguns anos porque no nosso país a charge política perdeu força. Os políticos são cara de pau. Não têm vergonha. Hoje riem, passam adiante e arrumam um jeito de demitir o chargista”.

Na experiência possibilitada pelas três décadas de jornalismo, Ique reconhece que há poucos espaços para a exposição crítica da informação, considerando o incômodo ao poder. “É muito difícil. Lá em Paris, eles só tinham aquele espaço porque o financiavam (o semanário satírico era independente e não aceitava anúncios). Mesmo na França, onde há combatividade, a imprensa tradicional não tem espaço para esse tipo de manifestação. Eles tiveram que criar. O jornalista quando necessário, deve fazer oposição. Precisa fazer”, provoca. E no Brasil, o principal exemplo para o rompimento na anemia cívica está na atuação dos chargistas que combateram por meio do traço irônico a ditadura militar. “E foram presos, como Jaguar e Ziraldo, que foram torturados. O Pasquim sofreu atentados a bombas. Eles estavam extrapolando e mexendo com quem não deviam porque questionavam o governo e as posições políticas contra a liberdade de expressão, a liberdade democrática e o direito de ir e vir”.

E como criticar os grilhões e respeitar limites? Para Ique, “o limite é dado pela história. A censura está em cada movimento que o chargista enfrenta no dia a dia”. Essa foi a resposta ao questionamento sobre a virulência com que os chargistas do Charlie Hebdo se colocavam contra a extrema direita francesa e os radicais islamitas.

“Esses profissionais sabiam da realidade e a importância política do trabalho que realizavam, do risco que corriam. Não se escondiam atrás do outro. Não foram além do limite. Colocaram a cara na frente de uma batalha que é inglória e não é contra a religião porque o Islã prega a paz. Eles lutam contra uma minoria que mata. O limite era o extremo. Eles eram muito corajosos e enfrentaram essa batalha de peito aberto. Tornaram-se símbolo da história. Foi para nós, chargistas, como o 11 de setembro” – referindo-se aos ataques contra os Estados Unidos ocorridos em 2001.



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