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Arquitetura da IA

O que eu ouvi em Mato Grosso do Sul este mês

Por Alcir Nantes Abuchaim (*) | 12/08/2026 06:10

Faz um mês que essa coluna começou, e queria fechar esse primeiro ciclo de um jeito diferente das últimas duas edições. Sem dado de relatório, sem estatística, sem lista de pontos práticos. Só o que eu realmente ouvi, sentado à mesa com empresários e gestores daqui de Mato Grosso do Sul, nessas últimas semanas, conversando sobre Inteligência Artificial.

Reparei que essas conversas se repetem em três formatos, quase sempre nessa ordem, dentro da mesma sala.

O primeiro é o medo, que quase sempre chega antes de qualquer pergunta técnica. Um empresário me contou, há duas semanas, que perde o sono pensando se a equipe dele vai ser substituída por máquina em algum momento dos próximos anos. Não perguntou sobre governança, sobre LGPD, sobre nenhum dos temas que tenho tratado aqui.

Perguntou, de um jeito simples e direto, se ainda vai ter função pra sua gente fazer. Não existe resposta fácil pra isso, e eu não tento fingir que existe. O que eu digo é que a pergunta certa não é se a função vai continuar existindo do mesmo jeito, é se a empresa vai decidir como essa mudança acontece, ou vai deixar que ela aconteça de qualquer forma, sem direção. Empresa que trata isso com medo, escondendo o assunto, costuma ser a que muda pior, mais tarde e com menos gente por dentro da decisão.

O segundo formato é a falsa confiança, e esse é o que mais me preocupa. É o gestor que chega dizendo que já resolveu, que a empresa já usa IA, que está tudo bem. Quando eu pergunto como usa, a resposta quase sempre revela que alguém no time está colando informação da empresa numa ferramenta aberta, sem contrato revisado, sem política nenhuma, e chamando isso de “já estamos usando IA”.

Essa é exatamente a conversa que tratei nas duas últimas colunas, só que agora com rosto, com nome de empresa que eu não vou citar, com gente real sentada na minha frente, convencida de que estava segura. Sair dessa conversa é sempre o momento mais difícil do meu trabalho, porque eu preciso desmontar uma certeza confortável sem fazer a pessoa se sentir tola por tê-la construído.

O terceiro formato, felizmente o mais frequente nas últimas semanas, é a curiosidade genuína, sem pressa e sem medo. É quem me pergunta por onde começar, entende que não existe atalho, e aceita que o primeiro passo é diagnóstico, não ferramenta. Essa é a conversa que mais me dá esperança pro que vem a seguir, porque é o tipo de pergunta que só aparece quando a pessoa já entendeu que Inteligência Artificial, dentro de uma empresa de verdade, é decisão estruturada, não aplicativo instalado numa tarde.

O que essas três conversas têm em comum, pensando bem, é que nenhuma delas nasce de ignorância. As pessoas que sentam à minha frente sabem administrar empresa, sabem tomar decisão difícil, sabem lidar com incerteza regulatória e econômica todos os dias. O que falta, quase sempre, não é capacidade de decidir. É informação de qualidade sobre um assunto que, até pouco tempo atrás, parecia distante da realidade de uma empresa média do interior do Brasil, e que hoje já não é.

Tem uma cena, de uma dessas conversas, que ainda não saiu da minha cabeça. Um gestor, depois de quase uma hora de reunião só sobre riscos e responsabilidades, ficou em silêncio por um instante e depois perguntou, quase constrangido: “então eu não preciso ter medo, eu preciso ter método?”. Não escrevi essa frase pra ele, ele chegou nela sozinho, e foi o resumo mais preciso que já ouvi sobre o que estou tentando dizer nessa coluna desde o primeiro dia.

Foi por isso que essa coluna nasceu, e é por isso que ela vai continuar. Nas primeiras três edições, tratei de por que a pergunta sobre a inteligência da sua empresa importa, de como o Shadow AI já é realidade dentro de praticamente toda organização, mesmo sem que a liderança perceba, e do que precisa entrar numa política de uso de IA para que ela funcione de verdade, e não fique só assinada numa gaveta.

A seguir, vou abrir uma série contando, etapa por etapa, o método que uso para conduzir empresas e instituições nessa jornada, do primeiro diagnóstico até a operação seguindo, com agentes de IA rodando de forma madura e responsável.

Antes disso, porém, queria deixar aqui o que essas conversas de bastidor me ensinaram este mês: quem trabalha com Inteligência Artificial de verdade passa menos tempo falando de tecnologia e mais tempo escutando gente. O que muda o resultado de uma implantação de IA não é o modelo escolhido, é a honestidade da conversa que aconteceu antes de qualquer linha de código ser escrita.

Empresa nenhuma se transforma porque instalou uma ferramenta nova. Se transforma porque alguém, dentro dela, decidiu encarar de frente a pergunta difícil, em vez de adiar.

(*) Alcir Nantes Abuchaim é CEO da i4t (Intelligence for Transformation), empresa sul-mato-grossense de arquitetura de inteligência corporativa. Siga nas Redes Sociais @i4t.ai