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08/06/2019 07:19

“Homem de bem com uma arma” virou fantasia mortal

Mário Sérgio Lorenzetto
“Homem de bem com uma arma” virou fantasia mortal

Essa ideia do “homem de bem com uma arma” virou o principal argumento dos ativistas dos direitos às armas. De onde veio? Não há nenhuma marca brasileira nessa pauta. Ela é totalmente norte americana.

Em 21 de dezembro de 2012 – uma semana depois de um assassino ter matado 26 pessoas em uma escola primária em Newtown, Connecticut –, o vice-presidente da Associação Nacional de Rifles, Wayne LaPierre, afirmou em uma coletiva à imprensa que “a única maneira de impedir um bandido é um bom sujeito com uma arma”.

Desde então, em resposta a cada tiroteio, analistas pró-armas, políticos e usuários de mídias sociais repetem alguma versão desse slogan, seguidos para armar professores, fiéis de alguma igreja e a todos que sejam “homens de bem”. E sempre que um cidadão armado derruba criminosos, glorificaram o “heroísmo”. Mas o arquétipo do “cara bom armado” data de muito antes da coletiva de LaPierre.

“Homem de bem com uma arma” virou fantasia mortal

Tudo começou com a ficção policial norte americana

Há uma razão que tornou a coletiva de LaPierre uma força desmesurada. Ela ressoou profundamente devido à ficção policial. Vários países têm sua ficção policial. Mas foi nos Estados Unidos que o “cara legal com uma arma” se tornou uma figura heroica e uma fantasia cultural.

A partir da década de 1920, um certo tipo de protagonista começou a aparecer na ficção policial norte-americana. Ele usava um sobretudo e fumava cigarros. Não falava muito. Era honrado, individualista –e armado. Esse tipo de personagem foi apelidado de “hard-boiled” (algo como “cozido e duro”). O termo teve origem no final do século XIX para descrever “homens perspicazes, que não pediam e nem esperavam simpatia”. Descrevia alguém que era muito duro e tinha um jeito bem definido de se comportar.

“Homem de bem com uma arma” virou fantasia mortal

Three Gun Terry, de Carol J.Daly, o livro precursor da ideia do “homem de bem com uma arma”

A maioria dos eruditos credita a Carol John Daly a criação da primeira história de detetive hard-boiled. Sua ficção, intitulada “Three Gun Terry”, foi publicada na revista “Black Mask”, em maio de 1923. Terry deixa o leitor saber que ele é um tiro certeiro: “Quando eu disparo, não há concurso de adivinhação para onde a bala está indo”.

Terry também defende seus defensores “de bem”: “Mostre-me o homem, se ele está me apoiando e é um homem que realmente precisa do adversário ser morto, ora, eu sou o homem que faz isso”.

Desde o início desse tipo de ficção, a arma era um acessório crucial. Como Terry, um detetive, só atirava em bandidos, e nunca errava, não havia nada a temer.

“Homem de bem com uma arma” virou fantasia mortal

A era de Terry é semelhante ao século XXI

Parte da popularidade desse tipo de personagem tinha a ver com seu tempo. Na era que o puritanismo procurava proibir tudo (até mesmo as bebidas alcoólicas), em que o crime organizado invadia as ruas, em que a corrupção governamental havia ultrapassado o nível do aceitável e a extrema direita (que glorificava Mussolini) procurava respostas a todos os males que afloravam nos EUA, o público foi atraído pela ideia de um dissidente bem armado e bem intencionado. Alguém que pudesse vir, heroicamente, em defesa das pessoas comuns. Ao longo dos anos 1920 e 1930, as histórias que tinham esse tipo de personagem se tornaram muito populares.

“Homem de bem com uma arma” virou fantasia mortal

Os titãs Dashiell Hammett e Raymond Chandler

Pegando o bastão de Carol J.Daly, autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler se tornaram titãs do gênero não só nos EUA, mas também no Brasil, onde a realidade era muito diferente. Os personagens eram sempre os mesmos: detetives particulares (a polícia era corrupta) de fala dura e de tiro certo.

Em uma artigo de 1945, Raymond Chandler tentou definir esse tipo de protagonista: “Por essas ruas malvadas, um homem deve ir, um homem que não é malvado, nem manchado, nem amedrontado... Ele deve ser, para usar uma frase bastante desgastada, um homem de honra...”.

“Homem de bem com uma arma” virou fantasia mortal

Os filmes transformaram esse personagem nos preferidos do público

À medida que os filmes se tornaram mais populares, o arquétipo do “homem de bem armado” tomou conta da tela prateada. Humphrey Bogart, o mais famoso ator da época, interpretou Sam Spade, um personagem de Dashiell Hammett, com grande aclamação. No final do século XX, o cara corajoso, de bem e armado já era o maior herói cultural. Estava presente em revistas, jornais, cinema, televisão e videogames.

O problema com esse arquétipo é que ele é apenas isso: um arquétipo. Uma fantasia. Uma ficção. Na ficção, os detetives nunca falham. Sempre são inocentes. Raramente são mentalmente instáveis, em uma profissão onde a instabilidade emocional, decorrente do perigo diário a ser enfrentado, é comum.

Na ficção, eles nunca sentem raiva. Quando esse tipo de detetive entra em choque com a polícia é porque estão fazendo o trabalho da polícia melhor do que a polícia consegue. Mas há uma característica do “homem de bem armado” que não pode ser esquecida: ele é branco.



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