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14/04/2017 07:26

É impossível entender o "Deus" dos brasileiros

Mário Sérgio Lorenzetto
É impossível entender o Deus dos brasileiros

Até os ateus brasileiros acreditam em Deus. Algo como 90% dos brasileiros pensam que ser ricos ou pobres depende de Deus e não deles mesmos. Essa pesquisa do Datafolha mostra que nove de cada dez brasileiros estão convencidos que seu sucesso financeiro depende de Deus. Se todos fossem crentes, seria razoável. O inexplicável está no dado de que 70% das pessoas sem religião também depositam seu sucesso na onisciência divina. Agora vem o dado impossível de entender: 23% dos ateus declaram que seu sucesso também está nas mãos de Deus.

E não apenas os mais pobres e menos escolarizados atribuem a Deus seu sucesso ou fracasso. Aproximadamente 77% das pessoas que concluíram a universidade e ganham R$8.800 também encampam a ideia.
Esse Deus dos brasileiros acaba sendo perigoso, pois anula os próprios esforços das pessoas para melhorar de vida. Esse Deus empurra os pobres para a resignação. Seria somente ele, e não o esforço ou capacitação pessoal, ou a luta por seus direitos, que decide seu presente ou futuro.

Como diz o ditado: "A Deus rogando, mas com martelo batendo". Ou como respondeu Jesus aos judeus: "Dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". A fé religiosa deveria ser impulsionadora de melhorias pessoais, familiares e políticas. Deveria ser a primeira a desmascarar os poderosos sempre que pretendam alienar as consciências com falsas promessas messiânicas. Deus não pode ser um curinga dos governantes para se esquivar de suas responsabilidades. Páscoa é ressurreição, época de conquistar melhorias.

É impossível entender o Deus dos brasileiros

Dom Paulo Evaristo Arns e o Pacto das Catacumbas

A morte levou o último Quixote brasileiro. O otimista que participou do "Pacto das Catacumbas". Foi uma reunião de 41 bispos que juraram viver como pessoas comuns. Em 1959, quando o Papa João XXIII convocou de surpresa o Concílio Vaticano II, mais de 3.000 bispos foram a Roma. Entre os brasileiros destacou-se Arns, com 40 anos à época. Eles se reuniram no silencio das Catacumbas de Domitila para fazer um juramento de fidelidade a um documento com 13 promessas.

A principal seria a de viver em suas dioceses como as pessoas simples, sem palácios ou roupas vistosas, sem bens próprios e compartilhando a vida com o povo comum. Dom Paulo demonstrou até a morte sua fidelidade a esse pacto. Vendeu o palácio episcopal para comprar terrenos nos bairros pobres da periferia, onde ergueu poderosas comunidades. Seu trabalho se desenvolveu, principalmente, nas favelas de São Paulo. Religioso franciscano, culto e de profunda espiritualidade, especialista na história do cristianismo dos primeiros séculos, Dom Paulo sempre militou nas fileiras daqueles que preferem apostar na esperança e não no pessimismo.

É impossível entender o Deus dos brasileiros

Joaquim José da Silva Xavier, o homem que não foi Tiradentes

Faltam documentos para descobrirmos o Tiradentes. Sobram mitos sobre a vida de Joaquim José. Não interessava à Coroa portuguesa testemunhos que pudessem transformar aquele rebelde desconhecido em herói. O Tiradentes que o Brasil republicano criou, quase cem anos depois de sua morte, vendendo-o como herói, nunca pode ser comprovado. A imagem messiânica para deixa-lo parecido com Jesus Cristo é uma das piores fábulas já criadas. Nem cabeludo e muito menos barbudo.

Como desvendar a mudança radical de atitude de um homem que fazia parte da organização da sociedade mineira cruel e desumana, que exterminava índios e escravizava africanos? Sem duvida alguma Joaquim José era uma das pequenas peças nessa máquina de moer gente, para extrair ouro. Então, o que poderia ter desencadeado o sentimento de revolta que o levou ao cadafalso? Um dos raros documentos sobre o ativista nascido na vila de São José del Rei (atual Tiradentes) mostra um Joaquim José mencionando, várias vezes, que colegas alferes tinham sido promovidos a tenente. Menos ele.

A única hipótese que está sustentada por documento é a de que ele tenha sofrido uma frustração profunda, por nunca ter conseguido subir na carreira militar. E isso é muito pouco. Como Joaquim José foi se aproximar do pequeno núcleo de anticolonialistas - padres, intelectuais e fazendeiros? Joaquim José era um militar, como a turma de rebeldes aceitou um possível infiltrado? Quem realmente conspirava contra a Coroa portuguesa corria o risco da forca. Esse não era um risco insignificante. Enfim, quem foi Joaquim José da Silva Xavier? O pouco que conhecemos é que ele não foi Tiradentes, o mártir.



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