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09/01/2019 08:30

Ser pobre no país mais rico da Terra

Mário Sérgio Lorenzetto
Ser pobre no país mais rico da Terra

Levava um par de dias visitando N.York. Estando hospedado em um hotel próximo ao Harlem, passar por esse famoso e histórico bairro de negros, era obrigatório. A surpresa veio ao constatar que nesse bairro já não vivem negros. Latinos, especialmente do Panamá, tomaram conta de quase todas as casas. Os negros viraram fumaça. Sumiram. Ninguém sabia explicar o fenômeno.
Estados Unidos é um país de fronteiras internas. Mais do que em qualquer lugar do mundo, a pobreza é uma expressão geográfica. É algo que separa a classe média dos pobres. No Harlem só vivem pobres. Na outra ponta do Central Park, em Chelsea, só vivem ricos e a classe média. Só há o "sonho americano": casas bem cuidadas, dois carros na garagem, cafés acolhedores, lojas bonitas, ruas agradáveis. Basta cruzar o parque para encontrar edifícios degradados, jardins mal cuidados, locais vazios, lojas desalinhadas, vidros quebrados e medo. Sim, o medo toma conta dos bairros pobres. Quem vive em Chelsea nunca ouviu o barulho de um tiro. Do outro lado, os tiroteios são frequentes. Por todo o país há centenas de cidades e regiões repetindo esse mesmo padrão.

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As diferenças estão nas cidades.

Essas diferenças estão presentes entre as cidades. Tomemos um de muitos exemplos. No oeste, há um município de nome singular: New Canaan. Lá, a renda familiar média é seis vezes superior á de Bridgeport que dista apenas vinte quilômetros de distância. Na primeira, os pobres perfazem tão somente 2% de residentes. Em Bridgeport eles são nada menos de 40%. Em todo o país vemos esse mesmo padrão desde a Califórnia ao Maine, desde a Flrorida - adorada pelos brasileiros - a Washington. A extraordinária segregação nos EUA é uma história antiga, que vem piorando com os anos.

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A segregação começou com o programa para aquisição de moradias.

Tudo começou durante os anos trinta. A administração Roosevelt tentava combater a Grande Depressão e seus efeitos no mercado imobiliário. Até então, as hipotecas só eram concedidas para - pobres e classe média - que pagassem a metade do valor da casa e teriam de pagá-las em cinco anos. Era muito difícil, mas não segregava ninguém.
A mudança veio facilitar da aquisição da moradia. Tinham de dispor de 5% do valor da moradia e pagar a hipoteca em trinta anos. Escondido nos manuais e normas, todavia, tinha uma "pegadinha". Na hora do banco avaliar a possibilidade do empréstimo, o governo criou quatro categorias que iam do tipo "A" até o tipo "D". Os bairros "A" eram de brancos. Os "D" eram formados por negros e latinos. Para os bairros "D" os bancos não emprestavam dinheiro.
Essa prática, conhecida como "redlining", teve um efeito dramático e duradouro na estrutura social e racial dos EUA. As classes "D" continuariam vivendo em bairros com casas degradas e sem dinheiro para melhorias ou mudanças. Os bairros e cidades "D" estão se esvaziando, virando locais fantasmas.

Ser pobre no país mais rico da Terra

Ser pobre nos EUA.

É viver, cada vez mais, isolado. É viver onde os serviços são escassos. Especialmente os educacionais e de saúde - pagos com impostos sobre a moradia. Locais onde a vida é precária e instável. É crescer é viver em um lugar onde não se pode confiar em ninguém. Onde os pais são ausentes. Os crimes estão em quase todas as ruas e as instituições parecem não poder te ajudar.
É claro que ninguém deseja admitir, mas estudos recentes vem demonstrando que a melhor maneira de uma criança pobre tirar boas notas é estudar em colégios onde conviverão com a classe média. A melhor maneira de um jovem encontrar trabalho é residir em um bairro de classe média e não onde estão os "D". A segregação nos EUA, hoje, é social, mesclada com racial. Talvez por desconhecimento, talvez por aventura, talvez por uma fluida esperança ...milhares de brasileiros continuam tentando viver em um bairro "D" dos EUA.



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