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06/03/2017 13:36

Venda de terras para estrangeiros. Eles já estão aqui

Mário Sérgio Lorenzetto
Venda de terras para estrangeiros. Eles já estão aqui

A polêmica sobre a venda de terras para estrangeiros voltou à pauta no Brasil. Desta vez, uma discussão que não foi puxada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o braço do Poder Executivo talvez com maior legitimidade para encampar o debate. Quem traz o assunto à tona é o Ministério da Fazenda. Henrique Meirelles abordou a questão em uma entrevista mais ampla, que tratava de outros temas.

Tentou dar uma conotação ordinária - estratégia clara para não despertar muita polemica - para algo explosivo por natureza. Não necessariamente do ponto de vista político-econômico, mas de soberania. E o processo, ao que parece, está bastante avançado no governo federal. Meirelles afiançou que a venda de terras para estrangeiros será liberada em 30 dias. Em suas palavras, a medida seria um esforço na retomada da economia e um impulso ao agronegócio. Tudo indica que o ministro da Agricultura foi pego de surpresa pelo posicionamento apressado de seu colega. Blairo Maggi já se mostrou favorável à medida, mas parece que foi alvo de "fogo amigo". Talvez seja porque ele quase não para em Brasília.

Mas o fato é outro. A liberação também terá um efeito de regularização do capital estrangeiro que já controla boa parte das terras brasileiras. Aliás, não será esse o principal objetivo da medida governamental? Meirelles é homem que pertence a esse establishment. Só quem nada entende de economia desconhece que os fundos de investimento e até mesmo fazendeiros de outros países já controlam fazendas em vários Estados brasileiros. Em uma sociedade conveniente com brasileiros, estão capitais e pessoas físicas chinesas, indianas e dos EUA controlando milhares de hectares de terras no Matopiba, Mato Grosso, São Paulo e Goiás. Debater se eles virão é não perceber a realidade. Eles já estão aqui.

Venda de terras para estrangeiros. Eles já estão aqui

Três dias que abalaram o mundo. Três depoimentos do fim do comunismo.

Acostumado a uma cultura de guerras, revoluções e grandes reviravoltas políticas, o povo russo assistiu com espanto ao imprevisto silêncio que acompanhou a queda do império soviético e a passagem ao capitalismo. A população se dividia entre os que apostavam em um horizonte de democracia e os que viam com desolação a derrocada da ideologia que por anos dirigira suas vidas. São relatos coletados no furor dos três dias que abalaram o mundo comunista.

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Dia 1. A descoberta do dinheiro.

"O mundo se desfez em dezenas de pedacinhos coloridos. Como nós queríamos que a monotonia cinza soviética logo se transformasse nas doces imagens do cinema americano... Aqueles três dias que abalaram o mundo, mas não nos abalaram... Duas mil pessoas protestando, e as demais passavam por elas e as olhavam como se fossem idiotas. Bebeu-se muito, e sempre se bebe muito no nosso país, mas naquela época em particular bebeu-se mais ainda. A sociedade ficou paralisada: para onde estamos indo? Teremos capitalismo ou teremos um socialismo bom? Os capitalistas são gordos, são horríveis: foi isso que enfiaram na nossa cabeça na infância... (Risos)

O país ficou repleto de bancos e de vendinhas de rua. Apareceram coisas muito diferentes. Não mais botas grosseiras e vestidos de velhinha, mas coisas com que nós sempre tínhamos sonhado: jeans, peliças, roupas íntimas femininas e louça de qualidade... Tudo colorido, bonito. As nossas coisas soviéticas eram cinzas, ascéticas, pareciam objetos de guerra. As bibliotecas e os teatros ficaram vazios. Foram substituídos por feitas e lojas comerciais. Todos queriam ser felizes, e queriam ser felizes agora mesmo. Como crianças, descobriam um novo mundo... Pararam de desmaiar nos supermercados... Um rapaz que eu conhecia começou um negócio.

Ele me contou que na primeira vez trouxe mil latas de café solúvel: levaram tudo em uns dois dias. Comprou cem aspiradores de pó: também limparam tudo na mesma hora. Casacos, blusas, todo tipo de coisas: passe para cá! Todos trocaram as roupas, trocaram os sapatos. Substituíram os eletrodomésticos e os móveis. Reformaram as "datchas" [casas de campo]... Quiseram fazer cercas e telhados bonitinhos... Ás vezes eu e meus amigos começamos a relembrar e quase morremos de rir... Éramos malucos! As pessoas estavam completamente empobrecidas. Precisávamos aprender tudo...

Na época soviética, era permitido ter muitos livros, mas não um carro caro e uma casa. E nós aprendemos a nos vestir bem, a cozinhar coisas saborosas, beber suco e tomar iogurte de manhã... Até então eu desprezava o dinheiro, porque não sabia o que era isso. Na nossa família, ninguém podia falar de dinheiro. Era vergonhoso. Nós crescemos num país onde o dinheiro não existia, pode-se dizer. Eu recebia meus 120 rublos como todo mundo, e era o bastante. O dinheiro veio com a “perestroika".

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Dia 2. A arte de parar um tanque com bolos e batatas.

Dá para rir desses dias, chamar de opereta. A zombaria está na moda. Mas na época tudo que aconteceu foi a sério. Foi honesto. Tudo era verdadeiro, e todos nós éramos verdadeiros. Pessoas desarmadas ficaram na frente dos tanques, dispostas a morrer. Eu estive nessas barricadas e vi essas pessoas, elas tinham vindo do país inteiro. Umas velhinhas moscovitas, velhotas indefesas, levavam bolos de carne, batatas quentes embrulhadas num pano de prato.

Davam comida para todo mundo... Para os tanquistas também: "Comam , meninos. Só não atirem. Você não vão atirar, vão? Os soldados não entendiam nada. Quando eles abriram as escotilhas e saíram dos tanques, ficaram pasmos. Moscou inteira estava nas ruas! As mocinhas subiam na torre dos tanques, iam até eles para abraçá-los, beijá-los. Serviam pãezinhos. Tinha um major... Quando ele foi cercado pelas mulheres, os nervos não aguentaram, e ele gritou: "Mas eu mesmo sou pai. Não vou atirar! Juro para vocês que não vou atirar! Contra o povo não avançaremos!"

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Dia 3. Bebem de loção de pepino até gasolina.

"Eu trabalhava de serralheiro numa fábrica... Fiquei sabendo da tentativa de golpe na região de Vorónej... Estava visitando minha tia. Todo esse clamor sobre a grandeza da Rússia é uma merda completa. Patriotas de araque! Só ficam na frente da tv. Se saíssem de Moscou e andassem uns cinquenta quilômetros... Se olhassem para as casas, como as pessoas vivem. Como são as festas com bebida...

No campo quase não tem homem mais. Morreram todos. Eles têm tanta consciência quanto um animal, bebem até morrer. Até cair. Bebem tudo que arde: de loção de pepino até gasolina para carro. Bebem e depois brigam. Toda família tem alguém que foi preso ou está preso. A polícia mal dá conta. Só a mulherada não desiste, elas continuam mexendo nas suas hortas. Se sobraram dois ou três homens que não bebem, eles já foram para Moscou, ganhar dinheiro.

Os tanques em Moscou... as barricadas... No campo ninguém ficou particularmente tenso a esse respeito. Ninguém se apoquentou. Todo mundo estava mais preocupado com o besouro-da-batata e com a traça do repolho. Ele é resistente, esse besouro. E os moleques novos só pensavam em dinheiro e mulher.

E um lugar para descolar uma garrafa de noite. Foi assim que eu entendi... Não eram todos comunistas, mas todos queriam um país grande. Tinham medo das mudanças, porque depois de qualquer mudança o homem simples ficava sempre na pior. Eu me lembro de meu avô dizendo: "Antes nossa vida era uma bela merda, mas depois ficou ainda pior". Antes da guerra e depois da guerra, viviam sem passaporte. Não davam passaporte para o pessoal do campo, não deixavam ir para a cidade.

Eram escravos. Eram prisioneiros. Voltaram da guerra condecorados. Conquistaram meia Europa! Mas viviam sem passaporte!

Em Moscou fiquei sabendo que todos os meus amigos estavam nas barricadas. Participando da bagunça. (Risos).

*Os três depoimentos, e outros milhares, foram coletados por Svetlana Aleksiévitch.



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