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    Emanuel Steffen - www.mayel.com.br


27/11/2015 08:45

Voltando às origens

Por Emanuel Gutierrez Steffen (*)

Mudanças interessantes estão acontecendo na economia brasileira. Diante do fracasso na infraestrutura em prover água, condomínios de São Paulo cavam poços artesianos, como faziam os imigrantes há mais de um século. Diante das incertezas do emprego e dos preços futuros, famílias se reúnem para comprar no atacado e fazer estoques, como nos tempos de hiperinflação. Reservamos baldes de água do chuveiro para dar descarga, como se fazia há dois séculos. À noite, nossas casas iluminam-se pouco, como nos tempos da lamparina. Em tempos de crise, o consumo nas feiras se concentra na hora da xepa. Em razão da violência e dos altos preços dos restaurantes, amigos cozinham uns para os outros e se encontram em casa.

Nem todos os velhos hábitos beneficiam a coletividade. Não me surpreenderei se famílias voltarem a se armar para compensar o sucateamento das polícias ou se o comércio voltar às práticas informais de pagamento para se defender da possível volta da CPMF. Estamos resgatando hábitos que, aparentemente, estavam relegados aos livros de história.

Mas é fato que a sociedade vem se moldando à conjuntura de maior escassez. Nos países mais desenvolvidos, o fenômeno ocorre em razão do intenso debate sobre sustentabilidade e responsabilidade social e ambiental – os hábitos mudam porque surge um novo jeito de ver o mundo. No Brasil, as mudanças ocorrem porque a população tem de se defender contra a falta de planejamento governamental para o longo prazo – os hábitos mudam por uma questão de sobrevivência.

Esse movimento pode não ser uma simples defesa contra a crise. No momento, trata-se de questão de sobrevivência. Mas o tempo pode provar que esse resgate de hábitos tem bons resultados no longo prazo. Ele pode tornar a sociedade menos dependente de um planejamento governamental que nunca se mostra eficaz ou menos dependente de itens de conforto que se encarecem.

Podemos estar vivendo a inflexão de um ciclo histórico de consumo crescente para um novo ciclo, mais sustentável. Se nos educarmos para a conscientização dos benefícios dessa mudança e soubermos aproveitar as novas prioridades para adotar um consumo mais equilibrado, a atual crise terá um significado especial para a sociedade brasileira. Quem sabe não entram para os livros de história maus hábitos como o excesso de compras a prazo, o deslumbramento por promoções, o endividamento ingênuo, a sede por imitar a vida artificial das novelas, a ostentação do consumo? Cuida bem do teu jardim. O próximo passo da sociedade pode ser garantir o seu pomar no quintal de casa.

Fonte: maisdinheiro.com.br
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(*) Emanuel Gutierrez Steffen, criador do portal www.mayel.com.br

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