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Momento Saúde Bucal

A falta de saúde bucal e os riscos na terceira idade

Por Marco Polo Siebra (*) | 04/08/2026 09:10



A dona Maria, 74 anos, chegou ao consultório arrastando os pés, o semblante cansado e o diagnóstico de "fraqueza sem causa aparente". Ela já tinha consultado três médicos nos últimos meses. O coração estava ok. A glicemia, controlada. A pressão, dentro do normal. Mas ela continuava perdendo peso, sem energia, com infecções de repetição. Quando abri a boca dela, a resposta estava ali: uma infecção periodontal generalizada, dentes com mobilidade avançada e uma prótese velha que não encaixava há anos. Dona Maria não estava doente do coração. Ela estava doente da boca — e a boca estava intoxicando o corpo inteiro.

O que muitos ainda ignoram é que a saúde bucal não é um departamento isolado do corpo. Ela é a porta de entrada para o organismo. E quando essa porta está contaminada, o resto da casa sente.

As doenças da terceira idade que começam na boca

A ciência de hoje não tem mais dúvidas: existe uma via de mão dupla entre a saúde bucal e as principais doenças crônicas que afetam os idosos. A periodontite — aquela inflamação silenciosa da gengiva — cria feridas abertas por onde bactérias e toxinas entram livremente na corrente sanguínea. O resultado é uma cascata de inflamação sistêmica que agrava ou até desencadeia condições graves.

Doenças cardiovasculares: Estudos mostram que pessoas com periodontite têm até 25% mais risco de desenvolver doenças cardíacas. As mesmas bactérias encontradas na placa bacteriana da boca já foram identificadas dentro de placas de ateroma nas artérias do coração. O infarto muitas vezes começa com uma gengiva que sangra.

Diabetes descompensado: No idoso diabético, a relação é ainda mais cruel. A inflamação periodontal piora o controle glicêmico, e o diabetes mal controlado agrava a periodontite. É um ciclo vicioso que só se rompe tratando a boca. Um paciente que controla a saúde bucal pode reduzir a hemoglobina glicada em níveis comparáveis a um segundo medicamento.

Pneumonia aspirativa: Uma das principais causas de morte no idoso acamado ou com dificuldade de deglutição é a pneumonia por aspiração. O que poucos sabem é que as bactérias responsáveis vêm, na maioria das vezes, da boca. Uma boca mal higienizada em um idoso acamado é como um reservatório de bactérias pronto para invadir os pulmões.

Alzheimer e declínio cognitivo: Como já abordamos aqui na coluna, a neuroinflamação desencadeada por bactérias periodontais que atravessam a barreira hematoencefálica é um dos fatores aceleradores do Alzheimer. Cuidar da gengiva hoje é proteger a memória amanhã.

Por que o idoso é mais vulnerável?

Com o envelhecimento, o sistema imunológico responde de forma menos eficiente. A produção de saliva diminui — seja pela idade, seja pelos medicamentos — e a saliva é o principal protetor natural da boca. A capacidade de reparação dos tecidos fica mais lenta. Por tudo isso, o que em um jovem seria uma gengivite leve, em um idoso pode se tornar uma infecção sistêmica grave.

3 atitudes que protegem o corpo inteiro

  1. Trate a gengiva como trata o coração: Sangramento gengival não é normal em nenhuma idade, muito menos na terceira idade. Se a gengiva sangra, há inflamação ativa. Procure um odontogeriatra.
  2. Higiene bucal é parte do tratamento do diabetes e do coração: Se você ou um familiar tem doenças crônicas, inclua a consulta odontológica no calendário de exames de rotina — com a mesma prioridade do cardiologista e do endocrinologista.
  3. Atenção redobrada ao idoso acamado: A higiene bucal de quem não consegue mais escovar os dentes sozinho é responsabilidade do cuidador. Use gaze ou escova de cerdas ultra macias, mantenha a boca hidratada e jamais ignore o mau hálito persistente — ele é o sinal de que algo está inflamado.

A boca não é um órgão isolado. Ela é o termômetro da saúde do idoso. Ignorar os sinais que ela dá é fechar os olhos para o que o corpo está gritando. Cuidar do sorriso de quem envelhece não é estética — é prevenção, é dignidade, é vida que dura.

(*) Dr. Marco Polo Siebra Odontólogo (CRO/MS 2172), Especialista em Prótese Dentária, Odontogeriatria, Implantodontia e Neurociência.

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