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Momento Saúde Bucal

Alzheimer e higiene oral

Por Dr. Marco Polo Siebra (*) | 18/07/2026 08:14

Quando recebemos o diagnóstico de Alzheimer na família, o foco naturalmente se volta para a perda de memória, o comportamento e a segurança do paciente. Mas há um aspecto que, por mais simples que pareça, frequentemente se torna um dos maiores campos de batalha diários: a higiene bucal.

Como fundador do Grupo de Apoio Alzheimer MS e Odontogeriatra, ouço relatos semelhantes todas as semanas. "Dr., meu pai não deixa mais ninguém chegar perto da boca dele." "Minha mãe esqueceu como se escova os dentes." "Tenho medo de machucá-la." Essas falas revelam uma realidade silenciosa: o declínio cognitivo transforma um ato mecânico — escovar os dentes — em uma experiência aversiva e confusa para o paciente e exaustiva para o cuidador.

Por que a higiene bucal se torna um desafio no Alzheimer?

A progressão da doença afeta áreas do cérebro responsáveis pela coordenação motora fina, pela memória procedural ( que é aquela que guarda sequências de ações, como "pegar a escova, colocar pasta, escovar") e pela percepção sensorial. O resultado é que o paciente pode:

  • Não reconhecer a escova de dentes como um objeto familiar, interpretando-a como algo estranho ou ameaçador.
  • Esquecer a sequência do movimento, gerando frustração e ansiedade.
  • Sentir dor ou desconforto com a abertura da boca, comum em idosos com próteses mal ajustadas ou lesões na mucosa.
  • Apresentar resistência ativa, como morder a escova ou virar o rosto, por não compreender a intenção do cuidador.

Estratégias de manejo baseadas na neurociência

A boa notícia é que existem abordagens práticas, validadas pela neurociência, que transformam esse momento de tensão em um cuidado acolhedor:

  1. Técnica do "Mãos sobre Mãos": Posicione-se ao lado ou atrás do paciente e coloque sua mão sobre a mão dele, guiando o movimento da escova. Isso reduz a sensação de invasão e preserva a autonomia residual. O cérebro interpreta o toque guiado como menos ameaçador do que a escovação feita por outra pessoa.
  2. Ambiente Preparado e Rotina Fixa: Realize a higiene sempre no mesmo horário, no mesmo local e com os mesmos instrumentos. A previsibilidade reduz a carga de estresse no sistema límbico (centro emocional do cérebro), tornando a tarefa mais tolerável.
  3. Comunicação Simplificada: Evite perguntas abertas como "Vamos escovar os dentes?". Use comandos diretos e passo a passo: "Abre a boca. Agora vou escovar os dentes da frente." Cada instrução concluída ativa uma pequena recompensa neural, reduzindo a ansiedade.
  4. Instrumentos Adaptados: Prefira escovas com cabos longos e grossos (mais fáceis de segurar), cerdas ultra macias (para não machucar gengivas sensíveis) e cremes dentais com sabor neutro. Sabores fortes de menta podem causar aversão em pacientes com alterações sensoriais.
  5. Lubrificação é Cuidado Essencial: Muitos medicamentos usados no Alzheimer causam xerostomia (boca seca). Ofereça água frequentemente e use géis hidratantes orais para prevenir feridas e cáries. A boca seca é uma das principais causas de desconforto e recusa alimentar.

Quando a clínica diz "não"

É preciso honestidade: haverá dias em que o paciente recusará completamente o cuidado bucal, e tudo bem. Nenhum cuidador consegue acertar todos os dias. O importante é não desistir e buscar ajuda profissional sempre que notar sangramento excessivo, mau hálito persistente, mudança de comportamento, recusa de alimentos ou perda de peso por dificuldade de mastigação.

No Grupo de Apoio Alzheimer MS, compartilhamos essas experiências e aprendemos que cuidar de quem cuida é tão urgente quanto cuidar de quem já não lembra. A higiene bucal do paciente com Alzheimer não é sobre perfeição; é sobre dignidade, afeto e preservação da qualidade de vida até o fim. Um forte abraço até o próximo vídeo.

(*) Dr. Marco Polo Siebra Odontólogo (CRO/MS 2172), Especialista em Prótese Dentária, Odontogeriatria, Implantodontia e Neurociência.

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