Quando a gengiva fala, o coração escuta
O sr. Waldir, 71 anos, nunca fumou, controlava a pressão e caminhava todos os dias. Mesmo assim, sofreu um infarto que pegou a família de surpresa. Quando os cardiologistas investigaram as causas, encontraram um vilão silencioso que ninguém havia olhado: uma periodontite severa, com gengivas que sangravam havia anos. "Mas doutor, o que a gengiva tem a ver com o coração?" — foi a pergunta que a esposa dele me fez, e que eu ouço quase toda semana.
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A resposta é mais direta do que se imagina: a boca é uma das portas de entrada mais negligenciadas para as doenças do coração.
A ponte entre a gengiva e o coração
Estudos epidemiológicos mostram que pessoas com periodontite têm até 25% mais risco de desenvolver doenças cardiovasculares. O mecanismo é fascinante e assustador ao mesmo tempo. Quando a gengiva inflama, ela forma pequenas feridas abertas por onde as bactérias da placa bacteriana entram livremente na corrente sanguínea.
Uma vez no sangue, essas bactérias viajam pelo corpo e podem se alojar nas paredes das artérias, contribuindo para a formação de placas de ateroma — aquelas placas que endurecem e obstruem os vasos. Estudos já identificaram bactérias tipicamente bucais, como a Porphyromonas gingivalis, dentro de placas de ateroma retiradas de artérias de pacientes cardíacos. A inflamação periodontal também eleva os níveis de proteína C-reativa, um marcador inflamatório diretamente associado ao risco de infarto e AVC.
Em outras palavras: cada vez que a gengiva sangra, o coração recebe um alerta.
O idoso está ainda mais exposto
Na terceira idade, essa relação ganha contornos ainda mais graves. O acúmulo de fatores de risco — hipertensão, diabetes, colesterol alto — combinado com décadas de inflamação periodontal silenciosa cria uma tempestade perfeita. Muitos idosos convivem com gengivas que sangram há 20, 30 anos, sem nunca terem associado isso ao coração. E é exatamente esse o perigo: a periodontite é uma doença silenciosa, que não dói até estar avançada.
3 Orientações Práticas
Gengiva que sangra não é normal, em nenhuma idade: Se a escova fica rosada ao escovar, há inflamação ativa. Procure um odontogeriatra e trate a causa, não apenas o sintoma.
Inclua o dentista no time do coração: Se você ou um familiar tem doença cardiovascular, a consulta odontológica deve ter a mesma prioridade da consulta com o cardiologista. A saúde bucal é parte do tratamento cardíaco.
Informe seus médicos: Conte ao cardiologista sobre sua saúde bucal e ao dentista sobre seu histórico cardíaco. Essa troca de informações pode salvar vidas — especialmente em procedimentos que envolvem sangramento.
Cuidar da gengiva é cuidar do coração. O sorriso que você preserva hoje é o batimento que você protege amanhã.
(*) Dr. Marco Polo Siebra Odontólogo (CRO/MS 2172), Especialista em Prótese Dentária, Odontogeriatria, Implantodontia e Neurociência.
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