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Ninguém acima da lei

O dever antes da vontade: maturidade e responsabilidade

Por André Borges (*) | 10/08/2026 18:20

Há uma frase que tenho repetido e que, quanto mais o tempo passa, mais verdadeira me parece: “ser adulto não é fazer o que se quer, mas fazer o que deve ser feito.” Parece óbvia. Não é. Boa parte dos problemas da vida nasce justamente da dificuldade de compreender essa diferença.

A criança quer satisfação imediata. Quer brincar quando deveria estudar, comer apenas aquilo de que gosta e abandonar rapidamente o que ficou difícil. Faz parte da infância. A maturidade começa quando percebemos que a vida não pode ser organizada somente em torno da vontade. Há contas para pagar, compromissos para cumprir, horários, família, trabalho e responsabilidades. Nem tudo é agradável. Mas precisa ser feito.

É aí que entra uma palavra hoje pouco valorizada: disciplina. Levantar quando seria melhor continuar dormindo. Estudar quando existe algo mais divertido para fazer. Trabalhar quando o cansaço recomenda descanso. Economizar quando a vontade é gastar. São pequenas renúncias que, somadas durante muitos anos, constroem uma vida.

Nas profissões jurídicas isso é ainda mais evidente. A advocacia, por exemplo, tem muito pouco do glamour que algumas pessoas imaginam. Existem prazos, processos difíceis, clientes exigentes, derrotas, noites de estudo e audiências que nem sempre terminam como gostaríamos. O advogado responsável não trabalha apenas quando está inspirado. Prazo não pergunta se estamos com vontade.

Com o magistrado não é diferente. Julgar significa decidir sobre patrimônio, liberdade, família e, algumas vezes, sobre o destino inteiro de uma pessoa. É mais confortável decidir rapidamente. Mais fácil acompanhar a opinião pública. Mais agradável receber aplausos. Mas o dever do juiz não é agradar. É estudar o processo, ouvir os argumentos e decidir de acordo com o Direito e com sua consciência.

O membro do Ministério Público também carrega enorme responsabilidade. Possui instrumentos poderosos de investigação e acusação. Justamente por isso precisa saber quando agir e, talvez mais importante, quando não agir. Poder sem disciplina facilmente se transforma em abuso.

A Defensoria Pública enfrenta realidade igualmente dura. Quem procura um defensor geralmente está vivendo algum problema sério e não possui recursos para contratar advogado. São milhares de processos e pessoas esperando atenção. É trabalho que exige preparo, paciência e, principalmente, consciência do dever.

Advogados, magistrados, promotores e defensores possuem funções diferentes, às vezes estão em lados opostos, mas há algo que deveria uni-los: responsabilidade. Nenhuma dessas profissões permite que seus integrantes façam simplesmente aquilo que desejam. Existem limites, deveres e consequências.

Talvez este seja um bom ensinamento para quem está começando no Direito. Não espere gostar de tudo. Haverá livros que você não terá vontade de ler, processos que preferiria não enfrentar, clientes difíceis, decisões desagradáveis e dias em que trabalhar será a última coisa que desejará fazer. Faça assim mesmo.

A maturidade profissional aparece justamente nesses momentos. É relativamente fácil ser competente quando existe entusiasmo. Difícil é manter a qualidade quando ninguém está olhando, quando não haverá elogio e quando a tarefa é simplesmente cansativa. É aí que se separa a vontade do compromisso.

No final, uma carreira respeitada é construída muito mais pelo cumprimento silencioso de deveres do que pelos grandes momentos. Quem faz apenas o que quer ainda vive segundo a lógica da criança. O adulto aprende que liberdade não é ausência de obrigações. É ter responsabilidade suficiente para fazer o que precisa ser feito, mesmo quando a vontade manda fazer outra coisa.

(*)André Borges, advogado e professor de direito constitucional.