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Ninguém acima da lei

O mito da simplificação tributária

Por André Borges (*) | 30/06/2026 13:20

A reforma tributária foi apresentada como uma das maiores mudanças econômicas das últimas décadas. A promessa era sedutora: simplificar o sistema tributário brasileiro, reduzir burocracias e tornar o país mais competitivo. Quem não gostaria de um sistema mais simples e menos oneroso?

O problema é que, passados os primeiros momentos de entusiasmo, começam a surgir dúvidas importantes. E elas merecem ser debatidas antes que a realidade substitua o discurso.

Uma das maiores preocupações envolve o setor de serviços. Escritórios de advocacia, consultórios médicos, empresas de tecnologia, engenharia, arquitetura e inúmeras outras atividades trabalham com poucos insumos que gerem créditos tributários. O resultado pode ser um aumento significativo da carga tributária, com inevitável repasse dos custos ao consumidor.

Também preocupa o período de transição. Durante alguns anos conviverão o sistema antigo e o novo modelo, obrigando empresas a manter duas estruturas tributárias simultaneamente. Isso significa novos investimentos em tecnologia, treinamento de pessoal, consultorias e revisão de procedimentos internos. O risco de erros, autuações e multas tende a aumentar.

Outro ponto que desperta preocupação é o grande número de exceções criadas ao longo da tramitação da reforma. A ideia inicial era construir um sistema uniforme e simples. Entretanto, sucessivas concessões a setores específicos produziram diversos regimes diferenciados. Quanto mais exceções existem, maior tende a ser a complexidade da legislação e maior também a possibilidade de novos conflitos judiciais.

Aspecto pouco discutido diz respeito à criação do Comitê Gestor do IBS, responsável pela arrecadação e distribuição de parcela relevante dos novos tributos. A centralização dessas atribuições levanta questionamentos sobre a autonomia financeira de Estados e Municípios, além dos desafios de governança que inevitavelmente acompanharão um órgão dessa dimensão.

Talvez o maior problema seja justamente a distância entre a expectativa criada e aquilo que poderá ocorrer na prática. Vendeu-se, e muito bem, a ideia de que a reforma simplificaria o sistema tributário e reduziria impostos. Gostaria sinceramente que isso acontecesse. Mas, diante do texto aprovado e das inúmeras regulamentações ainda pendentes, confesso ter sérias dúvidas.

O Brasil continua convivendo com elevada carga tributária, excesso de normas, mudanças constantes e enorme insegurança jurídica. A simples substituição de tributos por outros não garante, por si só, simplificação nem redução do custo de produzir, investir e gerar empregos.

Naturalmente, toda grande reforma merece tempo para amadurecer. Mas isso não impede uma análise crítica. Quando se trata de tributação, os erros são pagos por toda a sociedade. Empresas investem menos, consumidores pagam mais e o desenvolvimento econômico perde velocidade.

Espero sinceramente estar equivocado. Torço para que a reforma alcance os resultados prometidos. Mas, até aqui, a impressão é outra: talvez tenhamos construído um sistema diferente, porém não necessariamente mais simples, nem menos caro. E, em matéria tributária, promessas só se confirmam quando produzem resultados concretos para quem trabalha, empreende e paga impostos.

(*)André Borges, advogado e professor de direito constitucional.