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Ninguém acima da lei

A sorte de ser vizinho de São Paulo

Por André Borges (*) | 07/07/2026 14:55

São Paulo celebra, em 9 de julho, seu mais importante feriado cívico: a Revolução Constitucionalista de 1932. À primeira vista, pode parecer uma data exclusivamente paulista. Mas não é. Para quem vive em Mato Grosso do Sul, ela também guarda um significado especial. Nossa história está profundamente ligada à de São Paulo.

A geografia teve papel decisivo nessa aproximação. Somos vizinhos do maior centro econômico do país. Compartilhamos estradas, comércio, investimentos, universidades e relações familiares. Ao longo das décadas, essa proximidade ajudou a impulsionar o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul e continua sendo uma de nossas maiores vantagens estratégicas.

Mas esse vínculo não nasceu apenas da economia. Ele foi construído também pela história.

Em 1932, quando São Paulo se levantou em defesa de uma nova Constituição, lideranças do sul do então Estado de Mato Grosso enxergaram naquele movimento uma oportunidade para realizar um antigo sonho: a emancipação política da região. A insatisfação com a administração sediada em Cuiabá já era antiga. Faltavam investimentos, infraestrutura e maior participação nas decisões políticas.

Foi nesse contexto que surgiu o Estado de Maracaju, com capital em Campo Grande. Sob a liderança de Vespasiano Barbosa Martins e com apoio militar do general Bertoldo Klinger, constituiu-se um governo próprio que aderiu à causa constitucionalista paulista. A região tornou-se importante corredor de apoio ao movimento e participou diretamente do conflito, inclusive com combates históricos, como o de Porto Murtinho.

A Revolução Constitucionalista acabou derrotada militarmente. Com isso, o Estado de Maracaju deixou de existir poucos meses depois, e o sul voltou a integrar o antigo Mato Grosso. Mas as ideias raramente morrem com as derrotas. Aquela mobilização fortaleceu a identidade regional e plantou a semente que, décadas mais tarde, culminaria na criação do Estado de Mato Grosso do Sul.

Há uma comparação interessante. Uma árvore não nasce no dia em que aparece acima da terra. Antes disso, passa muito tempo criando raízes invisíveis. Assim também ocorreu com Mato Grosso do Sul. Nossa criação, em 1977, não foi um acontecimento isolado. Foi resultado de um processo histórico longo, do qual 1932 representa um dos capítulos mais importantes.

Também não é coincidência que tantos laços permaneçam vivos até hoje. Boa parte da produção sul-mato-grossense encontra em São Paulo seu principal mercado consumidor. Muitas empresas paulistas investem aqui. Nossos estudantes frequentam universidades paulistas, enquanto milhares de paulistas escolheram Mato Grosso do Sul para viver, produzir e formar suas famílias.

Por isso, talvez possamos dizer que o 9 de julho também guarda um pouco da nossa história. Não porque tenhamos participado apenas de um movimento militar, mas porque compartilhamos ideais, desafios e um percurso histórico que aproximou definitivamente os dois Estados.

Celebrar essa data é também recordar homens públicos como Vespasiano Barbosa Martins e tantos outros que acreditaram que esta região possuía identidade própria e capacidade para construir seu próprio futuro. Eles compreenderam que o desenvolvimento exige autonomia, planejamento e instituições fortes.

Mato Grosso do Sul tem inúmeras razões para valorizar sua posição geográfica. Ser vizinho de São Paulo nunca foi apenas uma circunstância do mapa. Foi, e continua sendo, uma oportunidade de crescimento, integração e desenvolvimento. Há vizinhanças que aproximam apenas territórios. A nossa aproximou histórias.

Neste 9 de julho, portanto, os paulistas comemoram sua grande data cívica. E nós, sul-mato-grossenses, temos bons motivos para celebrar ao lado deles. Afinal, parte da nossa própria história também começou a ser escrita naquele movimento que mudou, para sempre, o destino das duas regiões.

(*)André Borges, advogado e professor de direito constitucional.