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Direto das Ruas

Em bairro escuro e sem asfalto, moradores vivem em clima de faroeste

Conforme os relatos, “toque de recolher” na região vigora muito antes da pandemia e tem relação com outro mal: a violência

Por Maressa Mendonça e Bruna Marques | 24/06/2020 13:58
Rua do bairro Noroeste poderia ser usada como cenário de filme no estilo faroeste (Foto: Marcos Maluf)
Rua do bairro Noroeste poderia ser usada como cenário de filme no estilo faroeste (Foto: Marcos Maluf)


O toque de recolher no bairro Noroeste, localizado na região leste de Campo Grande, começou muito antes do início da pandemia do coronavírus e não tem relação com a doença, mas com outro mal: a violência. Para os moradores viver na região, sem iluminação pública ou asfalto, é como estar em um filme de faroeste em que o som de um tiro pode ser ouvido de uma hora para outra.

A corretora de imóveis Jane Clara Inácio Garcia, de 60 anos, mora no bairro desde 2005 e acompanhou poucas melhoras desde então. Na terça-feira (23), saiu de casa por volta das 6h para trabalhar e quando retornou às 16h percebeu que a casa tinha sido invadida.

Jane conta que os criminosos arrombaram uma janela aos fundos da residência, entraram na casa e fugiram levando uma televisão, celular, caixa de bijuterias e até a comida que estava no freezer. Eles só deixaram uma impressora para trás porque não conseguiram desinstalar o aparelho.

Em bairro marcado por violência, o botijão fica preso com correntes e cadeado para não ser levado por ladrões (Foto: Marcos Maluf)
Em bairro marcado por violência, o botijão fica preso com correntes e cadeado para não ser levado por ladrões (Foto: Marcos Maluf)


“O bairro tem o estigma de ser de maloqueiro e de família de preso, mas aqui não tem lei. O apelido do bairro é Faroeste”, declara, lamentando o trocadilho feito com o nome da região. “Não temos segurança. É invasão, é roubo, é assalto. As autoridades não tomam providência. Estamos à mercê. É uma briga de um só”, diz.

E os motivos para brigar não são poucos. Jane começa apontando para a fallta de pavimentação no cruzamento da Avenida Marechal Malet com a Rua Asa Branca. “Fica intransitável quando chove. Só passa o caminhão de lixo e com dificuldade”.

A falta de iluminação pública é outro motivo de preocupação. Jane instalou refletores na porta de casa, mas conta que depois de um certo horário é difícil ver moradores nas ruas. “À noite isso aqui fica um breu. O que a gente vê é ‘zé droguinha’ e bandido”.

Jane conta que nestes 15 anos em que mora no bairro já ouviu tiros por diversas vezes. “Uma hora pode acertar aqui em casa. É uma situação difícil. Não temos paz. Aqui no Noroeste você não sabe se desvia do bandido ou do buraco”.

Moradores evitam percorrer a Rua Almeida durante à noite porque não há iluminação (Foto: Marcos Maluf)
Moradores evitam percorrer a Rua Almeida durante à noite porque não há iluminação (Foto: Marcos Maluf)


A educadora Vera Lucia de Oliveira Lima, de 49 anos, faz queixas semelhantes. Ela mora com outras 6 pessoas em residência localizada na Rua Almeida, onde não há poste de iluminação e revela que os furtos de energia, conhecidos como gatos, fazem parte da rotina dos moradores que tentam deixar as vias um pouco mais claras.

“A nossa maior dificuldade é ter de viver nessas ruas sem iluminação ou asfalto. À noite isso aqui fica um breu. Se chove fica impossível sair com o carro e ainda tem a segurança”.

Vera já teve a casa invadida por criminosos por mais de uma vez e decidiu construir um muro mais alto para evitar as invasões. Durante a construção até parte dos materiais de construção chegaram a ser levados. “Eu tenho criança em casa e fico com medo. Fico com medo de sair também, de chegar e não ter mais nada aqui”.

A educadora conta que paga quase R$ 1 mil de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e não vê o retorno deste investimento. “Minha maior revolta é não ter o mínimo de manutenção aqui”, diz.

Segundo ela, os moradores que usam cadeira de rodas têm sofrimento dobrado com a falta de calçadas e pavimentação que dificulta ainda mais a locomoção. “É complicado viver nessas condições. Estamos esquecidos. O bairro está abandonado”, finaliza.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura para saber se há previsão de pavimentação e instalação de postes de iluminação pública na região e aguarda resposta.

A corretora de imóveis Jane Garcia mora no bairro Noroeste (Foto: Marcos Maluf)
A corretora de imóveis Jane Garcia mora no bairro Noroeste (Foto: Marcos Maluf)


O Campo Grande News também enviou email para assessoria de imprensa da Polícia Militar para confirmar se o bairro está entre os mais violentos da cidade e se há projetos específicos para reduzir a criminalidade na região.

Em nota, eles informaram que teve uma redução significativa no número de ocorrências na região, em um comparativo entre os meses de maio de 2019 e maio de 2020. Eles citaram roubo em via pública e violência doméstica. No primeiro caso, a queda foi de 41% e de 26% no segundo.

“A PM atua na Região através do 9º Batalhão de Polícia Militar, que emprega policiamento ostensivo e preventivo para atendimento das chamadas do 190, com o reforço das Unidades Especializadas (Batalhões de Choque, BOPE, Cavalaria e Trânsito), que fazem o implemento em ações direcionadas às especificidades da área”, responderam.

Eles enfatizaram ainda a importância dos registros de boletins de ocorrência. “Eles servem como fonte para direcionar recursos humanos e materiais, otimizando os meios necessários para proporcionar maior segurança à comunidade”.

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