MS deve sentir efeitos moderados de nova tarifa da China sobre a carne
Economista aponta peso do mercado brasileiro como amortecedor, enquanto frigoríficos ficam mais expostos
Embora Mato Grosso do Sul entre no radar de incertezas impostas pela nova salvaguarda da China sobre a carne bovina, os pecuaristas devem escapar, ao menos no primeiro momento, dos impactos mais severos da medida, mesmo sendo o país asiático o principal parceiro comercial externo da carne in natura. A análise é do economista Daniel Massen Frainer, professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
RESUMO
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A China estabeleceu uma nova salvaguarda para importação de carne bovina brasileira, com cota anual de 1,1 milhão de toneladas. Volumes excedentes serão taxados em 67%, medida que vigorará até dezembro de 2028. Em 2023, o Brasil exportou cerca de 1,7 milhão de toneladas para o país asiático. Em Mato Grosso do Sul, os impactos devem ser moderados, já que 84,3% da produção atende ao mercado interno. O estado exportou 131,86 mil toneladas para a China entre janeiro e novembro de 2023, representando 60,3% das exportações estaduais do produto. Especialistas preveem queda de 2% na produção brasileira em 2026.
Já no caso do Brasil, um relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA aponta um cenário complexo para o país, que terá o desafio de ampliar e diversificar a pauta de exportação da produção de carne bovina, ainda que os impactos adversos sejam minimizados em meio à redução da oferta mundial de proteína bovina. A estimativa é de queda de 2% da produção brasileira em 2026 e de aumento do déficit produtivo dos Estados Unidos (EUA).
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O professor da UEMS analisou os efeitos da guerra comercial internacional no mercado local de Mato Grosso do Sul e afirmou que a forte dependência do mercado interno brasileiro reduz os efeitos imediatos da medida sobre a economia estadual.
Segundo Frainer, 84,3% dos abates bovinos sul-mato-grossenses são destinados ao mercado brasileiro. As exportações respondem por 15,7% dos abates, considerando carne, couro e outras partes dos animais, principalmente para China. De acordo com ele, Mato Grosso do Sul produziu 796 mil toneladas nos primeiros nove meses de 2025. Os dados do último trimestre ainda não estão disponíveis.
“Em termos de impactos econômicos para o Estado, os efeitos não devem ser significativos, principalmente porque o grande parceiro comercial é o Brasil. Cerca de 85% da carne produzida em Mato Grosso do Sul atende o mercado interno. A exportação não tem relevância significativa em termos da receita total”, avalia.
O entendimento do especialista da UEMS é de que o impacto da salvaguarda chinesa deve se restringir aos frigoríficos com foco no comércio exterior. “Mas, no mercado em geral, o impacto deverá ser mínimo, principalmente nessa primeira fase”, acrescentou.
Entre janeiro e novembro de 2025, Mato Grosso do Sul exportou 131,86 mil toneladas de carne bovina para a China, o equivalente a 60,3% das exportações estaduais do produto, segundo dados da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) do Estado.
Tarifa inviável
A decisão da tarifa adicional chinesa entrou em vigor em 1º de janeiro e segue até 31 de dezembro de 2028. A China estabeleceu uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas para as compras de carne in natura brasileira. No ano passado, o Brasil exportou um volume recorde de cerca de 1,7 milhão de toneladas para a China, conforme relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA. Mantido esse ritmo diante da cota chinesa, cerca de 600 mil toneladas de carne bovina brasileira seriam submetidas neste ano a uma tarifa adicional de 55%, acima dos 12% já existentes para todos os países — totalizando 67%.
Na avaliação de especialistas da Consultoria Agro do Itaú BBA, essa tarifa “torna a operação bastante inviável e praticamente proibitiva” para os pecuaristas brasileiros. As cotas estabelecidas pela China aumentam gradualmente: para 1,128 milhão de toneladas em 2027 e para 1,154 milhão de toneladas em 2028.
O secretário da Semadesc, Jaime Verruck, manifesta preocupação com eventuais impactos sobre a produção, já que a China é o principal parceiro comercial do Estado. Ele avalia que o efeito da nova salvaguarda chinesa tende a ser mais significativo do que o das tarifas impostas pelos EUA no ano passado. O secretário teme ainda que as cotas adicionais impostas pela China à carne bovina sejam estendidas a outros produtos da pauta de exportação do Estado, como celulose e soja.
Em busca de solução
O economista da UEMS, Daniel Massen Frainer, aposta ainda no avanço das negociações entre os dois países. Para ele, as tratativas devem ocorrer de forma mais diplomática do que no caso dos EUA, que, após adotar barreiras à carne do Brasil e a outros produtos nacionais, recuaram diante da pressão inflacionária no mercado norte-americano.
Frainer avalia que a decisão dos EUA teve um caráter mais político, enquanto, no caso da China, a discussão é mais comercial, considerando que o consumidor chinês não é um grande consumidor de carne bovina.
“Quando comparamos a situação dos EUA com a da China, a diferença é que os norte-americanos são grandes produtores de carne, ao contrário da China. A China também não era uma grande consumidora de carne vermelha”, afirma. Segundo ele, o consumo aumentou nos últimos anos, especialmente entre a classe média chinesa, impulsionado pela melhora significativa do poder aquisitivo. Ainda assim, na China, a carne bovina segue sendo considerada “um item de luxo”.
Cenário nacional negativo
No cenário nacional, os especialistas da Consultoria Itaú BBA traçam uma perspectiva negativa para a pecuária brasileira, em razão do excedente de carne bovina que deixará de ser exportado para a China: o volume é elevado, a cota destinada ao Brasil é pequena e a tarifa é extremamente alta. Trata-se de um desafio complexo, considerando que os EUA – segundo maior destino da carne in natura brasileira _ absorveram pouco mais de 200 mil toneladas em 2025.
“A nossa leitura é de que o Brasil ficou, de fato, muito prejudicado na distribuição das cotas. Trata-se de um volume muito grande de carne que deixaremos de exportar caso a decisão pela cota seja mantida”, afirmou o gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, Cesar Castro Alves, ao Campo Grande News, sem traçar um cenário específico para Mato Grosso do Sul.
Os especialistas do Itaú BBA observam, porém, um cenário global de oferta de carne bovina bastante apertado neste ano. Os Estados Unidos surgem como uma possibilidade de aumento das exportações brasileiras, já que devem registrar um déficit de cerca de 1,3 milhão de toneladas na produção de carne bovina, volume 100 mil toneladas superior ao registrado em 2025.
“Não há mais tarifas americanas, o que permite ao Brasil exportar mais para os EUA. Além disso, outros países produtores não teriam condições de atender rapidamente às cotas chinesas. É possível que haja um meio termo entre todos esses fatores”, avalia.
A consultoria projeta uma redução de cerca de 2% na produção brasileira em 2026. Caso esse cenário se confirme, haverá uma diminuição aproximada de 200 mil toneladas na oferta total. “Após quatro anos consecutivos de descarte de fêmeas no Brasil, é possível que essa estimativa de queda ainda seja conservadora. Além disso, a tendência para 2027 e 2028 também aponta para novas reduções de produção”, destaca o relatório.
Reorganização entre parceiros
Alves avalia ainda que há espaço para negociações que permitam ao Brasil aproveitar parte das cotas de outros países que receberam cotas maiores do que conseguiram efetivamente entregar, como Argentina, Uruguai e Estados Unidos.
“A Argentina ficou com uma cota de 511 mil toneladas para 2026 e exportou 436 mil toneladas para a China até novembro, enquanto o Uruguai, com 324 mil toneladas, exportou 188 mil toneladas no mesmo período”, detalha. Nesse contexto, o Brasil poderia, por exemplo, abastecer o mercado doméstico argentino, permitindo que uma parcela maior da produção daquele país seja direcionada às exportações para a China.
“Nesse contexto, haveria uma espécie de triangulação regular, com o Brasil transacionando mais com a Argentina e a Argentina exportando. No fim das contas, não haveria sobra de carne no mercado interno brasileiro”, analisou o especialista.
Embora o cenário ainda esteja indefinido, a expectativa é de que os preços do boi gordo em 2026 sejam superiores aos registrados em 2025.




