ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
FEVEREIRO, SEXTA  20    CAMPO GRANDE 24º

Economia

Queda de fornecimento de gás boliviano não impacta cadeia produtiva de MS

Presidente da MSGÁS diz que mercado será garantido por outras fontes de suprimento

Por Viviane Monteiro, de Brasília | 20/02/2026 19:19
Queda de fornecimento de gás boliviano não impacta cadeia produtiva de MS
Cristiane Schmidt, presidente da MSGÁS (Foto: Divulgação)

A trajetória de queda das importações brasileiras de gás natural da Bolívia – cujo principal ponto de entrada no país é Mato Grosso do Sul – não deve interferir na cadeia produtiva estruturada para a distribuição do insumo no Estado, apesar da pressão sobre a receita do o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) incidente sobre essas operações.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

A redução das importações de gás natural da Bolívia não afetará a distribuição do insumo em Mato Grosso do Sul, segundo a presidente da MSGás, Cristiane Schmidt. O consumo médio do estado, de 500 mil metros cúbicos diários, é considerado modesto em comparação ao sistema nacional.Apesar da queda nas importações bolivianas, que passaram de 13 MMm³/dia em 2024 para 9 MMm³/dia em 2025, a produção nacional aumentou para 34 MMm³/dia. A MSGás busca diversificar fornecedores e expandir sua rede, incluindo projetos para abastecer novas fábricas de celulose no estado.

Em entrevista ao Campo Grande News, a presidente da MSGás (Companhia de Gás do Estado de Mato Grosso do Sul), a economista Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt, assegura que a redução das importações do gás boliviano não gera impactos sobre o abastecimento local. O entendimento é de que o consumo médio de Mato Grosso do Sul é modesto – de cerca de 500 mil metros cúbicos por dia — se comparado com o total transportado pelo sistema nacional.

Conforme a Petrobras, em 2025 as importações do gás da Bolívia diminuíram para 9 MMm³/dia, em média, contra os 13 MMm³/dia importados em 2024. Por outro lado, no ano passado, a produção nacional aumentou para 34 MMm³/dia, com destaque para a entrada em operação da Rota 3 do pré-sal. O volume ficou acima dos 30 MMm³/dia em 2024. A produção nacional é extraída em campos marítimos (offshore), como nas bacias de Santos e de Campos, ou em campos terrestres (onshore), como no Maranhão.

A produção boliviana, que chegou a exportar 30 milhões de metros cúbicos por dia, entrou em declínio em função da menor oferta disponível, reduzindo sua participação no mercado brasileiro. Durante décadas, a Bolívia foi a principal fornecedora de gás natural ao Brasil, por meio do Gasoduto Brasil-Bolívia (GASBOL), respondendo por mais de 70% do gás importado, com fornecimento da estatal YPFB à Petrobras.

O gás importado da Bolívia é adquirido majoritariamente pela Petrobras, embora existam pequenas comercializadoras que também fazem importação, como a Emigás e outras empresas privadas.

A Petrobras afirma ainda que atua por meio de um portfólio de ofertas que inclui produção nacional e importação. Nesse caso, a redução da oferta de gás boliviano “pode ser complementada” com o aumento de outras fontes, seja pela produção nacional, importações pontuais de gás argentino via Bolívia e maior importação de GNL (gás natural), quando necessário.

Segundo a estatal, as compras da Bolívia variam diariamente, considerando as condições do contrato de importação de gás natural junto à YPFB, além das necessidades da companhia para atendimento aos seus compromissos comerciais e o consumo de seus próprios ativos.

Mesmo com as mudanças do cenário, a presidente da MSGÁS afirma que a distribuidora estatal adota estratégias buscando alternativas para garantir o abastecimento aos clientes.

“Nós firmamos contratos de compra com diversos importadores. Hoje, a maior parte das compras ainda é feita com a Petrobras, porque até pouco tempo não havia mercado livre em ação. Também existiam poucas comercializadoras atuando”, disse.

Entre os clientes que já migraram para o mercado livre estão a Suzano e a Eldorado, considerados grandes consumidores. "Esses clientes passam a comprar o gás diretamente dos importadores (ou de produtores), e a MS Gás permanece responsável pela distribuição”, acrescenta.

Queda de receita do ICMS

A dirigente reconhece, porém, que o recuo das importações do gás boliviano impacta diretamente nos cofres estaduais, em razão do encolhimento da arrecadação de ICMS, que no passado respondeu por quase 30% da arrecadação estadual.

Conforme noticiou o Campo Grande News, a receita do ICMS sobre o gás boliviano caiu 43% em janeiro deste ano (R$ 82,178 milhões) em relação aos R$ 151,242 milhões no mesmo mês de 2025. Mesmo com a diminuição da oferta do gás da Bolívia, o entendimento é de que não existe risco de ruptura no fornecimento de gás natural para os clientes locais.

Confirmando a tendência de queda, o Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal) divulgou nesta sexta-feira (20) uma nota técnica, em que revela que que o desempenho real do ICMS do estado em 2025 caiu 1,5% sobre 2024 (em valores deflacionados). Mato Grosso do Sul ficou ao lado do Acre (-2,1%), Pará (-2,1%) e Paraná (-1,6%), conforme o gráfico.

Queda de fornecimento de gás boliviano não impacta cadeia produtiva de MS


O Comsefaz faz uma leitura abrangente sobre os resultados das contas estaduais e diz que, em 2025, o cenário macroeconômico menos favorável interferiu na arrecadação. A desaceleração do comércio, da indústria e da inflação reduziu o crescimento nominal das bases tributárias e limitou o desempenho do ICMS, especialmente com o varejo pressionado por juros elevados. Nos setores regulados, como combustíveis e energia, a arrecadação foi impactada mais por mudanças normativas e efeitos em cadeia do que pelo nível de atividade econômica.

Esperança no fim do túnel

Para Cristiane, a Bolívia deixou de fazer investimentos nos campos de produção no passado, por conta de problemas fiscais, cujos reflexos são sentidos hoje. A avaliação é que esse decréscimo continue até o esgotamento das atuais reservas, se não houver investimentos.

A expectativa, porém, é de eventual reversão do cenário do gás na Bolívia em razão da mudança de governo. “Há uma possível luz no fim do túnel.” Do partido de centro-direita, Rodrigo Paz iniciou uma agenda de reformas sob a justificativa de desmontar estruturas deixadas pelos governos de esquerda. A expectativa é de que o novo governo possa abrir espaço para uma retomada dos investimentos nos poços de gás natural no território boliviano, reativando projetos e estimulando a retomada da produção.

A avaliação é de cautela, porém, já que investimentos em infraestrutura não produzem efeitos imediatos – o que se aplica também ao setor de petróleo e gás. São decisões tomadas hoje para gerar resultados apenas no médio ou longo prazo.

“Se o novo governo tiver condições efetivas de retomar a exploração de gás natural na Bolívia, é possível que, no futuro, haja uma reversão dessa trajetória de queda”, analisou a presidente da MSGÁS.

Importações e expansão da rede

Em meados de 2025, a estatal distribuidora de gás natural recebeu autorização da ANP para importar até 150.000 m³/dia de gás natural de Vaca Muerta, na Argentina, e de outros produtores bolivianos, reforçando a estratégia de diversificação de fontes de suprimento e a preparação para diferentes cenários no mercado nacional.

“O objetivo é estar preparada para surfar qualquer tipo de onda”, disse.

Eventuais operações de importação seguem no radar e estão entre os desafios da MSGÁS que para este ano inclui ainda projetos estruturantes de expansão.

Entre eles, a construção de um novo ramal de gás natural para abastecer a futura fábrica de celulose da Arauco, com 125 quilômetros de rede para transportar gás de Três Lagoas até a unidade da companhia, em Inocência. Trata-se de um dos maiores aportes em infraestrutura já realizados pela MS Gás nos últimos anos.

A presidente da MSGás também prevê acordo com a Bracell, que estima investir até R$ 25 bilhões na construção de uma fábrica de celulose em Bataguassu, com capacidade estimada próxima de 2,8 milhões de toneladas por ano.

“Temos uma expectativa muito positiva de que a Bracell também precise de gás natural. Estaremos preparados para realizar os investimentos necessários para interligar a unidade à nossa malha, a partir de Três Lagoas. Diante desses projetos, as perspectivas de crescimento e desenvolvimento da MS Gás no Estado são bastante promissoras.”

A empresa avança também em Dourados, onde já assinou contrato com o cliente âncora e iniciou a implementação de uma base local. A estratégia inicial prevê o transporte de gás natural comprimido (GNC) de Campo Grande até o município.