MS recebe crédito de R$ 9,7 bilhões do Programa Nova Indústria Brasil
Fiems avalia que na esteira do projeto federal, setor industrial estadual deve crescer 8,7% ao ano até 2029
Alavancado pela agroindústria e por projetos industriais de maior valor agregado, Mato Grosso do Sul contratou R$ 9,7 bilhões em financiamentos no programa NIB (Nova Indústria Brasil) até o primeiro trimestre deste ano. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em recorte regional obtido pelo Campo Grande News.
RESUMO
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O montante representa 15,2% dos R$ 64 bilhões liberados pelo Plano Mais Produção (P+P), principal instrumento financeiro da nova política industrial, para os estados do Centro-Oeste.
Desde o lançamento do programa, em 2024, os recursos financiaram cerca de 4 mil projetos voltados à inovação, sustentabilidade e fortalecimento da indústria de Mato Grosso do Sul. Em toda a região Centro-Oeste, o programa já beneficiou aproximadamente 27 mil projetos.
A meta do programa é mobilizar cerca de R$ 751,3 bilhões em crédito e financiamentos até o fim de 2026. Até agora foram aprovados R$ 356,8 bilhões para 241 mil projetos, segundo dados do sistema do BNDES.
Criada pelo governo federal em 2024 e coordenada pelo MDIC, a Nova Indústria Brasil pretende reverter o processo de desindustrialização do país por intermédio da modernização do parque produtivo, fortalecimento da capacidade tecnológica e aumento da competitividade da indústria nacional. Entre outros objetivos, a nova política industrial prevê potencializar as capacidades regionais a partir do financiamento ligado às missões estratégicas estabelecidas para cada região.
Em Mato Grosso do Sul, os financiamentos do programa estão concentrados em cinco missões estratégicas e apontam diversificação dos investimentos industriais. Apesar de concentração na agroindústria, refletindo o perfil econômico estadual, o crédito se estende a projetos inovadores e sustentáveis.
A Missão 1, voltada ao fortalecimento da agroindústria, respondeu por cerca de metade dos recursos contratados no Estado. Ao todo, foram R$ 4,9 bilhões destinados a 2.947 projetos.
Na sequência, aparece a Missão 3, voltada à infraestrutura, com R$ 1,9 bilhão distribuído entre 679 projetos. Também com R$ 1,9 bilhão, a Missão 5, direcionada à descarbonização e à bioeconomia, reúne somente 52 projetos, indicando operações de maior porte e maior volume de investimento por empreendimento.
Em patamar inferior, a Missão 4, destinada à transformação digital, soma R$ 596 milhões para 580 projetos. Já a Missão 2, voltada ao complexo industrial da saúde, contratou R$ 309,5 milhões em financiamentos para 22 projetos.
Novo olhar
Para a economista Renata Farias, coordenadora da Fiems Conecta, agência de desenvolvimento e fomento regional da Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul), a Nova Indústria Brasil ampliou o foco da política industrial ao incorporar setores que historicamente recebiam menos atenção, como a indústria da saúde e a farmacêutica.
"Não se trata apenas de incentivar tecnologias limpas e reduzir emissões pensando no meio ambiente, mas também de promover o bem-estar da população", afirma.
Um exemplo, cita Renata, é a implementação da farmacêutica boliviana Laboratórios IFA S.A. em Terenos, também beneficiada por incentivos fiscais do governo estadual. O empreendimento prevê investimentos de R$ 45 milhões até 2030 e 120 empregos diretos na fase de operação.
Na avaliação da economista, não há mudança no perfil industrial de Mato Grosso do Sul, mas uma ampliação da forma de enxergar o desenvolvimento econômico.
Ela destaca ainda investimentos em biocombustíveis e bioeconomia, que buscam conciliar crescimento econômico, preservação ambiental e desenvolvimento humano.
Taxa média de juro
Com juro subsidiado, as operações são contratadas com taxa composta pela TR (taxa referencial) mais a taxa do BNDES, atualmente em torno de 1,35% ao ano, resultando em um custo final de 7% a 8% ao ano, dependendo da linha de financiamento. Essas condições são mais atrativas do que as taxas praticadas no mercado atreladas à taxa Selic, hoje em 14,25% ao ano.
Os recursos são operacionalizados por instituições como BNDES, Finep, Caixa Econômica e Banco do Brasil, que disponibilizam diferentes instrumentos financeiros e programas de apoio, cada um com objetivos e públicos específicos.
O boletim Panorama Econômico da Fiems, atualizado em maio, projeta crescimento nominal médio de 8,7% ao ano para a indústria de Mato Grosso do Sul até 2029. Nesse período, o valor adicionado do setor deve alcançar R$ 63,9 bilhões. A expansão acompanha a expectativa para o PIB (Produto Interno Bruto) estadual, que também deve crescer, em média, 8,7% ao ano, atingindo R$ 279,8 bilhões em 2029.
A avaliação da entidade é de que a indústria se consolida como um dos principais motores da economia sul-mato-grossense, impulsionada pelos investimentos da ordem de R$ 115 bilhões entre 2023 e 2030, com potencial de gerar pelo menos 18 mil empregos diretos “só na operação”; ampliação da capacidade produtiva e expansão de segmentos estratégicos.
Para Renata, a Nova Indústria Brasil tem contribuído para esse processo ao estimular um "ciclo virtuoso" de investimentos. Segundo ela, mesmo diante do aumento dos custos de insumos importados, as empresas têm recorrido, sobretudo, às linhas de financiamento do BNDES para investir em tecnologia, modernização e ganho de produtividade.
Somente no primeiro trimestre de 2026, a indústria de Mato Grosso do Sul contratou R$ 750 milhões em financiamentos no programa federal..
"Apesar de esse valor ainda ser pequeno em comparação ao total contratado no país, Mato Grosso do Sul continua sendo um estado fortemente associado ao agronegócio. Os dados mostram, no entanto, que a indústria vem ganhando fôlego", afirma.
Emprego
Além do aumento dos investimentos, Renata destaca o impacto sobre o mercado de trabalho. Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que, em 2025, o Estado registrou saldo positivo de 19.756 empregos formais, impulsionado principalmente pela construção civil, em razão das novas plantas industriais, seguida pelos setores de serviços, indústria e comércio. O panorama da Fiems destaca que, no ano passado, a massa salarial do setor industrial movimentou R$ 7 bilhões, com perspectiva de crescer 8% R$ 7,5 bilhões em 2026 (+8%)
"As linhas de financiamento, com condições atrativas, têm papel importante nesse processo, ao viabilizar a instalação de novas indústrias e estimular investimentos em modernização, inovação e expansão da capacidade produtiva, com reflexos diretos sobre a geração de emprego e renda", afirma.
A expectativa é de que esse movimento se intensifique com o avanço da Rota Bioceânica. A melhoria da infraestrutura logística deve ampliar a competitividade, aumentar a atração de novos empreendimentos industriais e consolidar o estado como um polo estratégico de distribuição e integração comercial entre a América do Sul e os mercados internacionais, especialmente por meio dos portos do Pacífico.



