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Economia

“Pode chegar a R$ 50”: gasolina cara não é objeção a amantes de carros antigos

Amantes dos "beberrões" de gasolina não abandonam paixão, nem com as altas sucessíveis dos combustíveis

Por Gabrielle Tavares | 02/07/2022 08:00
Variant de Rafael Ruffo, em viagem para Aquidauana neste ano. (Foto: Arquivo Pessoal)
Variant de Rafael Ruffo, em viagem para Aquidauana neste ano. (Foto: Arquivo Pessoal)

Qual o preço de uma paixão? Para os amantes dos carros antigos, já chegou a custar R$ 7 o litro rodado, mas nada fez os apaixonados tirarem das estradas a lataria que carrega história. “Pode chegar a R$ 50 o litro, mas eu não abandono”, afirmou o marmorista Edu Paulucio, de 36 anos.

Esta semana o preço deu uma aliviada com a aprovação da Lei Complementar 194/2022, vigente até o final de 2022, e diminuiu o preço da gasolina na Capital. Levantamento feito pelo Campo Grande News na sexta-feira (1º) mostrou redução de até R$ 0,30, com preço chegando a R$ 6,21 na Vila Progresso.

Alívio para Edu, que tem uma Brasília ano 77,  usada em seu dia a dia. O carro anda de 7 a 8 km por litro e, se ele estiver com pressa e precisar dar uma forcinha no motor, chega a 5 km por litro.

Marmorista Edu Paulucio, ao lado de sua Brasília, chamada de Brasa. (Foto: Arquivo Pessoal)
Marmorista Edu Paulucio, ao lado de sua Brasília, chamada de Brasa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar de custar caro, a “Brasa” já faz parte da família, adotado inclusive pelas filhas de Edu, duas meninas gêmeas de 12 anos, que ele cuida sozinho. “Se eu for buscar elas em algum lugar sem a Brasília, elas reclamam. Não saem de dentro dela”, disse.

Os carros antigos sempre atraem a atenção das crianças, explicou o mecânico Cristiano Heleno Silva, de 48 anos. Além dele trabalhar com os carros antigos, também possui uma Kombi ano 97, um Fusca 74 e uma Variant 76. Todos na cor azul, “tenho uma paixão pela cor azul também”.

“Eu tenho carro moderno, mas quando vou viajar, vou com meu Fusca, já faz 10 anos que coloco ele na estrada para rodar. Tenho uma paixão pelo bichinho… sem contar as amizades que faz por causa dos carros, é fora do normal. É uma amizade diferente de qualquer amizade de boteco de bar bebendo cerveja. Carro antigo traz uma alegria que não dá pra explicar, a gente passa e as crianças de dois anos e já fala 'olha o fuca'. Qual é a explicação para uma criança gostar de Fusca sendo que nem sabe direito diferenciar o que é o que”, relatou.

 A alta nos combustíveis também não fez Cristiano abandonar as paixões sob rodas. Ele relatou que seu Fusca roda 9 km por litro na cidade e a Variant, 7 km. A Kombi ele ainda está reformando e planeja usá-la para viagens.

“A paixão pelos carros vem da infância, pela família. Sempre andei lá atrás, no chiqueirinho (“porta malas” do Fusca), sempre curti muito os passeios em família neles, éramos em três irmãos que ia no chiqueirinho, então é uma paixão que vem de pai para filho. Em cima disso, acabei montando minha oficina, que é focada em cima dos antigos também, fiz do meu hobby um jeito de ganhar dinheiro”, completou.

Os três carros antigos de Cristiano, todos na cor azul. (Foto: Arquivo Pessoal)
Os três carros antigos de Cristiano, todos na cor azul. (Foto: Arquivo Pessoal)

O legado da família também motivou o mecânico Rafael Ruffo Pinto, de 34 anos, a se aventurar pelos motores dos carros antigos. Assim como Cristiano, ele transformou a paixão em trabalho.

“Eu fui criado no meio desses carros, então eu sempre tive gosto por eles. Meu pai tinha uma oficina e ele geralmente mexia em carros dos anos 70, 80, e um pouco dos 90. Então fui criado nesse meio, limpando ferramentas, quando ele faleceu em 2016 eu decidi que ia montar uma oficina novamente, decidi manter o legado dele”, apontou.

Sua mecânica só trata de carros fabricados até os anos 80 e para uso pessoal, ele tem um modelo Variant ano 76. “E um Maverick 75, mas o que está andando é a Variant, pois o Maverick segue um uma saga de reforma que não tem fim”, disse entre risadas.

Mecânico Rafael ao lado do pai. (Foto: Arquivo Pessoal)
Mecânico Rafael ao lado do pai. (Foto: Arquivo Pessoal)

O Variant chega a, no máximo, 8 km por litro, e para economizar, ele aposta em fazer rotas mais curtas. “Costumo dizer que faz 15 km para poder doer menos. Eu tenho que balancear bem onde vou”.

Já para o técnico em enfermagem, Luiz Paulo Domingos da Costa, de 33 anos, o amor foi florescendo aos poucos. Ele comprou um Fusca 77 há oito anos, com objetivo de reformar e vender.

Contudo, um acidente adiou seus planos e nesse meio tempo, o carro o conquistou. Atualmente, com o nome de Smurf, o Fusca já custou cerca de R$ 30 mil em melhorias, e é usado para transportar Luiz em todo lugar que vai, não importa o preço que a gasolina está.

“Se fizer a revisão periodicamente acaba compensando, a questão é manter a manutenção em dia e ter a regulagem do motor. Vou sempre na maciota”, garantiu.

Ao longo dos anos, ele se envolveu tanto com a temática, que tornou-se um dos organizadores do grupo “Confraria”, formado por apaixonados por Fuscas e carros antigos em geral. Ele ajuda realizar eventos e, pelo menos uma vez por mês, os motoristas se reúnem para compartilhar informações e ideias.

O técnico de enfermagem Luiz, abraçado em seu Fusca, apelidado de Smurf. (Foto: Arquivo Pessoal)
O técnico de enfermagem Luiz, abraçado em seu Fusca, apelidado de Smurf. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Não largo ele por nada, já me fizeram várias propostas mas nunca aceitei. É um carro que se eu quiser viajar, é só ir, porque eu confio no carro que eu tenho. Já fui para Santa Catarina, Paraná, São Paulo. Eu acho que basta respeitar o carro, ele já tem muitos anos de estrada, mas não deixa a desejar comparado a um carro novo”, ressaltou.

Em setembro Luiz se casa e planeja incluir a paixão extraconjugal no matrimônio. “Estou querendo juntar o grupo da Confraria e fazer uma passeata saindo da igreja”, apontou.

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