Vale da Celulose inicia produção de eucalipto que consome menos água
Novos clones podem elevar em 20% a produtividade das florestas e aumentar a resistência às mudanças climáticas
Resultado de nove anos de pesquisa no Brasil, novos clones de eucalipto tolerantes à seca, mais resistentes às principais doenças florestais, capazes de produzir madeira de melhor qualidade e consumir menos água começam a ser cultivados em escala comercial em Mato Grosso do Sul e em outras regiões produtoras do País. Com investimentos de cerca de R$ 27 milhões, a inovação chega em um momento em que eventos naturais extremos, intensificados pelas mudanças climáticas e pelos efeitos do El Niño, tornam os períodos de estiagem mais frequentes e severos.
RESUMO
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Novos clones de eucalipto tolerantes à seca, desenvolvidos ao longo de nove anos por pesquisadores da UFV com investimento de R$ 27 milhões, começam a ser cultivados comercialmente em Mato Grosso do Sul. Os 14 clones selecionados prometem elevar a produtividade florestal em 20%, consumir menos água e resistir melhor a doenças. O projeto reúne 15 empresas, incluindo Suzano, Eldorado e Bracell, com apoio da Embrapii.
No Estado, o plantio é liderado pela Eldorado, Suzano e Bracell/MS Florestal, após desenvolvimento de pesquisas voltadas ao desenvolvimento de materiais genéticos mais adaptados às extremidades do clima. Os novos clones prometem elevar em cerca de 20% a produtividade média das florestas, mesmo em períodos prolongados de estiagem.
Os pesquisadores avaliaram 240 clones de eucalipto até selecionar 14 variedades que apresentaram o melhor desempenho produtivo para o primeiro ciclo de plantio comercial.
A inovação é resultado de um projeto estratégico que reúne 15 empresas brasileiras dos setores de papel, celulose e florestas desde 2017, conforme o Campo Grande News já havia revelado em reportagem de agosto do ano passado. A iniciativa é conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, e da Sociedade de Investigações Florestais (SIF), vinculada à universidade.
O projeto conta ainda com apoio da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), organização federal criada para estimular a inovação tecnológica na indústria brasileira. No projeto, a estatal financiou metade dos investimentos por meio de recursos não reembolsáveis. Os outros 50% foram aportados pelas empresas participantes.
Além de Eldorado, Suzano e Bracell/MS Florestal, participam do projeto companhias como ArcelorMittal, Klabin e Gerdau, entre outras.
Clones selecionados
À frente das pesquisas, o cientista Gleison Augusto dos Santos, diretor da Unidade Embrapii Fibras Florestais da UFV, informou que os novos clones começam a ser cultivados em maior escala nos principais estados produtores de eucalipto do País, com destaque para Mato Grosso do Sul.
"São 14 clones que indicamos e que apresentam elevada tolerância à seca. Eles são significativamente mais resistentes ao déficit hídrico do que os materiais genéticos atualmente plantados em Mato Grosso do Sul", afirmou o pesquisador, também diretor científico da SIF e professor da área de Melhoramento e Conservação Genética de Espécies Florestais da UFV.
Segundo ele, o principal objetivo dos novos materiais genéticos é reduzir os impactos provocados pelos longos períodos de estiagem. Mato Grosso do Sul, por exemplo, enfrenta, em média, entre quatro e cinco meses de seca por ano. Nesse período, as plantações podem sofrer alterações fisiológicas que reduzem o crescimento das árvores e, em situações mais severas, provocam sua morte.
Por isso, os novos clones foram desenvolvidos para manter a produtividade das florestas mesmo sob condições de estresse hídrico. A expectativa dos pesquisadores é garantir maior estabilidade na produção de madeira e, paralelamente, ampliar a segurança no abastecimento das indústrias de celulose.
Os novos materiais apresentam ainda resistência às principais doenças florestais e maior capacidade de suportar ventos intensos, reduzindo perdas provocadas pela quebra de árvores durante tempestades.

Outro diferencial é a qualidade da madeira produzida, característica considerada estratégica para elevar a eficiência da indústria de celulose. O pesquisador reiterou ainda que os novos clones são mais eficientes no uso da água, o que pode significar também menos impacto ambiental.
Os 14 clones foram apresentados oficialmente em junho, em reunião técnica realizada na unidade da Bracell/MS Florestal, em Lençóis Paulista (SP), município que abriga uma das principais operações industriais da companhia.
O plantio experimental desses materiais nas áreas florestais das empresas ocorreu até 2025. Agora, os clones passam a ser produzidos em escala comercial.
Produção limitada
A primeira safra comercial dos novos clones em Mato Grosso do Sul deve ocupar cerca de 600 hectares, segundo estimativas dos pesquisadores. Embora represente um avanço tecnológico relevante, a área ainda corresponde uma fatia modesta (menos de 1%) dos aproximadamente 150 mil hectares plantados anualmente no Estado.
A primeira safra de madeira desses clones deverá ser colhida por volta de 2032, considerando um ciclo florestal de aproximadamente seis anos.
A expectativa é que a área plantada cresça gradualmente, impulsionada pela expansão das indústrias instaladas no Vale da Celulose, região consolidada como um dos maiores polos mundiais de produção de celulose de eucalipto.
Segundo Santos, a previsão é que, em cerca de cinco anos, os novos materiais genéticos estejam presentes em mais de 50% das áreas anuais de plantio no Estado, à medida que houver maior disponibilidade de mudas.
Estima-se que o cultivo do Estado hoje seja de 1,73 milhão de hectares de florestas plantadas, em meio ao ritmo acelerado de expansão da silvicultura na região, conforme levantamento de 2025 elaborado a partir do processamento de imagens do Google Earth Engine e de dados do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul),
Apesar de a produção dos novos clones ser ainda modesta, Mato Grosso do Sul deverá concentrar cerca de 40% do plantio nacional, devendo ficar próximo de 1,5 mil hectares. O restante será distribuído entre Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia, Maranhão, Espírito Santo e Tocantins.
No Estado, a Eldorado deverá liderar o plantio inicial, concentrando aproximadamente 50% da área prevista. Suzano e Bracell/MS Florestal responderão, cada uma, por cerca de 25% da primeira geração dos novos clones, conforme estimativa do diretor científico da Sociedade de Investigações Florestais (SIF).
Produtividade
A primeira geração dos novos clones deverá elevar a produtividade média das florestas plantadas dos atuais 34 metros cúbicos por hectare ao ano para mais de 40 metros cúbicos por hectare ao ano, um ganho estimado em cerca de 20%.
Os materiais foram desenvolvidos a partir do cruzamento de variedades genéticas (pais e mães) disponibilizadas pelas próprias empresas participantes do projeto.
Segundo Santos, as pesquisas continuam em andamento e novos materiais, ainda em fase experimental, poderão ampliar esse desempenho nas próximas etapas do programa de melhoramento genético.
Entre as grandes empresas presentes no Vale da Celulose, a Arauco é a única que não integra o projeto colaborativo coordenado pela SIF. A companhia chegou posteriormente na região com o Projeto Sucuriú, em Inocência, onde constrói sua primeira fábrica de celulose no Estado, investimento de US$ 4,6 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões), com conclusão prevista para 2027. Essa deve ter sido uma opção individual da empresa na ocasião de formação do grupo, já que as operações florestais da companhia estavam concentradas, inicialmente, no Paraná, região com menor ocorrência de déficit hídrico. Ainda assim, a companhia mantém pesquisas voltadas ao desenvolvimento de materiais mais produtivos e resistentes.
A adoção dos novos clones ocorre em meio à corrida por ganhos de produtividade desencadeada pelos investimentos bilionários anunciados pelo setor em Mato Grosso do Sul nos últimos anos.
A Suzano inaugurou, em Ribas do Rio Pardo, a maior fábrica de celulose em linha única do mundo, com capacidade para produzir 2,55 milhões de toneladas anuais, com investimentos de R$ 22 bilhões.
Já a Bracell executa um projeto de R$ 25 bilhões em Bataguassu, com conclusão prevista para 2028. A Eldorado, por sua vez, planeja expandir sua unidade em Três Lagoas até 2030, também com investimentos estimados em R$ 25 bilhões, segundo o mais recente Panorama Econômico da Fiems.
A reportagem procurou Eldorado, Suzano e Bracell/MS Florestal, mas não recebeu retorno até o fechamento desta edição.



