Congresso entra em modo eleitoral enquanto problemas do País esperam
“Esforço concentrado” expõe a distorção: trabalhar e votar deveria ser rotina, não exceção

O Brasil entrou em campanha eleitoral. Ruas, redes sociais, palanques e reuniões partidárias começam a ser ocupados por candidatos atrás de votos. É também a hora de o eleitor inverter essa lógica: em vez de apenas ouvir promessas, perguntar o que deputados e senadores fizeram com o mandato que receberam.
RESUMO
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Há problemas demais esperando respostas para que o Congresso Nacional possa tratar o calendário eleitoral como prioridade absoluta.
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Um exemplo está na segurança pública. A PEC da Segurança Pública, iniciativa do governo federal que busca ampliar a integração entre União, estados e municípios no enfrentamento à criminalidade, já foi aprovada pela Câmara dos Deputados. Agora, aguarda o Senado.
Pode-se concordar ou discordar do texto aprovado pelos deputados. Isso faz parte da democracia. O que não deveria ser aceitável é deixar um assunto dessa dimensão esperando enquanto o crime organizado amplia sua capacidade financeira, territorial e operacional no País.
A PEC não será uma solução mágica para a violência brasileira. Nenhuma mudança constitucional será. Segurança pública é complexa demais para slogans. Mas justamente por isso exige debate, negociação, aperfeiçoamento e voto.
E é para isso que existem deputados e senadores.
Em ano eleitoral, porém, Brasília entra novamente numa espécie de ritmo próprio. O calendário legislativo perde espaço para o calendário das urnas. Parlamentares preferem permanecer em seus estados, percorrer municípios, participar de reuniões, fortalecer alianças e pedir votos.
É compreensível que candidatos façam campanha. O problema começa quando a campanha passa a competir com o mandato que continua sendo exercido — e remunerado — normalmente.
Para acomodar essa realidade, aparece mais uma vez o chamado “esforço concentrado”. A expressão chega a soar como ironia diante de uma instituição cuja obrigação é justamente trabalhar, discutir e votar os grandes assuntos nacionais.
Esforço não deveria ser exceção. Deveria ser rotina.
O País não entra em campanha junto com os candidatos.
Hospitais continuam atendendo, policiais continuam enfrentando criminosos, professores continuam nas salas de aula, empresas continuam produzindo e pagando impostos e milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias para trabalhar. O cidadão comum não pode simplesmente desaparecer do emprego durante semanas e depois anunciar alguns dias de “esforço concentrado”.
O Congresso, além disso, custa bilhões de reais aos brasileiros. É uma estrutura gigantesca sustentada pelo contribuinte. Portanto, cobrar presença, produtividade e prioridade para questões que interferem diretamente na vida da população não é atacar o Parlamento. É exigir que ele cumpra sua função.
E talvez seja justamente aí que esta campanha eleitoral possa prestar um serviço à democracia.
Quando um deputado ou senador aparecer pedindo voto, o eleitor deveria aproveitar para fazer perguntas.
Qual é sua posição sobre a PEC da Segurança Pública? O que pretende fazer contra o avanço das organizações criminosas? Que propostas defende para saúde, educação, infraestrutura e equilíbrio das contas públicas? Quais projetos relevantes apresentou ou ajudou a aprovar? Como votou nas grandes questões nacionais? Esteve presente quando decisões importantes precisavam ser tomadas?
Isso vale para governo e oposição.
Quem apoia o governo precisa explicar o que fez para transformar propostas em políticas públicas. Quem está na oposição deve mostrar alternativas, não apenas críticas. Fiscalizar é obrigação parlamentar. Construir caminhos também.
O mandato não pode funcionar apenas quando Brasília interessa e ser colocado em segundo plano quando chega a temporada eleitoral.
Campanha não deveria ser uma sucessão de fotografias, abraços, vídeos cuidadosamente produzidos, caravanas pelo interior e promessas recicladas. Deveria ser o maior período de prestação de contas da democracia.
Antes de escolher quem ocupará o Congresso pelos próximos quatro ou oito anos, o eleitor precisa olhar além do santinho, do partido e do discurso.
Precisa perguntar quem está disposto a enfrentar os assuntos difíceis.
Porque enquanto Brasília administra seu calendário eleitoral, a violência, a saúde precária, os problemas da educação, o desperdício de dinheiro público e tantas outras dificuldades do Brasil não fazem recesso.
Os problemas do País trabalham em tempo integral.
O Congresso deveria fazer o mesmo.

