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Editorial

Eleições 2026: O Estado precisa servir à sociedade, não à própria máquina

Sem enfrentar privilégios e o peso da máquina pública, sobrará cada vez menos dinheiro para a população

Por José Cândido | 06/08/2026 06:02
Eleições 2026: O Estado precisa servir à sociedade, não à própria máquina
Na Governadoria são definidas as prioridades do orçamento estadual. O debate sobre a reforma administrativa passa pela necessidade de ampliar a capacidade de investimento em áreas essenciais como saúde, educação, segurança e infraestrutura. (Foto Álvaro Rezende)

Há temas que raramente entram no centro do debate eleitoral. Não porque sejam irrelevantes. Pelo contrário. Ficam de fora justamente porque são incômodos. Mexem com interesses organizados, corporações influentes e estruturas que há décadas se consolidaram no serviço público.

RESUMO

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Em Mato Grosso do Sul, 55,8% da arrecadação do primeiro semestre, cerca de R$ 7,7 bilhões dos R$ 13,8 bilhões arrecadados, foram consumidos pela folha de pagamento do funcionalismo. O dado reacende o debate sobre o tamanho da máquina pública e a necessidade de reforma administrativa para corrigir distorções, reduzir privilégios e ampliar investimentos em saúde, educação e infraestrutura para os 2,8 milhões de sul-mato-grossenses.

Um desses temas é o tamanho da máquina administrativa.

Os números falam por si. Entre janeiro e junho deste ano, Mato Grosso do Sul arrecadou cerca de R$ 13,8 bilhões. Desse total, R$ 7,7 bilhões foram consumidos pela folha de pagamento, o equivalente a 55,8% da arrecadação do período.

Em outras palavras: de cada R$ 100 pagos pelo contribuinte, quase R$ 56 foram destinados exclusivamente ao pagamento de servidores ativos, aposentados e pensionistas. O restante precisou financiar saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, habitação, assistência social, cultura, ciência, meio ambiente e todos os demais serviços prestados a aproximadamente 2,8 milhões de sul-mato-grossenses.

É um retrato que merece reflexão.

Valorizar o servidor público é obrigação de qualquer governo sério. Um Estado eficiente depende de professores, policiais, médicos, enfermeiros, fiscais, técnicos e milhares de profissionais comprometidos. O problema não é o funcionalismo. O problema é quando a estrutura administrativa cresce de tal forma que começa a disputar espaço com a própria sociedade que deveria atender.

Nenhum orçamento suporta indefinidamente uma lógica em que a maior parte dos recursos financia a máquina e a menor parte sobra para investimentos e políticas públicas.

A consequência aparece no cotidiano. Hospitais precisam de equipamentos. Escolas aguardam reformas. Rodovias carecem de manutenção. Municípios esperam obras de saneamento. Famílias enfrentam filas por exames especializados. A segurança pública demanda tecnologia e efetivo. Enquanto isso, o espaço fiscal para investir encolhe a cada ano.

A discussão, portanto, não deve ser sobre retirar direitos de quem trabalha corretamente no serviço público. Deve ser sobre corrigir distorções.

É preciso enfrentar privilégios incompatíveis com a realidade do país. Rever penduricalhos remuneratórios, gratificações sem critérios objetivos, estruturas administrativas inchadas, cargos cuja necessidade já não existe e mecanismos que fazem a folha crescer acima da capacidade financeira do Estado. Também é necessário modernizar processos, investir em tecnologia, simplificar a administração e avaliar permanentemente a eficiência do gasto público.

Reforma administrativa não significa desmonte do Estado. Significa construir um Estado mais eficiente, mais enxuto e mais capaz de entregar resultados.

Todo dinheiro economizado em despesas permanentes pode ser transformado em investimento permanente. Pode virar hospital, escola, creche, rodovia, ponte, moradia, inovação tecnológica, segurança e desenvolvimento econômico.

Essa é uma discussão que deveria ocupar espaço nas campanhas eleitorais. O eleitor precisa saber não apenas quem promete gastar mais, mas quem explica de onde virá o dinheiro e como pretende administrá-lo.

Governar não é distribuir cargos. Não é ampliar estruturas. Não é criar novas despesas sem avaliar as antigas. Governar é estabelecer prioridades.

E a prioridade de qualquer Estado democrático deveria ser simples: servir à população.

Quando mais da metade da arrecadação é consumida pela própria máquina, cabe perguntar se o equilíbrio entre quem financia o Estado e quem dele depende está sendo preservado. Essa não é uma pergunta contra servidores. É uma pergunta em favor do interesse público.

Porque o imposto pertence à sociedade.

E, numa democracia, a maior parte dos recursos públicos deve servir à maioria da população — não à manutenção de uma estrutura que, ao longo do tempo, corre o risco de existir mais para si do que para quem a sustenta.