Eleições 2026: candidatos precisam dizer de que lado estão no jogo das bets
Eleitor tem o direito de saber quem defende a indústria do jogo e quem está disposto a proteger as famílias

A campanha eleitoral não pode discutir apenas obras, impostos, segurança e geração de empregos. Há uma epidemia silenciosa entrando diariamente nas casas brasileiras pelo celular: o vício em apostas on-line. As chamadas bets deixaram de ser simples diversão. Tornaram-se um problema de saúde pública, de endividamento e de proteção das famílias.
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Apostas online devem ser debatidas nas eleições, segundo editorial que defende posicionamento claro dos candidatos sobre o tema. Com 22,1 milhões de brasileiros apostando mensalmente, segundo o DataSenado, as bets são apontadas como problema de saúde pública. O governo criou atendimento no SUS para dependentes, mas críticos questionam se a regulamentação vigente é suficiente para conter endividamento, adoecimento e destruição de famílias.
O assunto precisa aparecer nos debates, nas sabatinas e nos programas de governo. Quem pede o voto para governar o País ou representar a população no Congresso deve responder com clareza: pretende manter esse mercado como está, impor restrições severas ou proibir as apostas on-line no Brasil?
Não basta dizer que o setor gera impostos e patrocina clubes de futebol. Também é preciso calcular o dinheiro retirado da alimentação, do aluguel, dos medicamentos, da educação dos filhos e do pequeno comércio. A arrecadação fica nos cofres públicos e o lucro vai para as empresas. Já a dívida, a doença e o desespero permanecem dentro das casas.
Pesquisa do DataSenado mostrou que, em 2024, cerca de 22,1 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais haviam feito apostas nos 30 dias anteriores ao levantamento. O dado ajuda a dimensionar a velocidade com que o jogo foi normalizado no País, impulsionado pelo futebol, pelas redes sociais, por influenciadores e por uma publicidade quase onipresente.
Celebridades e influenciadores digitais têm responsabilidade especial nesse processo. Ao emprestar o rosto, a voz e a credibilidade às plataformas, transformam a fama em uma espécie de selo de confiança. Milhões de seguidores, muitos deles jovens, são levados a acreditar que apostar é fácil, divertido e lucrativo. Raramente a propaganda mostra o outro lado: as perdas sucessivas, as dívidas, o sofrimento psicológico e a dependência.
Não é aceitável que alguém receba fortunas para estimular apostas e depois trate as consequências como responsabilidade exclusiva de quem perdeu dinheiro. A liberdade de fazer publicidade não elimina o dever de responder pelos danos da mensagem divulgada. Influenciadores que promovem bets devem ser obrigados a informar claramente os riscos, proibidos de apresentar o jogo como fonte de renda e responsabilizados quando divulgarem plataformas ilegais ou promessas enganosas. Fama não pode servir como licença para conduzir pessoas ao vício e, em situações extremas, à ruína e à morte.
O jogo deixou de exigir uma ida ao cassino ou a uma casa clandestina. Está disponível 24 horas por dia, no bolso do trabalhador, do desempregado, do aposentado e do jovem. A cada partida, escanteio, cartão ou gol, surge uma nova oportunidade de apostar. A promessa é de ganho rápido. A realidade, para muitos, é uma sequência de perdas seguida pela tentativa desesperada de recuperar o dinheiro perdido.
É assim que a diversão se transforma em doença.
A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno do jogo como problema de saúde e alerta para consequências como endividamento, rompimento de relações, violência familiar, adoecimento mental, abandono das necessidades dos filhos e suicídio. Para cada apostador em situação de alto risco, outras pessoas da família também são atingidas. Não existe prejuízo individual quando a renda que desaparece deveria pagar comida, água, energia ou aluguel.
O próprio governo reconheceu a gravidade da situação ao criar atendimento específico no SUS. Desde agosto, o sistema oferece capacidade para até 100 mil teleatendimentos mensais a apostadores e familiares por meio do aplicativo Meu SUS Digital. É uma iniciativa necessária, mas também uma confissão preocupante: o Estado autorizou e regulamentou uma atividade cujos danos agora exigem uma estrutura pública de tratamento.
A regulamentação aprovada no Brasil trouxe fiscalização, controle sobre operadores e ferramentas como a autoexclusão. Mas é legítimo perguntar se isso basta. Quem perdeu o controle nem sempre consegue estabelecer voluntariamente o próprio limite. Transferir toda a responsabilidade para o apostador é cômodo para quem lucra com sua permanência diante da tela.
A proteção precisa começar antes do vício. Deve incluir a proibição ou forte restrição da publicidade, o fim dos patrocínios que transformam jogadores e clubes em garotos-propaganda, limites obrigatórios de perdas, bloqueio do uso de crédito, intervalos compulsórios nas plataformas, identificação efetiva dos apostadores e impedimento absoluto do acesso por crianças e adolescentes.
Também é necessário tornar públicas informações sobre o número de apostadores, valores perdidos, pedidos de autoexclusão e atendimentos de saúde relacionados ao jogo. Sem dados transparentes, o País conhece o lucro das empresas, mas continua sem enxergar o tamanho completo da tragédia social.
A proibição das apostas on-line também precisa ser tratada como uma alternativa legítima. Não pode ser descartada apenas porque o setor movimenta bilhões, financia publicidade e ocupa espaços importantes no futebol. Se uma atividade legalizada produz danos que o Estado não consegue controlar, o direito de explorá-la comercialmente não pode valer mais que o direito das famílias à saúde e à segurança financeira.
Evidentemente, proibir por lei sem fiscalizar seria insuficiente. Uma eventual proibição teria de vir acompanhada do bloqueio de plataformas ilegais, interrupção dos pagamentos, punição a empresas, bancos e influenciadores envolvidos, retirada de publicidade e cooperação internacional. Caso contrário, o negócio apenas mudaria de endereço e continuaria funcionando na clandestinidade.
É justamente por envolver decisões difíceis que o tema precisa entrar na eleição. Candidatos à Presidência, ao Senado e à Câmara devem apresentar propostas nacionais. Candidatos aos governos estaduais e às assembleias precisam dizer como pretendem fortalecer a saúde mental, a educação financeira, a proteção dos consumidores e o combate à publicidade dirigida aos jovens.
O eleitor tem o direito de saber quem está disposto a enfrentar uma indústria poderosa e quem prefere silenciar diante dela.
A política existe para proteger a sociedade, especialmente quando o cidadão está vulnerável. Entre a arrecadação pública, os contratos milionários de patrocínio e a destruição de uma família, não deveria haver dúvida sobre qual lado merece prioridade.
As bets já ocupam as telas, os estádios e a vida dos brasileiros. Agora precisam ocupar o debate eleitoral. O voto também deve servir para cobrar dos candidatos um compromisso simples e inegociável: nenhum lucro pode valer mais que a saúde, a dignidade e a vida das pessoas.

