Menos palanque, mais investigação: o papel da imprensa nas eleições
O jornalismo deve investigar candidatos com rigor, independência e sem torcida

A campanha eleitoral costuma ser apresentada ao eleitor como uma disputa de propostas, discursos e promessas. Mas escolher quem vai administrar bilhões de reais, criar leis, fiscalizar governos e decidir o destino do dinheiro público exige muito mais do que ouvir frases ensaiadas, assistir a programas eleitorais bem produzidos ou acompanhar debates excessivamente engessados.
RESUMO
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O jornalismo tem papel central nas eleições ao investigar a trajetória dos candidatos, indo além dos debates e discursos ensaiados. Cabe à imprensa analisar patrimônio, mandatos, processos e uso de verbas públicas, sem proteger aliados ou atacar adversários. Com imparcialidade e rigor, o jornalismo deve oferecer ao eleitor informações suficientes para que ele faça uma escolha consciente nas urnas.
É preciso conhecer quem está pedindo o voto.
Esse talvez seja um dos papéis mais importantes do jornalismo durante uma eleição: debulhar a vida pública dos candidatos. Mostrar quem são, de onde vieram, o que fizeram, quais cargos ocuparam, como exerceram seus mandatos, que patrimônio declararam, quais compromissos assumiram e cumpriram — ou esqueceram — e, quando houver interesse público, quais investigações, processos ou acusações enfrentam.
Isso não significa condenar antecipadamente ninguém. Investigação não é sentença, denúncia não é condenação e todo cidadão tem direito à defesa e à presunção de inocência. Mas respeitar esses princípios não obriga a imprensa a esconder fatos relevantes.
Ao contrário. Quem voluntariamente se apresenta para administrar recursos públicos ou exercer poder político precisa aceitar um grau maior de escrutínio sobre sua trajetória pública. O eleitor tem o direito de conhecer informações que possam ajudá-lo a decidir se aquela pessoa merece receber seu voto e sua confiança.
O mandato eletivo também não pode funcionar como escudo. A imunidade parlamentar existe para proteger o livre exercício da função e a independência política, não para transformar o cargo público em esconderijo contra a responsabilização. Quando houver suspeitas, investigações ou processos relacionados à atuação de um candidato, cabe ao jornalismo explicar os fatos, ouvir todos os lados e permitir que o eleitor faça seu julgamento político nas urnas.
É aí que a imprensa se torna particularmente necessária.
Debates eleitorais têm importância, mas muitas vezes são aprisionados por regras, cronômetros, respostas previamente treinadas e estratégias de marqueteiros. O candidato aprende a escapar da pergunta, repetir slogans e transformar segundos preciosos em propaganda. Terminado o programa, o eleitor pode saber quem falou melhor, mas continuar sem conhecer verdadeiramente quem pretende governá-lo ou representá-lo.
O jornalismo precisa ir além desse espetáculo.
Precisa consultar documentos, acompanhar processos, conferir declarações patrimoniais, comparar discursos antigos com posições atuais, verificar votações, investigar contratos quando houver relação com a vida pública, analisar o desempenho em mandatos anteriores e confrontar promessas com resultados. Precisa perguntar de onde veio o patrimônio, como o político utilizou verbas públicas, quais interesses defendeu e qual foi sua contribuição concreta enquanto esteve no poder.
Tudo isso, porém, exige uma condição indispensável: o jornalista não pode ser torcedor.
Jornalismo eleitoral não pode escolher adversários para atacar nem aliados para proteger. O mesmo rigor aplicado ao candidato A precisa alcançar o candidato B. A pergunta incômoda feita a um precisa ser feita ao outro quando as circunstâncias forem equivalentes. Se existe documento contra quem o jornalista admira, ele precisa ser publicado. Se uma acusação contra quem ele rejeita não se sustenta, isso também precisa ser informado.
O jornalista, como qualquer cidadão, pode ter suas convicções. A reportagem, porém, não pode ser contaminada por elas.
Imprensa independente não é aquela que agrada a todos. Isso seria impossível. É aquela que não recebe ordens de partidos, candidatos, governos, empresários ou grupos políticos para decidir quem será investigado e quem será poupado.
E independência também significa suportar a reação dos contrariados. Durante campanhas eleitorais, uma reportagem crítica frequentemente é chamada de perseguição; uma matéria favorável aos fatos pode ser classificada como apoio. Faz parte da tensão provocada pelo escrutínio público. O critério do jornal não pode ser o aplauso nem a reclamação do candidato. Precisa ser o interesse do leitor.
E o interesse do eleitor é saber.
Saber quem pede seu voto. Saber o que essa pessoa já fez quando teve poder. Saber como tratou o dinheiro público. Saber se responde a processos e por quê. Saber quem são seus aliados. Saber quais interesses representa. Saber se seu discurso de hoje combina com sua trajetória de ontem.
Uma eleição não deveria ser uma competição para descobrir quem produz o melhor vídeo, domina melhor as redes sociais ou contrata o marqueteiro mais eficiente. É uma seleção pública para entregar enorme poder a algumas pessoas.
Por isso, em período eleitoral, o bom jornalismo precisa trocar o palanque pela lupa.
Não cabe à imprensa dizer em quem o cidadão deve votar. Cabe oferecer informações suficientes para que ele não vote no escuro.
O jornalismo não escolhe o candidato. Investiga. Não veste camisa. Questiona. Não pede voto. Entrega fatos. E deixa para o eleitor a única decisão que realmente lhe pertence: escolher.

