Postes sem dono: a desordem dos fios ameaça vidas e expõe o abandono urbano
Problema revela um vazio de responsabilidade entre concessionárias, operadoras e poder público

Quem caminha pelas ruas de Campo Grande já se acostumou a olhar para cima e encontrar um cenário que deveria causar indignação, mas acabou sendo incorporado à paisagem: postes tomados por um emaranhado de cabos, fios rompidos pendurados sobre calçadas, redes improvisadas e instalações clandestinas. O que parece apenas um problema estético transformou-se em uma questão de segurança pública, mobilidade urbana e falta de gestão.
RESUMO
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Os postes de Campo Grande acumulam cabos abandonados, instalações clandestinas e fios rompidos que representam risco à segurança pública. Sem fiscalização efetiva, empresas de telecomunicações ocupam a infraestrutura sem identificação ou controle. Motociclistas e pedestres já sofreram acidentes. O deputado Paulo Duarte aponta que nenhum órgão assume a responsabilidade, e um projeto de lei para disciplinar o uso dos postes foi vetado pela Prefeitura.
Os efeitos dessa desordem são sentidos diariamente. Motociclistas e ciclistas já sofreram acidentes provocados por fios caídos. Pedestres convivem com o risco permanente. Quedas de energia se tornam mais frequentes, furtos de cabos provocam prejuízos milionários e bairros inteiros ficam sem internet ou telefonia. O crescimento acelerado das empresas de telecomunicações e provedores de internet multiplicou a quantidade de cabos, mas não houve, na mesma velocidade, fiscalização nem regras efetivas para disciplinar a ocupação dos postes.
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O problema, que já compromete a paisagem urbana da Capital, começa a se espalhar também para cidades do interior, como Dourados, mostrando que a falta de controle deixou de ser uma situação isolada para se transformar em um problema estadual.
Apesar da gravidade, as soluções caminham lentamente. Houve força-tarefa para retirada de cabos inutilizados, vereadores aprovaram legislação para disciplinar a ocupação dos postes, mas o projeto acabou vetado pela Prefeitura. Enquanto isso, o deputado estadual Paulo Duarte tenta descobrir quem, afinal, é responsável por fiscalizar a bagunça instalada nos postes da cidade.
A resposta encontrada até agora é desanimadora.
Segundo o parlamentar, ninguém assume a responsabilidade. Não existe um órgão que efetivamente fiscalize ou obrigue empresas a retirar cabos abandonados, identificar instalações clandestinas ou reorganizar a ocupação da infraestrutura.
"Quem anda pela cidade percebe, eu não vejo outro adjetivo, a verdadeira esculhambação que são os postes onde, muitas vezes de forma clandestina, são colocados fios de telefonia, internet. Isso coloca em risco a vida das pessoas", resume Paulo Duarte.
Sua crítica evidencia um problema maior: quando todos dividem a responsabilidade, ninguém responde por ela.
Os postes pertencem, em grande parte, à concessionária de distribuição de energia elétrica, mas são compartilhados por dezenas de operadoras de telefonia, televisão por assinatura e provedores de internet. Em tese, cada empresa deve identificar seus cabos, retirar instalações desativadas e obedecer às normas técnicas. Na prática, a fiscalização é insuficiente, a identificação quase nunca existe e o resultado é um emaranhado impossível de distinguir.
Esse vazio de fiscalização favorece, inclusive, ligações clandestinas. Empresas que entram no mercado muitas vezes ocupam postes sem autorização, lançam novos cabos sem retirar os antigos e deixam a conta para a cidade pagar.
O prejuízo vai além da estética.
Postes sobrecarregados aumentam o risco de rompimento da rede, dificultam a manutenção dos serviços, ampliam os custos das concessionárias e comprometem a segurança de trabalhadores que precisam atuar na rede elétrica. Em casos extremos, um simples cabo rompido pode provocar acidentes graves ou até fatais.
Campo Grande já mostrou capacidade para enfrentar desafios urbanos quando diferentes órgãos trabalham em conjunto. O mesmo precisa ocorrer com a fiação aérea. Não basta promover mutirões ocasionais para retirar alguns cabos. É necessário criar uma política permanente de fiscalização, identificar cada empresa responsável, aplicar multas, retirar imediatamente fios abandonados e impedir novas instalações irregulares.
Enquanto isso não acontecer, continuará valendo a sensação de terra sem lei.
Os postes, que deveriam sustentar a infraestrutura da cidade, hoje sustentam também a desorganização, a omissão e a incapacidade do poder público de exigir que cada empresa cumpra sua obrigação.
Mais do que fios emaranhados, Campo Grande convive com responsabilidades emaranhadas. E esse talvez seja o maior problema: quando ninguém responde pela bagunça, é a população que paga o preço — com acidentes, prejuízos, interrupção de serviços e a permanente sensação de abandono nas ruas da cidade.

