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Educação e Tecnologia

Prejudicados com pandemia, alunos ainda têm esperança de adiamento do Enem

Quem é aluno de rede pública ainda enfrenta dificuldade extra na hora de acessar as aulas on line

Por Lucia Morel | 11/05/2020 20:53
Elis estuda em escola pública e acessa todo conteúdo pelo celular. Ainda assim, acredita que o ensino está sendo prejudicado e defende o adiamento do Enem. (Foto: Arquivo Pessoal))
Elis estuda em escola pública e acessa todo conteúdo pelo celular. Ainda assim, acredita que o ensino está sendo prejudicado e defende o adiamento do Enem. (Foto: Arquivo Pessoal))

Diante das dificuldades de estudar à distância, obrigação imposta pela pandemia do novo coronavírus, se preparar para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ficou ainda mais difícil. Mas apesar das inscrições aberta hoje, alunos e professores de escolas públicas e privadas ainda têm esperança de que a prova seja adiada e são unânimes em afirmar que, mesmo com realidades bem distintas, a covid-19 vai prejudicar o processo de aprendizagem e também, o desempenho no exame.

Na rede pública, talvez os problemas sejam mais evidentes. Aos 17 anos, Elis Fuchs está no 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Emygdio Campos Widal, no bairro Vilas Boas. Ela conta que maioria dos alunos do colégio têm uma situação financeira boa, o que facilita o acesso às plataformas online de estudo.

Ela mesmo, acessa os vídeos dos professores pelo celular, assiste as aulas e vai fazendo suas anotações e atividades. Mas ainda assim, alega que a qualidade do aprendizado caiu. “Fica muito mais difícil estudar, porque o professor não sabe o que você realmente aprendeu”, avalia.

Além disso, a estudante destaca que nas aulas presenciais “você faz as perguntas e tira suas dúvidas na hora. Há uma comunicação de verdade, até a explicação é melhor”.

Favorável ao adiamento do Enem, a jovem que pretende cursar Biologia, afirma que por estudar em uma escola em bairro nobre, as ferramentas de estudo são acessíveis a todos e mesmo os professores já atuam nelas, como o Google Classroom ou You Tube, mas pondera que “muitos alunos não têm acesso à internet e a um estudo de qualidade estando em casa. Não seria justo com esses que o Enem continuasse na mesma data”, sustenta.

“Não temos nem previsões exatas de quando isso tudo chegará ao fim, e aí, mais uma vez uns seriam mais privilegiados que outros. E tendo em vista que a educação é para todos, o posicionamento do governo em não adiar as provas se torna extremamente injusto”, avalia a estudante.

E se mesmo tendo todo esse acesso, Elis tem achado complicado estudar à distância, para Marcos Vinícius Alves dos Santos, 17 anos, também de escola pública, é ainda pior. No 3º ano do Joaquim Murtinho, ele não tem tido aulas por vídeo e todo material que recebe é escrito e por e-mail.

Também de escola pública, Marcos recebe todo material por e-mail e por escrito e até agora não teve nenhuma aula em vídeo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Também de escola pública, Marcos recebe todo material por e-mail e por escrito e até agora não teve nenhuma aula em vídeo. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu acho que aula em vídeo ajudaria muito, porque a maioria dos alunos tem déficit de atenção e não consegue entender só com a leitura. A explicação do professor faz muita diferença”, afirma.

“Tem que adiar devido a desigualdade entre rede pública e particular. Alguns (alunos) não tem acesso à internet, computadores ou celular e isso prejudica. O que está acontecendo (pandemia) é uma perda mundial, não só aqui no Brasil”, destaca o aluno que pretende fazer faculdade de História.

Desigualdade - O professor Teylor Fuchs, de Sociologia, explica que o ano atípico evidencia as desigualdades já estabelecidas no ensino e as fortalece, mesmo entre colégios públicos.

Professor Teylor preparando suas aulas em casa. (Foto: Arquivo Pessoal)
Professor Teylor preparando suas aulas em casa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ele dá aula em quatro escolas diferentes, todas da rede estadual, mas duas na região central, outra em frente ao Aeroporto Internacional e uma no bairro Estrela do Sul, e diz que nesta última, os alunos apresentam uma dificuldade real de acesso às tecnologias. “Temos que imprimir nosso trabalho para os alunos irem lá buscar e isso dificulta o processo como um todo”, avalia.

Além disso, ele cita que o preparo para o Enem este ano está prejudicado, e deveria ser adiado.

“Começamos as aulas à distância de forma emergencial mesmo, não estávamos preparados”, diz, ao que completa que “já temos desigualdades o bastante, o que só se acentua nesse momento”.

Rede privada – Mesmo com todas as condições de acesso ao estudo online e com a rotina voltada para se preparar para o Enem, Sarah Passarinho, 19 anos, que quer ser médica, afirma que se sente prejudicada para fazer o exame no fim do ano e lembra que para outros deve estar sendo ainda pior.

Sarah não reclama das condições de acesso ao estudo, mas sabe que a realidade de muitos é difernete e por isso, também defende o adiamento do Enem. (Foto: Arquivo Pessoal)
Sarah não reclama das condições de acesso ao estudo, mas sabe que a realidade de muitos é difernete e por isso, também defende o adiamento do Enem. (Foto: Arquivo Pessoal)

“É muito complicado. A realidade no Brasil é muito distinta e tem escolas que não têm nem livros, nem aulas em vídeo e assim, se o Enem for mantido, será muito injusto”, ressalta.

Ela conta que seu pai é professor da rede estadual e “tem muitas famílias que não tem internet nem dinheiro para ter”, o que prejudica os estudantes nesse momento em que as aulas online são a única alternativa.

A estudante faz cursinho no Colégio Refferencial e afirma que está tendo todo suporte necessário aos estudos, mas que ainda assim, é uma adaptação difícil.

“Você vê sua casa como o local de conforto, descanso e adaptar a rotina para estudar em casa é complicado. Confesso que estou me adaptando até agora”, relata.

Sarah diz ainda que acorda às 7 horas e assiste às aulas online, e à tarde, estuda novamente, todos os dias, até umas 21 horas, mas que divide todo esse período com os afazeres de casa, o que acaba dispersando. “Não é a mesma qualidade de você ter aula presencial”, declara.

Para o professor Bomba, este ano, todos sairão prejudicados. (Foto: Professor Edilson)
Para o professor Bomba, este ano, todos sairão prejudicados. (Foto: Professor Edilson)

O professor Bomba, como é conhecido, Robson Luiz Araújo, proprietário do Refferencial, diz que não acredita que o preparo dos alunos através das aulas online seja o mesmo que com as aulas presenciais. “O online ajuda muito, mas temporariamente e para quem tem rotina. A maioria dos alunos nós temos que pegar no ombro, incentivar”, avalia.

Para ele, que dá aula de Física, o adiamento do Enem seria ideal, para dar tempo adequado de adaptação a toda realidade transformada a partir do novo coronavírus. “Eu acho que teria q alterar (a data do Enem), porque foi tudo muito de surpresa, repentino e se adaptar a tudo isso e ainda se preparar pra prova é muito para esses estudantes”.

Segundo o professor, os alunos passarão a ter acompanhamento com a psicóloga do colégio, porque “eles reclamaram que não conseguem programar uma rotina e na escola há a cobrança, o incentivo, que muitas vezes não há em casa”, conta.

Além disso, “é um momento de muita pressão, incerteza, mudanças. Algumas faculdades não vão fazer mais provas normais, vão usar só o Enem e eles têm que se adaptar a tudo isso. É complicado”, sustenta.

As inscrições para a prova começaram hoje e seguem até 22 de maio. Este ano, o Enem poderá ser tanto impresso, com aplicação das provas prevista para os dias 1º e 8 de novembro, e digital, nos dias 22 e 29 de novembro.