Falta de chuva e calor extremo lideram preocupação com El Niño em MS
Enquete mostra receio concentrado na estiagem, mas previsões também indicam risco de temporais e incêndios
A falta de chuva é o impacto do El Niño que mais preocupa os participantes da enquete, com 34% das respostas. O calor extremo aparece logo depois, citado por 31%. Somadas, as duas alternativas concentram quase dois terços das manifestações e revelam que o principal temor está relacionado ao avanço da seca e das altas temperaturas em Mato Grosso do Sul.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
O aumento dos preços foi apontado por 21% dos participantes, enquanto as chuvas intensas ficaram em último lugar, com 15%. Os percentuais exibidos somam 101%, provavelmente por causa do arredondamento dos resultados.
- Leia Também
- Colheita do milho acelera e chega a 15,8% da área plantada em MS
- Pantanal tem alta de 770% na área queimada e MS entra em alerta para incêndios
A preocupação com calor e falta de chuva encontra respaldo nas projeções divulgadas pelo Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul). O órgão prevê temperaturas acima da média histórica entre agosto e outubro, com maior probabilidade de ondas de calor, baixa umidade e incêndios florestais, principalmente no Pantanal e em áreas de vegetação nativa.
Apesar de os modelos indicarem chuva ligeiramente acima da média no trimestre, isso não significa precipitação regular. Os volumes podem se concentrar em poucos episódios, intercalados com longos períodos secos. Agosto e parte de setembro ainda devem registrar pouca chuva, mantendo o risco de estiagem temporária e redução da umidade do ar. Em outras palavras, uma média positiva no papel não garante água caindo na hora e no lugar necessários.
O risco não está restrito às previsões. Entre 1º de janeiro e 15 de julho, a área queimada no Pantanal sul-mato-grossense passou de 6.762 para 58.878 hectares, crescimento de 770,7% em relação ao período comparado. Os focos de calor também mais que dobraram, de 69 para 149 registros. Para os próximos meses, áreas pantaneiras, do norte e do nordeste do Estado aparecem com classificação de “Alerta Alto” para incêndios florestais.
Um incêndio iniciado na região de Forte Coimbra, em Corumbá, chegou a atravessar a fronteira brasileira e atingir o Parque Nacional de Otuquis, na Bolívia. Ventos fortes, baixa umidade e temperaturas elevadas favoreceram o avanço das chamas. O CBMMS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul) mobilizou equipes para o combate e manteve articulação com instituições bolivianas.
É necessário, porém, evitar uma conclusão automática: o El Niño não pode ser responsabilizado sozinho pelo surgimento de cada incêndio. O fenômeno modifica as condições de temperatura e chuva e pode deixar a vegetação mais vulnerável, favorecendo a propagação do fogo. A origem das chamas precisa ser investigada em cada ocorrência.
No campo, a maior preocupação não é somente quanto vai chover, mas quando e como essa chuva será distribuída. Para o plantio da soja da safra 2026/2027, temperaturas elevadas e precipitações irregulares podem reduzir a umidade do solo, prejudicar a germinação e obrigar produtores a refazer a semeadura.
A colheita do milho da segunda safra também mostra como os extremos podem se alternar. Até 17 de julho, os trabalhos haviam alcançado 15,8% da área cultivada, equivalente a aproximadamente 349 mil hectares. O ritmo estava abaixo do registrado na safra anterior, principalmente devido ao excesso de chuva no começo da colheita. Para as semanas seguintes, havia alerta para precipitações irregulares, ventos fortes e episódios localizados de granizo.
O quadro ajuda a explicar por que falta de chuva e tempestades não são possibilidades contraditórias. Um período pode ter acumulado total elevado e, ainda assim, enfrentar semanas de estiagem ou receber grande quantidade de água em poucas horas.
O receio com o aumento dos preços, apontado por 21% na enquete, também está relacionado aos possíveis impactos sobre o setor produtivo. Um estudo do LCA (Laboratório de Ciências Atmosféricas) da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) alerta que, caso as projeções de um El Niño muito intenso se confirmem, agronegócio, transportes, geração de energia e turismo poderão ser afetados, com possibilidade de pressão sobre os preços dos alimentos.
Chuvas mal distribuídas podem comprometer culturas como soja, milho, algodão, feijão e cana-de-açúcar, além de prejudicar pastagens e aumentar o estresse térmico dos animais. Isso não significa que os preços necessariamente subirão, pois o mercado também depende da produção de outras regiões, estoques, câmbio, custos logísticos e demanda. Significa apenas que o risco climático entrou na conta.
Embora as chuvas intensas tenham recebido apenas 15% das respostas, o risco continua relevante. Em Campo Grande, foram realizados 604 recolhimentos de árvores ou galhos somente no primeiro semestre de 2026, número superior aos 596 registrados durante todo o ano anterior. Havia ainda cerca de 300 árvores aguardando avaliação da prefeitura.
A própria análise meteorológica citada na reportagem, contudo, reconhece que ainda não é possível determinar quanto o El Niño ampliará as quedas de árvores e os temporais na Capital. Associar todo vendaval diretamente ao fenômeno seria simplificação, não informação.
Além dos prejuízos ambientais e econômicos, calor, fumaça e baixa umidade podem aumentar os problemas respiratórios e os riscos para pessoas que trabalham ao ar livre. O Estado prepara um plano de adaptação do setor de saúde integrado ao AdaptaSUS e voltado à resposta a ondas de calor, secas, incêndios e enchentes.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.



