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Esportes

Gaeco flagrou grupo em “saída de banco” para “farra” com dinheiro do futebol

QG da “Máfia da Bola” era casa de dirigente, mas divisão de “lucros” também acontecia na sede de federação

Por Anahi Zurutuza e Aline dos Santos | 22/05/2024 15:10
Escoltado, Umberto Alves Pereira chega à sede da FFMS, onde Gaeco fez buscas na manhã desta terça-feira (21) (Foto: Marcos Maluf)
Escoltado, Umberto Alves Pereira chega à sede da FFMS, onde Gaeco fez buscas na manhã desta terça-feira (21) (Foto: Marcos Maluf)

Trabalho “de campo” de agentes do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado) flagrou saque e distribuição de dinheiro do futebol sul-mato-grossense em frente à agência bancária de Campo Grande. A investigação mostra ainda que os encontros da “Máfia da Bola” aconteciam na casa do presidente “eterno” da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul, Francisco Cezário de Oliveira, de 77 anos, ou na sede da entidade.

As informações foram trazidas pelo juiz Eduardo Eugênio Siravegna Junior, da 2ª Vara Criminal, que mandou prender o invicto, até agora, presidente da FFMS e outras seis pessoas suspeitas de lucrar com esquema de desvio de milhões da federação. Além disso, nesta terça-feira (21), o Gaeco foi às ruas de Campo Grande, Dourados e Três Lagoas para vasculhar 14 endereços ligados a investigados.

Para fundamentar a decisão, o juiz narra que pedidos de prisão e busca feitos pelo Gaeco estão embasados “em farta documentação”. Explica que as apurações iniciais foram feitas com base em interceptações telefônicas e quebras de sigilos bancários autorizadas anteriormente pela Justiça – por motivos óbvios, em sigilo.

Pelo que destaca o magistrado, os investigados sempre pareceram muito à vontade com as práticas ilegais. Investigadores debruçaram-se sobre dados colhidos a partir de 2018, mas agentes fizeram campana, por exemplo, em 2022 e encontraram depósitos suspeitos nas contas dos alvos até 2023.

Na casa de Cezário, policial militar do Gaeco conta dinheiro apreendido e na parede, o "passado" do futebol em MS (Foto: Gaeco/Divulgação)
Na casa de Cezário, policial militar do Gaeco conta dinheiro apreendido e na parede, o "passado" do futebol em MS (Foto: Gaeco/Divulgação)

Flagra – Um dos episódios que chamou a atenção de Siravegna Junior foi em outubro de 2022. Naquele mês, a Federação de Futebol havia recebido verbas de dois termos de fomento ao esporte. O juiz não cita quais, mas em rápida pesquisa no Diário Oficial do Estado, a reportagem identificou o pagamento de R$ 170.144,80 da Fundesporte (Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul) para a FFMS realizar o “Campeonato Sul Mato-Grossense de Futebol Amador Feminino”.

No dia 25 daquele mês, a equipe de campo do Gaeco flagrou Umberto Alves Pereira, sobrinho de Cezário, hoje com 65 anos, saindo da sede da FFMS, no Bairro Amambaí em direção a uma agência do Banco Itaú da Capital. Ainda monitorado, ele deixa a agência com uma pasta preta na mão e, de acordo com o relatado pela investigação, “no local, aguardavam Aparecido Alves Pereira, Francisco Carlos Pereira, Marco Antônio Tavares (vice-presidente da FFMS), Luiz Eduardo Leão Gonçalves e Rudson Bangarim Barbosa, supostamente para receberem parte do dinheiro sacado”.

“Conforme relatório de movimentação bancária extraído da medida cautelar que afastou o sigilo bancário, foi possível identificar que, no dia da mencionada reunião (25/10/2022), houve dois saques de R$ 5.000,00 da conta da Federação de Mato Grosso do Sul”, registra o juiz.

O magistrado anotou ainda que “tal prática persistiu durante as investigações, tendo no dia 10/10/2023, Umberto Alves Pereira sido visto realizando o mesmo procedimento: indo até a agência bancária para sacar valores em espécie e posteriormente retornando à sede da FFMS para supostamente dividir a quantia com os demais integrantes da organização criminosa”.

No flagra de um ano depois, “Beto”, como é conhecido o sobrinho e braço direito de Cezário, também preso pela Operação Cartão Vermelho, foi visto com um maço de notas nas mãos saindo da agência bancária.

Casa do presidente da FFMS, que destoa no Bairro Taveirópolis pelo tamanho (Foto: Henrique Kawaminami)
Casa do presidente da FFMS, que destoa no Bairro Taveirópolis pelo tamanho (Foto: Henrique Kawaminami)

Os encontros e delivery de “grana” – O Gaeco também vigiou a residência do “dono da bola” de futebol em Mato Grosso do Sul há pelo menos quatro décadas e constatou que o local era usado como ponto de encontro para a divisão do dinheiro público, dos clubes e patrocinadores.

Outrossim, o trabalho de campo também revelou que Francisco Cezário de Oliveira realizava diversas reuniões em sua casa, com o fim de supostamente organizar o esquema de desvio de dinheiro da Federação de Futebol. Nesse sentido, no mês de setembro de 2022, compareceram, entre outros, Aparecido Alves Pereira e Francisco Carlos Pereira, que estavam na reunião do dia 25 de outubro, bem como Valdir Alves Pereira, também apontado como parte integrante na organização”, diz trecho da decisão judicial.

O presidente também recebia valores em mãos, na própria casa, conforme identificado pelo Gaeco em diálogo por telefone captado no dia 17 de julho de 2022. Aparecido Alves Pereira, outro alvo preso ontem, que trabalha como delegado em jogos da federação, conversava com a esposa e diz que naquela tarde, Umberto colocou “dinheiro dentro do envelope e foi lá na casa do Cezário entre quatro e cinco horas da tarde”.

Francisco Cezário de Oliveira deixando a casa dele, preso pelo Gaeco (Foto: Henrique Kawaminami)
Francisco Cezário de Oliveira deixando a casa dele, preso pelo Gaeco (Foto: Henrique Kawaminami)

Entenda – Nesta terça-feira (21), o Gaeco levou Francisco Cezário de Oliveira para a cadeia. A Operação Cartão Vermelho investiga esquema que desviou R$ 6 milhões da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul, entidade que recebe dinheiro público e da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para custear o esporte no Estado.

A casa do presidente da FFMS – imóvel de alto padrão, localizado na Vila Taveirópolis, na Capital – também foi vasculhada. No local, agentes apreenderam mais de R$ 800 mil em espécie.

Contra Cezário havia mandado de prisão preventiva (por tempo indeterminado). Como ele é advogado com registro ativo, o trabalho foi acompanhado por representantes da Comissão de Defesa e Assistência das Prerrogativas dos Advogados de Seccionais da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e ele foi levado para cela especial no Presídio Militar Estadual.

André Borges, responsável pela defesa de Cezário, afirmou que a quantia encontrada na casa tem origem lícita. “Não é crime manter dinheiro em casa. Tem origem lícita, que no momento oportuno será declarada”.

Mil saques – De acordo com o Gaeco, braço do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, a ofensiva desbaratou organização criminosa voltada à prática de peculato, estelionatos, falsidades documentais, lavagem de dinheiro e delitos correlatos.

Em 20 meses de investigação, o Gaeco constatou que um grupo desviava valores, provenientes do Estado (via convênio, subvenção ou termo de fomento) ou mesmo da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), em benefício próprio e de terceiros. “Uma das formas de desvio era a realização de frequentes saques em espécie de contas bancárias da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul – FFMS, em valores não superiores a R$ 5.000,00 (cinco mil reais), para não alertarem os órgãos de controle, que depois eram divididos entre os integrantes do esquema”, informa a nota do MPMS.

Nessa modalidade, verificou-se que o grupo fez mais de 1.200 saques, que ultrapassaram o total de R$ 3 milhões.

A organização criminosa também contava com esquema de desvio de diárias dos hotéis pagos pelo Estado em jogos do Campeonato Estadual de Futebol. O esquema de peculato tinha “cashback”, numa devolução criminosa de valores.

Ao todo, os valores desviados da FFMS, no período de setembro de 2018 até fevereiro de 2023, superaram R$ 6 milhões.

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