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Campo Grande, Terça-feira, 20 de Agosto de 2019

30/07/2019 08:15

Desbotada, fachada cor-de-rosa resiste na 14 com botões e outras miudezas

Moacyr Pereira Lima, aos 82 anos mantém a rotina de abrir a loja às 7h30 e só voltar para casa às 17h, desde 1996.

Kimberly Teodoro
Depois de tanto tempo na Rua 14 de Julho, Moacyr espera poder fechar as portas em breve.Depois de tanto tempo na Rua 14 de Julho, Moacyr espera poder fechar as portas em breve.

A fachada de um rosa antigo e portas azuis, na Rua 14 de Julho, entre as ruas Maracajú e Antônio Maria Coelho, abriga botões, zíperes, linhas, agulhas e todo o tipo de miudezas em aviamentos há 23 anos, sem qualquer mudança. Em meio ao ir e vir da movimentação do centro, uma pausa para conversar com Moacyr Pereira Lima, que aos 82 anos mantém a rotina de abrir a loja às 7h30 e só voltar para casa às 17h, desde 1996.

Pontual, o horário vem mais do costume do que da necessidade, já que o movimento por lá só aumenta mesmo depois das 10h. 

Bem disposto, Moacyr mantém a mente afiada e bom humor de quem está sempre disposto à troca de ideias, sem se incomodar com quem interrompe a leitura do jornal “O Estado de São Paulo” ou da revista “Veja”, veículos de comunicação que ainda assina na versão impressa. Assim como o hábito de ler a notícia no papel, o ambiente ao redor também não mudou e mantém cada balcão e expositor no mesmo lugar.

Na ponta da língua sempre uma recomendação sobre o melhor tipo de linha ou agulha, tudo aprendido na prática, depois de deixar o ramo imobiliário para abrir a loja de aviamentos em uma 14 de Julho muito diferente do que é hoje. Além dele, apenas outros dois comerciantes resistem há tanto tempo por ali. Entre todas as mudanças, principalmente o estilo das mercadorias, que acompanharam as necessidades dos clientes que ainda mantém o costume de comprar na “Rua Principal”.

Não é raro encontrar Moacyr nos fundos da loja, com um jornal impresso em mãos.Não é raro encontrar Moacyr nos fundos da loja, com um jornal impresso em mãos.

Acostumado a transitar pela loja, Moacyr têm cada item com cerca de 800 variações bem guardados na memória. Assim como os clientes, que já familiarizados com os expositores em vertical, como se usava na década de 1990, entram e vão pelos corredores estreitos até aquilo que buscam. Quando não encontram, o vendedor de aviamentos sabe exatamente em que gaveta pode haver uma alternativa ou qual das lojas vizinhas fornece a mercadoria.

“É como pegar um dicionário e repassar uma palavra 100 vezes, você vai fixando. Não tiro as coisas do lugar. É tudo estático, nada dinâmico, não houve mudança. Na época em que abrimos era assim, hoje eu já não deixaria as coisas nessa disposição”, conta. Quando questionado sobre a cisma tradicionalista, ele não acusa motivo, mas diz ser dessa maneira até em casa onde costuma organizar as próprias coisas da mesma maneira desde que consegue se lembrar.

Expositores permanecem como se usava na década de 1990.Expositores permanecem como se usava na década de 1990.
Botões e outras miudezas permanecem nas mesmas gavetas, desde que a loja abriu pela primeira vez.Botões e outras miudezas permanecem nas mesmas gavetas, desde que a loja abriu pela primeira vez.
À moda antiga, as mercadorias continuam expostas atrás do balcão.À moda antiga, as mercadorias continuam expostas atrás do balcão.

Encantado pelas palavras, Moacyr é um leitor curioso e mantém a antiga prática de escola de passar o tempo buscando verbetes no dicionário. “Toda a vida eu procurei ler para ter na medida do possível um bom cabedal de vocabulário, um bom estoque de expressões. Sempre gosto de estar com um dicionário à mão, sou curioso para saber palavras inusitadas, inéditas. Sou viciado em dicionário, em palavras e em aprender”, explica ilustrando um dos saberes que carrega consigo: “Mens sana in corpore sano”, mente sã em corpo são. Provavelmente, um dos segredos da longevidade do comerciante, que afirma que a natureza do ser humano é se manter em movimento, ocupar os pensamentos.

Nascido no interior de São Paulo, Moacyr veio para Campo Grande ainda menino na década de 1950. Quando chegaram por aqui, a família estabeleceu-se na região da atual Vila Carvalho, região que segundo Moacyr também acomodava outras serrarias, enquanto a madeira explorada vinha principalmente das saídas para Rochedo e Corguinho. O passar do tempo e a escassez de recursos acabaram por encerrar o negócio, mas o homem que chegou por aqui na infância havia criado raízes e não pensou em deixar a cidade.

Casado desde 1974, ele conta que a esposa trabalhou com ele por muitos anos, mas hoje é dona da loja de fachada cor-de-rosa choque a poucos metros de distância. Por lá, apenas pedrarias mais refinadas, artigos com os quais ela prefere trabalhar. 

Apesar da disposição, Moacyr revela que a "Linha & Cia" deve fechar as portas em breve. Depois de tanto tempo na Rua 14 de Julho, é hora do homem que sempre foi dono do próprio negócio descansar. Com uma longa trajetória no comércio, primeiro no ramo imobiliário e depois na pequena loja de aviamentos, ele afirma que não é uma questão financeira. "É hora de dedicar o meu tempo à outras coisas, voltar a estudar línguas e curtir a minha neta".

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