ACOMPANHE-NOS    
JULHO, DOMINGO  25    CAMPO GRANDE 28º

Artes

Animais, ritos e espiritualidade: uma missa para Hanny

Personagem revela a vida em comum dos humanos e seus bichinhos em novo conto emocionante

Por Marília Adrien de Castro, Dulce Martins e Lúcia Carolina | 14/03/2021 07:42
Ilustração feita por Guto Naveira.
Ilustração feita por Guto Naveira.

Hanny partiu no dia 9 de setembro de 2015 aos 19 anos e quase cinco meses. Na tarde de 16 de setembro de 2016, os sinos da igreja matriz de São José badalaram por ela. Às 18h, amigos e familiares compareciam à missa em homenagem à memória que guardavam de Hanny, diante de uma fotografia projetada perto dos vitrais coloridos.

Na foto, Hanny estava em um ambiente natural, atrás dela, no céu, as nuvens tinham formações perfeitas, muito parecidas com o aspecto dos gomos macios do corpinho da poodle. Sozinha e em primeiro plano, Hanny espreita o horizonte, atenta a algo à frente na paisagem, que não podemos ver. É possível perceber-se que se trata de um local bastante alto, porque não se vê mais nada atrás dela – só as nuvens. Está em pé sobre as quatro patinhas, em cima de formações minerais muito vistosas, de várias saliências, em tons terrosos. Todo o quadro transmite uma simpática impressão de que o lugar é especial, há algo de incomum, de sublime, seria possível imaginá-lo como um ponto na trajetória de uma escalada, um mirante no caminho rumo a uma grande altura.

A vida em comum das pessoas e dos bichos

Os animais não humanos sempre fizeram parte das vivências dos humanos, pessoas e bichos dividem o cotidiano, a realidade, dificuldades e os momentos de felicidade, desde o início da História. Ao longo dos tempos, em todas as culturas, os animais estiveram e estão presentes também nos ambientes espirituais, em suas práticas e no aspecto simbólico.

Na narrativa de criação do universo e do ser humano dos indígenas Mbyá-Guarani, que habitam várias regiões do Brasil, além da Argentina e do Paraguai, o primeiro animal a surgir da ação da essência criadora (Nhamandú) é um colibri, nascido na evolução da dança e do canto das primeiras intenções/manifestações criadoras do universo.

Os deuses guaranis são todos relacionados aos elementos da natureza (à morte, à sexualidade, à fertilidade, aos diversos espaços geográficos, como cavernas, campos abertos, montanhas, aos cursos d’água etc.), de maneira que o comparecimento de animais às situações que descrevem e identificam as presenças de deuses é tão corrente quanto o apontamento dos aspectos místicos relacionados às pessoas humanas. Assim, Teiú-iaguá (lagarto-cachorro), o deus das cavernas, grutas e lagos, revela-se em tudo o que estes ambientes contêm, nas águas, nas frutas, nas plantas, no mel e nos animais. Seu corpo é de lagarto, tem sete cabeças, todas de cachorro, e é venerado com um respeito temeroso porque os humanos se servem dos tesouros entre os quais Teiú-iaguá vive.

Ossos e dentes de animais, plumas e objetos que os representam são usados pelos indígenas de todas as etnias num sentido de adorno que ultrapassa a noção comum nas culturas não indígenas, os enfeites são compreendidos como prolongamentos dos corpos das pessoas que os confeccionam e usam e quando contêm algum elemento que fora parte do corpo de um animal, faz-se presente uma fusão entre aquele animal e o humano, de tal modo que as habilidades e os poderes do animal são transferidos ao humano que porta o adorno.

No Budismo, muitas reflexões são lançadas a partir da observação da vida dos animais, tartarugas, peixes, gatos, borboletas, ratos, bois são personagens de contos, aforismos, de exercícios espirituais.

O Budismo, em geral, defende que o ser humano estenda a compaixão para os animais. Entre os principais valores deste caminho espiritual (isto é, entre seus objetivos) está o de evitar o sofrimento dos seres, os budistas entendem que não há razões para que sejam excluídos os seres não humanos e sencientes, aqueles que têm sentidos e por isto são capazes de ter a impressão de que estão vivos, algo próximo à ideia que fazemos da consciência.

Os deuses egípcios ou assumiam formas de animais ou eram compreendidos como seres híbridos entre humanos e animais. A deusa Nut representava-se apoiada no solo sobre seus braços e pernas, com o ventre e os seios voltados para o chão e neste vão formado por seu corpo curvado, dentro do qual seu tronco constitui uma cobertura, desenhavam-se outros deuses, figuras humanas ou todo um panorama da vida sobre a Terra, seus ciclos, as vivências do povo egípcio, textos sagrados, de maneira que Nut representava a abóboda celeste. Nut também era retratada como uma vaca, na mesma configuração, com o arco formado por seu corpo preenchido pelas vivências do povo egípcio, as figuras humanas alimentam-se nos seios de Nut quando na forma de vaca. A deusa Nut protegia e nutria aqueles que estivessem dentro do arco de seu ventre.

A convivência doméstica com os felinos livrou os egípcios da presença dos ratos, das doenças que eles trazem e da perda de grãos e cereais porque os ratos os consumiam. Assim, não foi difícil que os gatos, caçadores dos ratos, fossem entendidos como divindades, não propriamente como deuses, mas como seres consagrados aos deuses. A deusa Bastet, por exemplo, dividia com os felinos a materialidade do corpo, manifestando-se como um híbrido de corpo humano e cabeça de gato ou inteiramente como uma gata.

No cristianismo, há uma discussão a respeito da hierarquização entre seres humanos e animais, os dois pontos de vista, o de que não haveria hierarquia entre eles e o de que esta subordinação teria razão de ser, são advogados, há muito, por figuras de expressão nos estudos religiosos. Essas duas visões ainda estão em debate.

O único filme brasileiro que já conquistou, em nossa história, a Palma de Ouro (o prêmio máximo do prestigiado Festival de Cannes/França) traz em seu argumento o debate que ocorre no âmbito do cristianismo, sobre a equivalência espiritual entre seres humanos e animais não humanos. O filme de 1962, de Anselmo Duarte (Salto/SP, 21/04/1920 – São Paulo/SP, 07/11/2009) conta no cinema a história da peça teatral de mesmo nome, “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes (Salvador/BA, 19/10/1922 – São Paulo/SP, 18/05/1999).

No enredo, Zé do Burro caminha de sua cidade, no sertão baiano, até a capital, Salvador, carregando uma cruz que ele pretende depositar no altar da Igreja de Santa Bárbara (no bairro da Liberdade) a fim de pagar a promessa que fizera pela recuperação de seu melhor amigo, Nicolau, doente por longos meses, aparentemente sem cura, até que recupera sua saúde depois que Zé procura todos os santos e sacerdotes, da igreja católica ao candomblé, desesperado diante da possibilidade de perder seu amigo de toda uma vida. O problema: Nicolau é um burro, o burro do nome de Zé.

A trama desenrola-se na disputa entre diferentes compreensões, padre Olavo e parte dos fiéis não aceita que uma promessa possa ser feita pela melhora de um burro, ainda mais uma promessa que envolve tantos ambientes religiosos, da comunidade católica da cidadezinha de Zé do Burro ao terreiro de candomblé presente na mesma pequena cidade. Outra parte da comunidade se enternece com a busca, a dedicação e os sentimentos puros de amizade, companheirismo e compaixão de Zé do Burro, tomando seu lado no direito de entrar na Igreja de Santa Bárbara com a cruz e cumprir a promessa feita em troca da salvação do amigo Nicolau.

Para o segundo grupo, é indiferente se Nicolau é um bicho ou uma pessoa, havia uma doença (causada por um ferimento contraído após um acidente de trabalho), havia o esgotamento das possibilidades de tratamento, havia um homem cheio de sentimentos compassivos e de amorosidade preocupado em salvar o ser doente, havia sua fé, todos os santos, as diversas religiões em volta daquele homem, então parecia fazer sentido que Zé do Burro recorresse a tudo o que pudesse representar alguma ajuda em seu desespero para salvar Nicolau.

A peça de Dias Gomes é de 1960. No filme, brilhante obra de arte do cinema, premiada, que envolve os públicos de todas as épocas, Leonardo Villar (Piracicaba/SP, 25/07/1923 – São Paulo/SP, 03/07/2020) interpreta Zé do Burro, Glória Menezes (Pelotas/RS, 19/10/1934) é Rosa, esposa de Zé, e Dionísio Azevedo (Conceição da Aparecida/MG, 04/04/1922 – São Paulo/SP, 11/12/1994) faz o padre Olavo.

Fato é que os bichos se fazem presentes tanto em símbolos (o peixe, a pomba, o cordeiro) quanto na organização da história cristã, um exemplo, não é insignificante o lugar escolhido para o nascimento de Jesus, entre os animais, como também não se pode ignorar o valor da representação do presépio com burros, vacas, bois, galinhas, galos e ovelhas, tradição desde o século XIII.

Em vida, Hanny acompanhava Dulce à Igreja, a humana de Hanny não perdia as missas da matriz de São José. Os outros fiéis e os sacerdotes observavam o silêncio mantido por aquele pequeno ser de comportamento exemplar. Portanto, quando Dulce fez o pedido para que se rezasse uma missa em memória de sua amiga, o sacerdote aceitou-o.

Dulce costuma lembrar a todos que Hanny era um ser de muita luz e representou alegrias em momentos difíceis na família Oliveira Martins. Quem mais desejava ter um cachorrinho em casa era a mãe de Dulce, falecida dois anos e oito meses depois da chegada de Hanny. Além da mãe, o irmão de Dulce partiu quando a poodle tinha um ano.

Hanny representou um estímulo para Dulce, uma ligação com a vida por meio do amor: após a perda do filho, a presença de Hanny preencheu o coração da mãe de Dulce; após a morte de sua mãe, Hanny fez companhia a seu pai; quando chegou a vez do pai de Dulce partir, foi a ela que Hanny levou carinho, Dulce soube que eu precisaria muito de seu bichinho de estimação e a convivência demonstrou-se uma renovação dos laços afetivos que haviam sofrido três perdas de dores incalculáveis e difíceis de serem cicatrizadas.

Conviver com Hanny teve, para Dulce, o efeito de um tratamento que a livrou das dores desamparadas e da profundidade da ausência. Dividir a casa, os dias, os acontecimentos com Hanny, do mesmo jeito como atender às suas necessidades, dar atenção aos seus comportamentos, pensar em Hanny no planejamento da rotina, tudo isto desempenhou a função de um ritual que organizou os dias em procedimentos executados com a solenidade que têm o cuidado, a amizade, a partilha e o amor.

*Marília Adrien de Castro, Dulce Martins e Lúcia Carolina escreveram juntas a obra literária "Hanny, Amor Eterno". São contos de uma cachorrinha que vive entre humanos e sonha com os humanos. A proposta, segundo elas, é que os homens se conscientizem mais sobre as questões animais e principalmente como os cães ocupam um espaço muito especial de amor e muitas vezes como um membro da família. As histórias de Hanny são embasadas na vida real ela existiu e até hoje vive no coração da Dulce e dos amigos.

Curta o Lado B no Facebook e no Instagram. Tem uma pauta bacana para sugerir? Mande pelas redes sociais, e-mail: ladob@news.com.br ou no Direto das Ruas através do WhatsApp do Campo Grande News (67) 99669-9563.

Nos siga no Google Notícias
Regras de comentário