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Artes

Como a presença de Hanny virou uma amizade digna de um livro

"Só quem tem um cachorro sabe avaliar a alegria do momento de chegar em casa e ser recebido por ele..."

Por Raquel Naveira* | 21/03/2021 07:13
Cadelinha Hanny virou protagonista de obra que mostra de forma sensível a relação dos cães com o mundo (Foto: Arquivo Pessoal)
Cadelinha Hanny virou protagonista de obra que mostra de forma sensível a relação dos cães com o mundo (Foto: Arquivo Pessoal)

Só quem tem um cachorro sabe avaliar a alegria do momento de chegar em casa e ser recebido por ele. Quantas são as qualidades caninas: inteligência, dedicação ao dono, lealdade. As relações entre cães e seres humanos ultrapassam milhares de anos e chegaram até nossos dias.

Hanny, Amor Eterno é a história de uma linda amizade que se carrega no peito e nas lembranças: Dulce, uma professora querida, culta, é apaixonada pela natureza e por estudos de comportamento de pessoas e animais. Encontra em Hanny, cachorra da raça poodle, de pelos brancos e olhos vivazes, uma afeição capaz de preencher um vazio que ela nem sequer sabia que existia. Os pais de Dulce, Ruth e Filemon, as amigas jornalistas, Lúcia Carolina e Marília Adrien, pessoas que amam Dulce, passam também a amar a cachorrinha Hanny. Rodeada de tanta atenção e carinho, Hanny transmite a todos um amor puro, sem nenhuma mistura de ódio ou inveja, como somente os cães nos fazem acreditar ser possível de ter. Um amor sem perguntas ou críticas, pontuado por silêncios e diálogos mentais cultivados com gestos, afagos, latidos e sinais de profunda conexão. Hanny tem personalidade própria, mas, ao mesmo tempo, espelha características de sua dona como bondade, cuidados e delicadeza. Hanny é um alter-ego de Dulce e uma criatura única, autônoma, que cumpre sua missão de servir e enternecer a casa e o cotidiano de seus habitantes. Hanny pensa, sonha, humaniza-se.

Há momentos no livro em que Dulce assume ares de cientista. É assim que explana sobre o fascinante tema dos amimais na literatura: as fábulas de Esopo e La Fontaine, cheias de lebres, raposas, tartarugas e leões, em que há sempre um aprendizado moral, um “vestir a carapuça”, pois entendemos que os bichos nos representam com suas virtudes e falhas, mergulhados na lei da selva, onde o que vale é a esperteza; a personagem Gregor Samsa, em Metamorfose, de Kafka, transformado numa barata; A Revolução dos Bichos, de George Orwell, onde galinhas, pombas, porcos, cavalos e cachorros executam seus papéis na Granja Solar, propriedade do Senhor Jones, símbolo dos regimes totalitários; a cachorra Baleia, de Vidas Secas, que pertencia a um grupo de famintos retirantes nordestinos e cuja morte é o auge lírico do romance de Graciliano Ramos; o incrível conhecimento de João Guimarães Rosa sobre a natureza, descrevendo tipos de gado, onças e pássaros pelas veredas dos sertões. E não foi à toa que aos pés da estátua de Clarice Lispector, na praia do Leme, encontra-se o seu fiel cão, o Ulisses.

Com direito a bolinho, cachorrinho Hanny em seu aniversário de 13 anos (Foto: Arquivo Pessoal)
Com direito a bolinho, cachorrinho Hanny em seu aniversário de 13 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Lembramos imediatamente também do livro Marley e Eu, romance autobiográfico escrito pelo jornalista norte-americano John Grogan, encantadora homenagem a Marley, cão da raça labrador, adotado por ele e sua esposa Jenny, então recém-casados. Marley era travesso, hiperativo, encrenqueiro, destruidor de mobílias, mas extremamente amoroso   e dedicado à família que vai se formando. O livro transformou-se num sucesso de vendas e em   filme.

Toda a pesquisa da Professora Dulce justifica a especial chegada de Hanny à sua casa. Hanny que assiste à TV no sofá da sala, que usa roupas charmosas, colares de pérolas e sai a passeio pelo mundo com sua dona viajante, farejando nas malas o destino das aventuras.

Bonito, a cidade do sul de Mato Grosso, com suas grutas azuis, cachoeiras como véus de noiva, rios e trilhas, costumava ser um desses destinos. Nesse cenário paradisíaco, Hanny vê uma borboleta amarela. Com seu instinto caçador aprisiona a borboleta sob uma das suas patas e filosofa: de onde vêm as borboletas? Onde moram? Como será o rosto de uma borboleta? Qual o valor de sua liberdade? Hanny é uma borboleta sonhando ser um cão ou um cão desejando o voo de uma borboleta?

Hanny tem seus brinquedos favoritos adquiridos por Dulce: a Joaninha e a Fuinha, um rinoceronte de borracha. Esses brinquedos tiram o estresse dos animais e das crianças. O lúdico, o jogo, a distração. Ver Hanny brincando aquece o coração de Dulce.

Em “Amável”, Dulce prepara doces para uma festa e Hanny descobre que a palavra “Dulce” significa “doce”. A essência de Dulce é mesmo como mel para sua família, amigos, alunos e para sua fiel cachorrinha. Mel que atrai abelhas para as corolas das flores.

Há um capítulo em que Dulce e Hanny encontram um par masculino: João e seu cachorrinho Totó. Dulce e Hanny conversam com eles, quando um cão agressivo ataca Totó e ameaça Dulce. Cães mordem seus inimigos. Hanny prova sua bravura e coragem defendendo os dois e afastando o cão raivoso.

Na passagem do Ano Novo, as explosões dos fogos de artifício enlouquecem Hanny, que começa a ganir. É consolada por Dulce e amigas, mas seu sofrimento é grande. Hanny tratada com tanto zelo nos faz lembrar de quantos cães, ao contrário, sofrem maus tratos, abandono, levam vida miserável nas ruas. Lembramos também que há crianças vagando pelas ruas, desamparadas, sujas, espoliadas. Quanto contraste neste mundo!

Dulce é generosa, faz trabalhos assistenciais para minorar a dor do próximo, mas as injustiças e desigualdades são enormes, são chagas de uma sociedade cega e egoísta, que não percebe que todos os seres viventes são interligados.

Passadas quase duas décadas, dezenove anos de companheirismo e cumplicidade, Hanny parte para outras galáxias. Uma mão luminosa e santa a recolhe para o céu dos animais, onde moram aqueles que ajudaram os homens a mitigarem suas dores, fomes e penas. Onde se reúnem os que contemplaram a face do Deus-Menino nas palhas da manjedoura. Onde se livraram de suas existências precárias na Terra.

Dulce e amigas celebram com este livro uma experiência de dileção e estima. Tudo ficou gravado aqui, em letras, em textos, nos desenhos mágicos de Guto Naveira e em fotografias, pois só a arte e suas linguagens eternizam o amor.

*Raquel Naveira é poeta, escritora, crítica de arte, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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