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Campo Grande, Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019

03/11/2019 07:23

Drag queen há 28 anos, Anderson se descobriu na arte e comemora com teatro

Ele preparou a "1ª Mostra de Teatro Anderson Bosh" com peças teatrais que contam com sua direção, atuação, figurinista, etc

Alana Portela
Num cubo de ferro, os atores encenam a peça Poesia do Ar Cênico (Foto: Alana Portela)Num cubo de ferro, os atores encenam a peça "Poesia do Ar Cênico" (Foto: Alana Portela)

Há 28 anos, Anderson Bosh deu vida a Salé Copacabana, em Campo Grande. Ora menino, ora menina, ele resolveu celebrar as mais duas décadas de carreira com a “1ª Mostra de Teatro Anderson Bosho”, que começou no dia 1º de novembro e até dezembro, na Capital e em Corumbá. Nas apresentações, o homenageado atua como autor, diretor, ator, maquiador, cenógrafo, figurinista e muito mais.

“Salé me ensinou a olhar e respeitar as mulheres. Me fez ser uma pessoa melhor. Hoje, uso a tecnologia da drag para encenar”, diz ele. O evento começou com a apresentação da peça “Poesias do Ar Cênico” realizada no Circo do Mato.

O espetáculo já rendeu matéria no Lado B, em 2018. O cenário dramático, feito de cordas, um cubo de ferro e bancos de madeira, é ambiente cheio de surpresas. “A peça vem de encontro com sonhos de construir peças contemporâneas usando linguagens que a gente domina, teatro e circo. O tema envolve abuso sexual e a ingenuidade do sertanejo sul-mato-grossense”, explica.

Aos 47 anos, Anderson relata que se descobriu no mundo da arte quando estava na faculdade. “Na época, no teatro, soube do nicho que William Shakespeare fazia com pessoas que não sabiam se eram homens ou mulheres. Achei magnifico desenvolver papéis femininos ao ponto de não saber mais quem era, foi aí que descobri as drag queens”, conta.

Anderson Bosh fala sobre a mostra em comemoração a sua carreira (Foto: Alana Portela)Anderson Bosh fala sobre a mostra em comemoração a sua carreira (Foto: Alana Portela)

O ator afirma que sempre foi diferente e aos 13 anos, se descobriu intersexual. “É quando a gente não prevê mudança no corpo, mas o corpo vai atrás da transformação. Desde pequeno me confundiam com uma menina. Lembro da vez que meu irmão falou, ‘Está de peitinho’ e aquilo me assombrou. Na escola, tinha que esperar a turma voltar do recreio para usar banheiro, pois achavam que eu era menina no banheiro masculino. Meus pais rasparam o meu cabelo, porém até nas lojas de roupas confundiam”.

Com 15 anos, ele começou a realizar tratamentos hormonais, porém o pai não podia saber. “O problema me fez querer saber quem eu era. Descobri que tinha PHF [Pseudo-hemafrodita Fator 14], apesar de ter nascido com a genitália masculina, tinha as duas coisas dentro de mim. Isso começou a me assombrar mais ainda”, lembra.

Anderson foi crescendo e teve dificuldades em se relacionar. “Todos se apaixonando, mas eu não me apaixonava por ninguém. Vivi essa situação e ficava pensando se realmente a pessoa era mulher ou homem”.

Mais tarde, entrou na faculdade e participou do evento “Calourada”. A proposta da festa era fazer os homens se vestirem de mulheres e elas usarem as roupas deles. “Mas, foi uma coisa preconceituosa e eu questionava por conta da minha situação. Falei com um professor sobre coisas de drag e misturei as telas de Humberto Espíndola, poesia e música ao som de Madonna e Ney Matogrosso. Não fui compreendido pelos colegas e me apelidaram de Madonna”.

Ele resolveu seguir em frente e na faculdade participou de uma oficina de escultura. “A primeira imagem que fiz foi de uma pessoa que tinha órgãos dos dois sexos. Fiz outro trabalho que também era uma pesquisa, queria me entender e colocar isso pra fora. Não podia falar com pais, amigos porque isso era um tabu e coloquei na minha arte. A arte drag se tornou pesquisa de como me portar e fazer a arte”.

Os atores se balançaram e atuaram (Foto: Alana Portela)Os atores se balançaram e atuaram (Foto: Alana Portela)

ProgramaçãoNeste domingo tem a última apresentação da peça “Poesias do Ar Cênico”, às 20h, no Circo do Mato localizado na rua Tônico de Carvalho, 263 – Amambai. O valor do ingresso é R$ 40,00.

Do dia 6 a 17 deste mês tem o espetáculo “Do Bem Amado”, com Anderson Bosh na direção, encenação, direção de arte-maquiagem, uma produção com o Grupo Teatral Fulano di Tal. O evento acontece às 20h, no Átrio do Sesc Cultura que fica na Avenida Afonso Pena. A entrada é franca.

De 9 a 10 de novembro também acontece a apresentação da peça “Uma Moça da Cidade”. O evento será realizado no Circo do Mato, às 20h e o valor do ingresso é R$ 40, 00. No dia 16 o mesmo espetáculo ocorrerá às 19h, na Praça dos Ventos em Corumbá. O show é grátis e faz parte do Festival América do Sul.

Já no dia 17 será a vez do espetáculo “Navegantes”, do Grupo Flor do Cerrado. O trabalho também teve o “dedo” de Anderson que assina a direção de arte-figurinos, maquiagem, cenários, objetos. O evento acontece às 17h, no Festival América do Sul e é aberto ao público.

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