Não iremos evoluir enquanto chamarmos mulheres insubmissas de loucas
Existe uma estratégia antiga, repetida geração após geração, que consiste em deslegitimar a voz de uma mulher chamando-a de louca. Não é um grito novo, é um eco — um eco que atravessa séculos, atravessa casas, consultórios, tribunais, mesas de jantar e corredores de trabalho. Sempre que uma mulher decide não caber no molde, surge o rótulo. Louca. Histérica. Difícil. Exagerada. Intensa demais. Muito isso, pouco aquilo.
E assim, lentamente, a sociedade construiu uma narrativa perigosa: a de que a mulher que pensa por si é instável, a mulher que questiona é problemática, e a mulher que diz “não” é descontrolada.
Mas não evoluímos enquanto chamarmos mulheres insubmissas de loucas.
Porque a insubmissão feminina não nasce do caos. Ela nasce da consciência.
Nasce quando uma mulher percebe que foi ensinada a caber em espaços pequenos demais para quem ela é.
Nasce quando ela entende que silêncio não é sinônimo de elegância, e obediência não é sinônimo de caráter.
Nasce quando ela olha para a própria vida e decide que existir não é o mesmo que se anular.
Durante muito tempo, mulheres foram educadas para suportar. Suportar humilhação. Suportar traição. Suportar violência emocional. Suportar sonhos menores. Suportar ser coadjuvante da própria história.
E quando uma mulher para de suportar, o mundo se incomoda. Porque a mulher que aceita tudo mantém estruturas intactas. Já a mulher que questiona movimenta placas tectônicas invisíveis.
Chamar mulheres insubmissas de loucas sempre foi uma forma confortável de evitar o verdadeiro debate. É mais fácil patologizar do que ouvir. É mais simples desacreditar do que refletir. É menos trabalhoso dizer “ela exagera” do que admitir “talvez o sistema esteja errado”.
Historicamente, mulheres foram internadas, medicadas, silenciadas e ridicularizadas simplesmente por desejarem autonomia. O que hoje chamamos de coragem, ontem era diagnosticado como distúrbio. O que hoje celebramos como independência, ontem era tratado como ameaça.
Mas a história tem uma ironia bonita: muitas das “loucas” de ontem abriram caminhos que hoje parecem óbvios.
Foram chamadas de loucas as mulheres que quiseram estudar. As que quiseram votar. As que quiseram trabalhar. As que quiseram escolher se casar — ou não. As que quiseram decidir sobre seus próprios corpos. As que quiseram existir sem pedir desculpas por isso.
Talvez exista algo profundamente revelador nisso: Talvez “loucura”, nesse contexto, sempre tenha sido apenas outro nome para liberdade.
Porque a verdade é que mulheres insubmissas não são caóticas. Elas são lúcidas demais para aceitar o que sempre foi imposto sem questionamento. Elas enxergam as engrenagens invisíveis. Elas percebem os jogos silenciosos. Elas sentem quando o amor vira controle, quando o cuidado vira posse, quando a tradição vira prisão.
E isso assusta. Assusta porque autonomia não pede permissão. Assusta porque mulheres conscientes criam outras mulheres conscientes. Assusta porque uma mulher que aprende a se escutar nunca mais aceita viver no volume mínimo.
Evoluir, como sociedade, exige que a gente abandone o conforto dos rótulos fáceis. Exige que a gente troque o “ela é louca” por “por que isso me incomoda?”. Exige que a gente entenda que questionar não é destruir — é aprimorar.
Que dizer não não é agressividade — é limite. Que discordar não é descontrole — é pensamento.
Elas querem existir com dignidade. Querem amar sem desaparecer
Querem construir sem precisar se diminuir. Querem ser complexas sem serem punidas por isso.
E talvez o maior sinal de evolução coletiva seja o dia em que uma mulher firme, decidida e consciente não seja vista como ameaça — mas como o que ela sempre foi: humana, inteira, pensante, viva.
Até lá, muitas ainda serão chamadas de loucas. Mas existe uma força silenciosa nisso. Porque, historicamente, cada vez que chamaram uma mulher de louca por não se curvar, o tempo acabou provando que ela só estava à frente.
E talvez seja essa a verdade mais incômoda e mais bonita de todas: o mundo só anda para frente porque algumas mulheres se recusaram a andar para trás.
(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia.
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