MS resgata 95 anos de memória audiovisual em nova exposição
Acervo percorre trajetória iniciada em 1931 e destaca talentos, paisagens e histórias do Estado
Mato Grosso do Sul foi oficialmente criado no fim da década de 1970, mas, por aqui, a produção audiovisual começou pelo menos quatro décadas antes, com primeiro registro nas filmagens de “Alma do Brasil”. Parte dessa memória, que não pode e não deve ser esquecida, ganhou destaque na noite desta segunda-feira (18), no lançamento da exposição “MS Memórias Audiovisuais”, no MIS (Museu da Imagem e do Som), em Campo Grande.
A mostra percorre 95 anos da produção audiovisual sul-mato-grossense, reunindo cartazes, fotografias, equipamentos históricos, exibições de filmes e debates com diretores, atores e profissionais que ajudaram a construir a história do cinema e da televisão no Estado.
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O curador da exposição, Ricardo Câmara, destacou que a ideia nasceu justamente da necessidade de preservar e compartilhar uma memória muitas vezes desconhecida até pelos próprios moradores.
“Mato Grosso do Sul vai fazer 50 anos, mas a produção audiovisual do Estado é muito anterior, desde 1931, com o filme ‘Alma do Brasil’. É Memória não pode ficar guardada num baú. Até porque, um povo que não conhece suas histórias não sabe o povo que é”, afirmou durante a cerimônia de abertura.
A exposição começou justamente com “Alma do Brasil”, obra dirigida por Líbero Luxardo e gravada no território onde hoje fica o município de Guia Lopes da Laguna. O filme retrata episódios ligados à Guerra da Tríplice Aliança e é considerado um dos primeiros registros audiovisuais da região que mais tarde formaria Mato Grosso do Sul.
Coordenador-geral do projeto, Belchior Cabral, do Instituto Cururins, explica que a proposta surgiu da vontade de criar uma “régua histórica” sobre a trajetória do audiovisual sul-mato-grossense.
“A gente veio campeando ao longo da história os eventos, as produções, os filmes produzidos em Mato Grosso do Sul ou por profissionais sul-mato-grossenses”, comentou.
Segundo ele, o trabalho de curadoria reuniu quase 30 filmes, indo de clássicos históricos até produções contemporâneas que hoje circulam em festivais nacionais e internacionais.
Entre as obras lembradas estão “Os Matadores”, de Beto Brant, “Caramujo-Flor”, de Joel Pizzini, “Selva Trágica”, filmado em Ponta Porã nos anos 1960, além de produções indígenas realizadas por jovens guaranis em aldeias do Estado.
Além de exposição estática, o projeto também vai exibir filmes ao longo de quase três meses e conversas com profissionais da área. Para Belchior, era impossível falar de audiovisual sem exibir os filmes.
“Na exposição fotográfica, de cartazes e equipamentos a gente traz essa história, mas entendemos que precisávamos exibir os filmes também”, explicou.
A exposição também revisita momentos marcantes da cultura audiovisual sul-mato-grossense, como a cena cineclubista dos anos 1970, o impacto nacional da novela “Pantanal”, nos anos 1990, e o fortalecimento recente do cinema indígena.
Para os organizadores, a mostra funciona como um convite para que a população reconheça o valor das próprias histórias e passe a enxergar o Estado também como território de criação artística.
“O sentimento de pertencimento é importante. Quando as pessoas se veem na tela, quando reconhecem sua rua, sua cidade, elas gostam. O cinema aproxima as pessoas e mostra que temos muitas histórias para contar”, pontuou Belchior.
Além de valorizar a produção local, a exposição reforça a importância de democratizar o acesso ao audiovisual. Belchior lembrou que muitas cidades ainda não possuem salas de cinema e defendeu a criação de redes comunitárias de exibição em escolas, universidades e espaços públicos.
“Nós temos muito talento e uma riqueza vasta. Mas é preciso criar condições para que as pessoas assistam aos filmes produzidos aqui”, concluiu.
O diretor-presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, Eduardo Mendes, ressaltou que o audiovisual sul-mato-grossense vive hoje um momento de transformação, impulsionado principalmente pelos editais da Lei Paulo Gustavo.
“Eu acredito que os editais da Lei Paulo Gustavo foram o grande motor para a transformação do audiovisual do Brasil profundo, de estados como Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre, que antes apareciam pouco na cena nacional”, disse.
Ele também destacou que o crescimento da produção audiovisual vai além da cultura e movimenta economia, turismo e geração de renda. “O audiovisual é um grande alavancador do turismo. Mato Grosso do Sul tem áreas belíssimas para filmagem e muito potencial para atrair produções”, finalizou.
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