O efeito silencioso dos medicamentos e o conforto oral
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A dona Isaura, 79 anos, chegou ao consultório com uma queixa que eu ouço quase todos os dias: "Doutor, minha boca vive seca. Acordo várias vezes à noite para beber água. A comida não desce direito e sinto um gosto estranho o tempo todo." Ela toma remédios para pressão, para o coração e para ansiedade — uma combinação comum entre os idosos. O que dona Isaura não sabia é que a sensação de boca seca que a atormenta tem nome e tratamento.
A xerostomia — sensação subjetiva de boca seca — é um dos problemas de saúde bucal mais negligenciados na terceira idade. Estima-se que afete cerca de 30% dos idosos acima de 65 anos e até 50% daqueles que vivem em instituições de longa permanência. Mas o mais preocupante é que muitos aceitam esse desconforto como algo "normal da idade", quando na verdade ele tem causas identificáveis e soluções práticas.
Por que a boca fica seca no idoso?
A saliva é um dos fluidos mais importantes do corpo humano. Ela lubrifica os tecidos, protege contra cáries e infecções, neutraliza ácidos, auxilia na digestão e até ajuda a manter o pH da boca equilibrado. Com o envelhecimento, as glândulas salivares podem sofrer alterações naturais, mas o grande vilão da xerostomia não é a idade em si — são os medicamentos.
Mais de 400 medicamentos de uso comum têm a boca seca como efeito colateral. Entre os principais estão:
Anti-hipertensivos (para pressão alta)
Antidepressivos e ansiolíticos
Diuréticos
Anti-histamínicos (para alergias)
Medicamentos para Parkinson e Alzheimer
Quimioterápicos e radioterapia na região de cabeça e pescoço
O idoso típico toma de 4 a 6 medicamentos por dia. Cada um deles pode contribuir para reduzir o fluxo salivar, criando um efeito cumulativo que transforma a boca em um ambiente seco, vulnerável e dolorido.
As consequências da boca seca
A xerostomia não é apenas um desconforto. Ela tem consequências graves para a saúde:
Aumento do risco de cáries: Sem saliva para neutralizar os ácidos, os dentes se tornam muito mais vulneráveis.
Infecções fúngicas: A candidíase oral (sapinho) é frequente em idosos com boca seca.
Dificuldade para mastigar e engolir: A falta de lubrificação torna a alimentação um desafio, contribuindo para a desnutrição.
Mau hálito persistente: A redução da saliva permite a proliferação de bactérias que produzem compostos sulfurados.
Lesões na mucosa: Tecidos ressecados racham e sangram com mais facilidade.
Próteses mal adaptadas: A falta de saliva reduz a retenção das próteses, causando desconforto e feridas.
3 Orientações Práticas
Hidratação Estratégica: Beba água em pequenos goles ao longo do dia, não apenas quando sentir sede. Tenha um copo d'água ao lado da cama — a boca seca piora durante o sono. Evite bebidas alcoólicas e cafeína, que desidratam ainda mais.
Estimulantes Salivares Naturais: Chupar gelo, mastigar chicletes sem açúcar (com xilitol) ou balas ácidas estimula a produção de saliva. Frutas cítricas como limão e laranja também ajudam, mas com moderação em quem tem sensibilidade.
Produtos Específicos para Boca Seca: Existem géis hidratantes orais, enxaguantes sem álcool e cremes dentais específicos para xerostomia — todos disponíveis em farmácias. Eles não curam a causa, mas aliviam significativamente o desconforto. Consulte seu dentista para saber qual o mais indicado para o seu caso.
A boca seca não é um destino inevitável do envelhecimento. É um sintoma que pode e deve ser tratado. Ninguém precisa aceitar o desconforto em silêncio.
(*) Dr. Marco Polo Siebra Odontólogo (CRO/MS 2172), Especialista em Prótese Dentária, Odontogeriatria, Implantodontia e Neurociência.
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