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Artes

Violência fez João virar “cinzeiro” e transformar dor em música

Aos 24 anos, ele resolveu libertar o sofrimento de infância através de canções e lançou “Cinco Cânticos na Língua do Desamparo”

Por Alana Portela | 20/05/2020 06:17
João Gabriel de Assis Benitez compondo as letras das canções. (Foto: Arquivo pessoal)
João Gabriel de Assis Benitez compondo as letras das canções. (Foto: Arquivo pessoal)

Maus-tratos sofridos na infância já fizeram João Gabriel de Assis Benitez servir de “cinzeiro”, passar por violências psicológicas e ainda sentir na pele a dor do machismo. Hoje, aos 24 anos, ele resolveu libertar o sentimento através da música, com o álbum “Cinco Cânticos na Língua do Desamparo”.

“Todas as histórias contadas são vivências minhas. Convivi na minha infância com algumas figuras abusivas”, conta. O projeto é fruto de um momento de introspecção e revisita às memórias de uma época dolorosa. As cinco músicas do disco exploram a temática da angústia, tédio e da ingenuidade infantil frente a abusos físicos e psicológicos.

Ele é mais conhecido por João Benitez, é estudante de Psicologia e músico, integrante da banda “Naufrágil”, na Capital. Durante um bate-papo com o Lado B, o artista relata que a proposta do álbum é encarar os fantasmas do passado.

João à esquerda vestido de palhaço para uma apresentação da escola. (Foto: Arquivo pessoal)
João à esquerda vestido de palhaço para uma apresentação da escola. (Foto: Arquivo pessoal)

João é um rapaz simpático que por livre vontade resolveu abrir o jogo sobre tudo que passou. É natural de Campo Grande, mas quando criança morava em Iguatemi, onde os fatos começaram a acontecer através de pessoas próximas.

“A canção ‘Cinzeiro’ trata de uma violência na qual ela batia as cinzas do cigarro nas minhas mãos, literalmente me fazia de cinzeiro”, conta. Os relatos também são através de versos, com uma melodia entristecida e voz desanimada, que transmitem a angústia de uma criança sofrendo sem entender direito o que se passava.

“Mãe, você não vê que estou queimando? Hoje não quero ser cinzeiro. Mãe sei que não devo estar chorando, prometo não ser mais arteiro... Pai, tem sido duro este ano. Ela raspou o meu cabelo, mas se eu for bonzinho, combinamos. Vou ganhar a revista Recreio”, canta.

Na canção, João ainda fala sobre preconceito. “Trata um pouco de machismo porque muitas dessas violências eram justificadas como se fossem para evitar que me tornasse afeminado, homossexual”.

A “Lembrança de Uma Viagem” também é outra música marcante, que fala da separação dos pais de João. Quando o pai resolveu vir para a Capital e a mãe levou os filhos para pegar o primeiro ônibus e ir atrás do marido.  A letra faz querer abraçar aquelas crianças na estrada.

“Não sei se você lembra

Quando o pai saiu de casa e a mãe não aceitou

Ela pegou nós dois e jogou nosso olhinho na estrada

Chorando e ligando toda hora pra rodoviária 

Pedindo pra parar qualquer ônibus que saísse dali

Com rumo para a Capital...

...Senhora nós sentimos muito 

O último expresso saiu mais de uma hora atrás

Não quero saber

Estou com os meninos aqui 

Eles vão morrer nessa estrada hoje...”

Ainda na mesma música, o cantor narra que mais ou menos 100 quilômetros depois, o motorista recebeu um chamado da atendente da empresa de ônibus e encostou naquela estrada para levar a mulher e as crianças. As estrofes ficam mais angustiantes.

“Já que ela conseguiu 

Nós nunca pudemos saber 

Se ela blefou ou não

Sobre matar nós dois...

...E se devemos a nossa vida 

A uma atendente da empresa de ônibus

Que não quis pagar pra ver...”.

“É uma história real em cada detalhe narrado”, destaca João. Além dessa ele também compôs a música “Leucemia”. “Trata de um sentimento conflituoso de raiva e alívio ao descobrir, já na vida adulta, que uma dessas figuras abusivas havia morrido por uma enfermidade. É um caso à parte. A pessoa a quem me refiro é um abusador sexual que prefiro não nomear, pois já morreu”.

João por volta dos 4 anos de idade, vestido com roupa de quadrilha. (Foto: Arquivo pessoal)
João por volta dos 4 anos de idade, vestido com roupa de quadrilha. (Foto: Arquivo pessoal)

Já as canções "A Angústia é uma aranha" e "Entre Uma e Outra Catástrofe" são mais para dar significado essas experiências. “A primeira fala do tédio e da angústia de uma infância em uma cidade de interior cheia de personagens cínicos e inacreditáveis. A segunda trata da ideia de que já nascemos para falhar e que nosso escape é encontrar significado em nossas tragédias”, explica.

O EP foi preparado em um mês, após a universidade dar uma pausa nas aulas para evitar a propagação do coronavírus. “Como fui dispensado das aulas e outros compromissos por conta da quarentena, resolvi me dedicar inteiramente a ele. A ideia me surgiu em abril e percebi que poderia fazer a tempo de lançar no Dia das Mães, simbolicamente”.

Fechado em seu quarto, aos poucos, passou as experiências para o papel. “O processo de escrever as músicas foi surreal, doloroso. Chafurdar em todas essas lembranças não é fácil. Perdi muitas noites acordado, tive pesadelos e um dia meu pai veio me acudir porque acordei gritando. Mas, ao mesmo tempo, sentia ressignificando muitas dessas coisas”.

Ele conta que os dez primeiros anos de vida morava com os pais e o irmão, mas depois ficou apenas com o pai e o irmão. “Quando tinha uns 10 anos, minha mãe decidiu ir embora do país. Em Portugal, ela casou de novo e teve outro filho”.

Desde então, os laços entre mãe e filho foram cortados. “Não nos falamos mais. Hoje não tem mais relação até porque eu não busco. Ela levou a vida dela pra esse outro lugar e acho que isso foi uma chance pra nós dois de encerrarmos esse capítulo sombrio e começar algo novo. Não guardo mágoa, mas também não creio que faça bem pra nenhum de nós dois estar presentes na vida do outro. Pelo menos é assim que penso atualmente”, afirma.

O balão virou o "rosto" de João durante a gravação do projeto. (Foto: Eliane Fraulob)
O balão virou o "rosto" de João durante a gravação do projeto. (Foto: Eliane Fraulob)

A relação com o pai já é diferente. “É um grande homem que me ajudou e continua me ajudando a lidar com esses traumas”. A produção do EP contou com o apoio da namorada e amigos de João, que não o deixaram perder a motivação.

Hoje, mais de dez anos após tudo virar passado, ele lida com a situação de forma diferente e, essas vivências podem ter influenciado João na escolha da graduação. “Talvez inconscientemente tenha sido. O curso, principalmente a abordagem psicanalítica, me fez enxergar a relevância disso tudo na minha formação como sujeito e o quanto poderia ser valioso lidar com essas experiências”.

O EP “Cinco Cânticos Na Língua Do Desamparo” é o primeiro de uma trilogia em andamento, que assim que estiver concluída se chamará “A Triologia dos Cânticos”. O álbum está disponível nas plataformas digitais e quem quiser apoiar o artista, pode adquirir o trabalhado fazendo download por clicando neste link.

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