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Artes

Testemunha do nascimento de MS, Higa quer reunir fotos em livro, mas falta apoio

Por Marta Ferreira | 11/10/2011 08:00

Fotográfo de 60 anos trabalha há mais de 40 registrando a história e os personagens dela em Mato Grosso do Sul

Harry Amorim, o primeiro governador de MS. (Fotos: Roberto Higa)
Harry Amorim, o primeiro governador de MS. (Fotos: Roberto Higa)

Se no Brasil a expressão “povo sem memória” é frequentemente dita, em Mato Grosso do Sul, com seus 34 anos, essa máxima parece ser ainda mais verdadeira.

Para um estado jovem, seria fácil preservar a história, os registros, mas, na prática, quando se vai puxar a memória, os personagens para contá-la se repetem, quase como unanimidade. Entre eles, um nome obrigatório é o do fotografo Roberto Higa, que carrega em seu arquivo pessoal um baú de recordações de pessoas, lugares e paisagens desse estado, antes mesmo de ter sido criado.

Não há um aniversário de Mato Grosso do Sul ou, em outro extremo, um episódio de morte de personalidade, em que Higa não é procurado para fornecer seu testemunho fotográfico. Apesar disso, ele nunca conseguiu reunir os arquivos em uma publicação, desejo revelado ao Lado B. “Há 13 anos que estou tentando um patrocinador”, conta.

Higa tem foto de tudo, do surgimento de instituições importantes, como a Universidade Federal; de tragédias naturais, como a enchente que transformou Porto Murtinho em cidade de lona; do tempo de estádios cheios no futebol e rivalidade entre Comercial e Operário; da cerimônia de criação do Estado; da primeira assembleia constituinte. Fez também, os primeiros registros da atuação do movimento sem-terra no Estado, no que viria a se transformar no município de Itaquiraí. Registrou, ainda, muitas festas da “sociedade campo-grandense”.

“Em 1977 fotografei a festa feita pelos campo-grandesses pelas ruas das cidades com passeatas, carreatas e em 1979 fotografei a implantação do estado de Mato Grosso do Sul que teve como primeiro governador o gaúcho Harry Amorim Costa, diretor do DNOS (Departamento Nacional de Obras e Saneamento), em função de brigas dos “caciques políticos” locais”, relembra.

Cemitério em grande enchente de 1979 em Porto Murtinho.
Cemitério em grande enchente de 1979 em Porto Murtinho.

Alernativa virtual- Em 2010, o fotógrafo aderiu às mídias sociais e criou uma espécie de museu virtual no Facebook, bastante visitado e comentado. Nostalgia é o sentimento que parece pular das fotos, ao resgatar um tempo de Mato Grosso do Sul de crescimento vertiginoso, de uma Campo Grande ainda prosaica, bem diferente da cidade que, cada vez mais, perde o ar de inocência de antigamente.

A disponibilização das fotos na internet, revela Higa, é para preservar a memória, mas é também alternativa ao projeto da publicação ainda sem dinheiro.

“É um maneira de fazer com que a sociedade sul-mato- grossense não se esqueça de pessoas e de fatos que muito marcaram o início deste nosso estado tanto na política como no esporte e sociedade”, define.

De oficce boy à testemunha da história- Higa está prestes a completar 61 anos de idade, 43 anos deles dedicados à fotografia. Nascido em Campo Grande, “no Mato Grosso”, começou a trabalhar no Diário da Serra, jornal extinto na década de 1990, que chegou a integrar o grupo nacional Diários Associados.

Como muitos profissionais da imagem, não foi sua primeira ocupação. Era office boy do jornal. “Me foi dada a oportunidade de tornar fotógrafo em Campo Grande, desde que eu tomasse conta dos filhos do fotógrafo titular do jornal”. O profissional citado é Danton Garro que, já tendo trabalhado em diversos órgãos de imprensa do Brasil, inclusive cobrindo 4 Copas do Mundo, veio para tratamento de saúde em Campo Grande.

Movimento de trabalhadores em projeto Apaporé, em Itaquiraí.
Movimento de trabalhadores em projeto Apaporé, em Itaquiraí.
Higa em casa,mostra uma das fotos mais conhecidas da carreira, do líder indígena Marçal de Souza.
Higa em casa,mostra uma das fotos mais conhecidas da carreira, do líder indígena Marçal de Souza.

Antes das ruas, a experiência do quartinho escuro onde as fotos em papel eram reveladas. “Fui laboratorista durante alguns anos, pois o fotógrafo Danton Garro dizia que o bom profissional de imagens tem como obrigação aprender primeiramente a conhecer química”.

Depois que a fotografia virou profissão, Higa nunca mais parou e não conheceu outro trabalho. Por isso mesmo, fala dele com paixão, percebida mesmo em causos policiais caídos no esquecimento.

“Presenciei vários fatos, do nascimento do meu filho ao assassinato bárbaro do Demetrio Amin, que foi torturado e assassinado por bandidos vindo de São Paulo só com essa finalidade. Comentava-se na época que seu Demetrio guardava muito dinheiro e ouro, escondidos em sua casa em uma vila residencial na rua Dom Aquino, entre a 14 de julho e a Calógeras. Esse senhor foi barbaramente torturado, tendo os seus dedos amassados por martelos, os dentes arrancados por alicates e as palmas das mãos perfuradas com pregos. Foi morto com um produndo corte em sua jugular feito com uma faca de cozinha. Apesar de ser torturado dessa forma não revelou onde escondia sua fortuna. A polícia, durante a investigação encontrou todo o seu “dinheiro” em latas de bolachas, gordura e também dentro do colchão”, rememora.

Dos milhares de momentos que fotografou, não consegue definir a foto “preferida”. “Orgulho-me de todas as fotografias que marcaram a transformação que o Estado sofreu nestes últimos 43 anos, como por exemplo, a inauguração da primeira escada rolante na casas Pernambucanas (1974) em Campo Grande, a inauguração do primeiro lava-jato na esquina da 13 de maio com a Afonso Pena (1973) e também a inauguração do complexo da cidade Universitária (1971). Todos são fatos que marcaram muito a minha vida profissional”.

Falar em milhares não é exagero, conta o próprio Higa. “São mais ou menos 200 mil fotogramas”, informa, sobre o arquivo organizado “no modelo antigo”, com negativos em envelopes com fatos e datas.

Seca no Pantanal.
Seca no Pantanal.

Meio ambiente- Há um projeto particular acentuado por Higa na entrevista, as fotos da natureza pantaneira e o acompanhamento, através da ida a campo, do resultado da intervenção humana na região e da ocupação pela pecuária de corte.

“Desde o inicio dos anos 70 fotografo o Pantanal. A transformação que esta localidade sofreu nesses últimos anos muito me entristece e me preocupa", pontua. "Nas cheias do Pantanal no final dos anos 70 e inícios dos anos 80 na estrada entre Miranda e Corumbá, possuo imagens de barcaças transportando gado para parte mais alta da região. Hoje em dia nestas mesmas localidades não existe mais nada a não ser pasto. Até os corixos que possuíam milhares de jacarés nativos desapareceram do cenário. No ano de 2003, passeando por esta mesma estrada, entre Miranda e Corumbá fotografei um ninho de graveteiro com vários sacos plásticos jogados pelos turistas”, lamenta.

“Até 1980/1990, o Pantanal possuía seu ciclo das cheias (onde os moradores da região transportavam seu gado para parte mais alta). Hoje me dia estes mesmos moradores são “surpreendidos pelas águas”, não existem mais o chamado ciclo das cheias. Isso me preocupa muito”, completa.

Hoje, Higa é funcionário da Assembleia Legislativa e fixou seu trabalho em Campo Grande, onde mantém um escritório voltado à iniciativa privada. Também virou professor informal de quem quer saber mais sobre fotografia e o procura. "Recebo frequentemente universitários no meu escritório e também dou palestras em instituições".

Indagado sobre a invasão dos celulares que fazem fotos e das câmeras digitais, que transformam qualquer um em fotografo, ele usa o bom humor, ao descrever uma entrega de diploma a profissionais liberais. “A concorrência” com os “fotógrafos” era tanta que você disputava o mesmo espaço com pessoas de 80 anos, que estavam fotografando os netos e bisnetos e com crianças de 8 anos, fotografando os pais, irmãos etc”.

Do alto de quem sabe que o olhar do talento muda tudo, ele define. "Sempre vai haver o afunilamento e vão sobrar os diferenciados".