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Comportamento

“Acusado” de ser comunista, padre Agenor tem vida dedicada aos mais pobres

Trabalho de sete anos na região do Lageado rendeu muitos frutos, mas muitas dores de cabeça também

Por Lucas Mamédio | 28/02/2020 06:23
Padre Agenor no altar da capela construída no instituto (Foto: Marcos Maluf)
Padre Agenor no altar da capela construída no instituto (Foto: Marcos Maluf)

“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”, é com a célebre frase de Dom Hélder Câmara, bispo católico, ferrenho defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar e que pregava uma igreja voltada para os mais pobres, que padre Agenor Martins da Silva tenta sintetizar a atuação dele do bairro Parque do Lageado, em Campo Grande.

Padre Agenor tem um trabalho consolidado na região, com o Instituto Misericordes Sicut Pater, coordenado por ele e reconhecido em vários estados do país. O Instituto foi criado em 2016 após a doação pela prefeitura do terreno onde estão instalados. Ali, padre Agenor e mais três funcionárias recebem 65 crianças carentes no contraturno escolar, oferecendo comida, lazer, entre outras atividades.

“Nosso reforço escolar tem um sistema didático-pedagógico próprio e não segue à risca o sistema da escola, permeado sempre pelos ensinamentos religiosos”, começa explicando o coordenador.

Oriundo do Paraná, o padre de 58 anos, sendo 28 dedicados às atividades eclesiásticas, está em sua segunda passagem por Mato Grosso do Sul. De família grande, com 13 irmãos, mãe negra e o “pai neto do patrão”, o pároco vive agora permanentemente no instituto.

Padre Agenor é natural do Paraná e vem de uma família pobre de 14 filhos (Foto: Marcos Maluf)
Padre Agenor é natural do Paraná e vem de uma família pobre de 14 filhos (Foto: Marcos Maluf)
Padre mostra a biblioteca do Instituto, que vive de doações (Foto: Marcos Maluf)
Padre mostra a biblioteca do Instituto, que vive de doações (Foto: Marcos Maluf)

Chegamos bem na hora do almoço. Perguntei se estávamos atrapalhando e percebendo que sim, logo me desculpei. “Olha, eu ia fazer uma boquinha sim, mas não tem nada não, chega pra cá”, convida o padre.

Sem muita cerimônia, padre Agenor admite que suas convicções ideológicas dão margem para que as pessoas o chamem de “comunista”, “socialista”, “esquerdista”, entre várias outras expressões completamente estigmatizadas por um contexto de acirramento político vivido hoje em nosso país. Porém, padre Agenor não se autodenomina nada disso.

Ele acredita que o modo como toca o instituto nada tem a ver com ideologia e partidos. “Embora eu tenha uma postura político/partidária, digamos assim, nunca fui à reunião de um partido. Nunca sentei com A ou B para traçar estratégias, para pensar em cenários. Meu campo é outro, sou mestre em sagradas escrituras, professor de bíblia”.

Pergunto então, diante de um trabalho tão consolidado, de onde vem a fama de comunista. Com singelo sorriso, ele responde: “basta assistir a uma pregação minha, meu filho. Há pouco tempo, por exemplo, falei da rapidez e eficiência com que a China – país comunista – construiu hospitais para atendimento de pessoas infectadas com o coronavírus”.

Padre Agenor também criticou, em outra oportunidade, a suspensão da entrega de cestas básicas às comunidades indígenas de MS por porte do Governo Federal. Por conta dessas posturas, é interpelado frequentemente por fiéis.

“Por essa opinião uma fiel veio reclamar comigo pessoalmente que eu estava defendendo índio. Ora, estava defendendo era o direito de um ser humano comer”.

Ao todo 65 crianças são atendidas pela equipe do Instituto (Foto: Marcos Maluf)
Ao todo 65 crianças são atendidas pela equipe do Instituto (Foto: Marcos Maluf)

O religioso é adepto da Teologia da Libertação, corrente teológica cristã que parte da premissa de que o evangelho faz opção pelos pobres e pode usar, como modo de concretizar essa opção, as ciências humanas e sociais.

É uma das alas mais progressistas da Igreja Católica e incentiva o debate de assuntos muito caros ao cristianismo em geral, como sexualidade, relação com outras religiões, questões de desigualdade, entre outros.

“Sou um capitalista porque vivo numa sociedade capitalista, agora o que você tem no coração, o modo de viver, pode fazer uma contradição a essa lógica”, explica o líder religioso, dando mais uma pista de como pegou a fama de comunista.

O trabalho do pároco na região o Lageado nasce, na verdade, três anos antes de 2016. Estando na paróquia do bairro, testemunhou várias famílias perderem seu sustento, depois que o lixão a céu aberto da região foi fechado, após o cumprimento da legislação federal, em 2013.

Famílias já muito pobres se depararam com a miséria e com a urgência da ajuda do poder público e instituições. Foi aí que apareceu na vida de padre Agenor uma parceira, a irmã Delanor Dias Coelho.

Irmã Delanor está com padre Agenor desde 2013 (Foto: Marcos Maluf)
Irmã Delanor está com padre Agenor desde 2013 (Foto: Marcos Maluf)
Cozinha do Instituto, necessita de doação mensal para manter-se. (Foto: Marcos Maluf)
Cozinha do Instituto, necessita de doação mensal para manter-se. (Foto: Marcos Maluf)

Ela, professora de português aposentada, se ofereceu para ajudar as famílias desamparadas junto com o padre. Eles iniciaram o trabalho às margens do lixão mesmo, assim que o problema se instaurou.

“Padre já era meu confessor na Perpétuo Socorro e eu estava buscando o chamamento religioso, nesse sentido de buscar ajudar os mais pobres, e onde estão os pobres? Aqui”.

Desde então, Delanor vem escrevendo a história do Instituto junto com o padre. Para ela, a fama de comunista dele é fruto do desconhecimento de seu trabalho.

“O padre Agenor acredita naquilo que ele defende e isso tem que ser respeitado, mas o mais importante é conhecer as ações dele, que são ações de vida”.

Quando liguei explicando a pauta e pedindo a matéria, padre Agenor teve um único receio: a interferência nas doações. O Instituto Misericordes Sicut Pater vive de doação para tudo e conta com várias obras em andamento. Todo material é de doação, inclusive a comida. Padre Agenor usa ainda todo seu salário, de R$ 4 mil, nas despesas mensais.

“Temos R$ 8 mil de gasto mensal incluindo as três funcionárias. R$4 mil são doações e a outra metade é todo meu salário”, explica.

Depois desse breve relato sobre a história de padre Agenor, fica fácil relacioná-la à frase de Dom Hélder Câmara. Isso porque mesmo com toda deturpação ou até a justa discordância do que ele fala e prega, existe uma vida dedicada aos mais necessitados. Comida é o que mata fome, educação é o que educa, carinho é o que conforta e não uma eventual posição política.

“Quando as pessoas descobrem que por trás do discurso existe uma prática que mata fome, elas falam que sou santo”, sorri padre Agenor.

Serviço - Para ser parceiro a fazer doações ao Instituto Misericordes Sicut Pater é possível acessar o site da instituição. No endereço você encontra email e telefones para contato.

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