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Comportamento

Mulheres sobreviventes da violência inspiram a Herdeiros do Samba

Aos 73 anos, Fátima da Luz segue à frente de escola que fundou em homenagem ao marido

Por Natália Olliver | 05/02/2026 06:10
Mulheres sobreviventes da violência inspiram a Herdeiros do Samba
Fátima da Luz está à frente da Herdeiros do Samba desde 2007 (Foto: Osmar Veiga)

Por quase três décadas, Fátima da Luz, hoje com 73 anos, atravessa o Carnaval de Campo Grande como quem atravessa a própria vida. Com memória, improviso e teimosia. Ela está na folia desde 1995, mas o ponto de virada veio depois, quando o samba deixou de ser apenas festa e virou promessa cumprida.

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A Herdeiros do Samba, escola de samba de Campo Grande, foi fundada em 2007 por Fátima da Luz como homenagem ao marido Adão Mário da Luz, falecido em 2006. A agremiação nasceu do sonho compartilhado pelo casal de ensinar crianças a gostarem do Carnaval, inspirados pela experiência que tiveram no Rio de Janeiro. Em 2024, a escola será a primeira a desfilar na Avenida da Praça do Papa, no dia 16 de fevereiro. O enredo homenageará o Instituto ACIESP, organização que acolhe mulheres em situação de violência e oferece cursos profissionalizantes. Apesar das dificuldades enfrentadas no ano anterior, Fátima mantém vivo o legado do marido e o compromisso com o Carnaval.

Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, Fátima morou em diferentes capitais, passou por outras escolas de samba e viveu um período na tradicional Igrejinha. Foi ali que um sonho antigo ganhou corpo, brasão, mascote e vários enredos. O sonho não era só dela, mas também do marido, Adão Mário da Luz.

Mulheres sobreviventes da violência inspiram a Herdeiros do Samba
Mulheres sobreviventes da violência inspiram a Herdeiros do Samba
Samba-enredo da Herdeiros do Samba homenageia Intituto que protege mulheres (Foto: Osmar Veiga)

Em 2007, Fátima fundou a Herdeiros do Samba. O objetivo era homenagear o companheiro, que faleceu em 2006, vítima de um câncer espinocelular nos seios da face. O diagnóstico inicial falava em seis meses de vida. Ele teve mais que isso: dois anos com qualidade, segundo ela. Tempo suficiente para ir a São Paulo fazer tratamentos e despedidas. O câncer foi descoberto por causa de um dente.

“Ele era gaúcho e o sonho dele era saber sambar. Moramos 11 anos no Rio e lá todas as escolas têm umas pequenas, aqui é diferente. Ele queria ensinar desde pequenos as crianças a gostarem de Carnaval, não conseguiu, e a gente está indo.”

Mulheres sobreviventes da violência inspiram a Herdeiros do Samba
Adão Mário da Luz faleceu em 2006, mas deixou sonho que Fátima cumpriu (Foto: Arquivo pessoal)

Este ano, a Herdeiros do Samba será a primeira escola a desfilar na Praça do Papa, no dia 16 de fevereiro. Fátima explica que o samba-enredo deste ano será uma homenagem ao Instituto ACIESP, que acolhe mulheres em situação de violência e oferece cursos profissionalizantes.

A instituição foi fundada por Ceureci Fátima Santiago Ramos, que transformou a própria experiência de superação em propósito coletivo. As atividades começaram em 2009, no bairro Jardim Carioca. A formalização jurídica veio em 2013. Desde 2019, o instituto funciona na Rua Inocência Moreira dos Santos, nº 45, no bairro Aero Rancho.

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Fátima da Luz e o neto, Adão Mário da Luz, mesmo nome do avô (Foto: Osmar Veiga)

Esse é o ponto que a escola quer levar para a avenida. Não a violência em si, mas o que raramente ganha visibilidade depois dela: o acolhimento e uma nova chance.

“A minha filha foi a primeira a conhecer o trabalho. Depois eu fui estudar e olhar e vi que ela merecia uma homenagem. Não vamos focar nas coisas tristes, mas no lado positivo que o instituto dá. Através do nosso enredo, muitas pessoas vão saber o que é. Queremos fazer algo à altura.”

A expectativa para este ano está alta, porém vem misturada com cobrança. No ano passado, a escola não teve boas notas. O enredo de 2025 homenageou uma escritora baiana, vice-presidente da Herdeiros, autora de um livro sobre o Carnaval de Campo Grande, com foco nas cores vermelho e branco e na história da festa na cidade. Não bastou, e a nota foi menor do que a esperada.

“A expectativa é grande. Antigamente as pessoas tinham preconceito, achavam que o Carnaval só tem negro, só tem pobre e pessoas incultas. Mas não, tem pessoas de todos os níveis de escolaridade e segmentos. Quando falamos de democracia, o Carnaval é um exemplo espetacular. Toda a família pode participar: as crianças na ala infantil, os maridos na bateria ou apoio, as mulheres nas alas. Acolhe todo mundo.”

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Fátima explica que a história com o Carnaval está no sangue, e esse foi um dos motivos de ter fundado a escola.

“Moramos no Rio de Janeiro por 11 anos. Ele observava algo que aqui ainda não existia do mesmo jeito: escolas pequenas, de bairro, formando gente desde cedo.” O plano era simples e ambicioso: ensinar crianças a gostarem de Carnaval. Ele não conseguiu ver isso acontecer. Fátima fez questão de não deixar o projeto morrer junto com ele. Não importa quantas pessoas encarem o desafio na avenida, a Herdeiros sempre vai desfilar.

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