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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

12/01/2020 07:52

Entre “ninguém solta a mão de ninguém” e “você que lute”, empatia ficou de lado

E se fosse seu filho? Que tal a gente se colocar no lugar das mães que batem de porta em porta nas escolas procurando inclusão?

Paula Maciulevicius Brasil
Sam, o garoto autista da série que retrata o autistmo da Netflix, Atypical.Sam, o garoto autista da série que retrata o autistmo da Netflix, "Atypical".

Na semana em que foi noticiado o caso de um aluno de 19 anos que teve a matrícula negada num colégio particular de Campo Grande, por ter uma síndrome, me vem à cabeça a frase que encerrava 2018, pós eleições: "ninguém solta a mão de ninguém".

Não me recordo exatamente quando a primeira caiu em desuso e passamos a usar "você que lute", mas acredito que, entre uma e outra, deixamos a empatia de lado e caminhamos rumo a pensar só no próprio umbigo. 

A respeito da notícia, fui marcada na postagem de desabafo de uma mãe, fiz a matéria, ouvi o outro lado e muitos pais que lutam pela inclusão para entender que: isso acontece muito mais do que a gente pensa e, apesar de não só não ter amparo legal como ser inconstitucional, ninguém fiscaliza e fica por isso mesmo. Sozinhos, são os pais que precisam procurar pela Justiça para que então a instituição seja penalizada. E só.

Mas quem tem o poder de garantir que isso mude a postura das escolas? As famílias de crianças "típicas". Ou seja, a luta pela inclusão precisa partir de quem não tem deficiência, síndrome ou autismo para se fazer valer. 

Sofia Dias Figueira é professora de História, estudante de Medicina e mãe de Maria Flor. Uma pequena autista que não fala e que precisa de um professor auxiliar dentro de classe para poder estudar. E é ela que, cansada de ir atrás de um direito básico para a filha, pede que a gente compre a briga também. 

"Se há 'vagas destinadas às pessoas com deficiência' já é discriminatório! E digo mais: mães de crianças típicas, cobrem das escolas dos seus filhos que eles sejam inclusivos. Só assim haverá mudanças. Nós, mães de crianças atípicas, precisamos de vocês! Se não contarmos com vocês vamos contar com quem?", pergunta Sofia.

Não que a vida deva ser medida pelas redes sociais ou grupos de Whats, mas nos ambientes virtuais em que se concentram as mães que conheço e com as quais convivo, apenas entre as que têm filhos com deficiência ou autismo é que a negativa da matrícula da escola repercutiu. As demais sequer comentaram, o que para mim mostra o quanto nos distanciamos de nos colocar no lugar umas das outras. E se fosse seu filho?

Talvez eu tenha tomado essa pauta para mim por ser mãe de uma criança que também requer cuidados específicos e tem deficiência auditiva e atraso motor. O que aconteceu com aquela mãe poderia ter sido comigo e pode até acontecer mais para frente se a gente não falar e não cobrar isso, a inclusão.

"Precisamos fazer uma corrente do bem. Não é porque tem aluno [com deficiência, autista ou síndrome] que a escola é inclusiva. Eles têm apoio pedagógico? Tem professor auxiliar?", enfatiza Sofia. São com estes questionamentos que ela nos ensina como e o que perguntar a uma escola. 

Claro que ninguém precisa tirar o filho do colégio porque ele não é inclusivo. É uma escolha particular. Mas aí temos de concordar com uma questão: seu filho estará preparado para viver no mundo real, onde pessoas precisam de ajuda e são tão diversas, se não conviver no ambiente escolar com as diferenças, compreendendo as necessidades do outro? "Não quer tirar o filho da escola? Ok, escolha sua, mas pelo menos cobre explicações, defenda os que precisam", pede Sofia. 

Dentro da rotina, a mãe precisa brigar com o plano de saúde para garantir as terapias da filha quase que diariamente. Ainda entram terapeutas e advogado no dia a dia. Com tudo isso, somado à correria de ter uma filha pequena e ainda estudar, não há cabeça que aguente. "Quando é início do ano, para matricular é uma tormenta. Aí a gente vê amigas elogiando as escolas dos filhos porque atendem às necessidades deles, tipo, num mundo ideal, não é? Porque para a gente só sobra o cansaço de não conseguir uma coisa simples: como matricular o filho numa escola". 

Como mãe e jornalista, quero somar do lado do "ninguém solta a mão de ninguém" para não deixar nenhuma mãe ter que lutar sozinha. 

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