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Comportamento

A que ponto chega o ódio por trás de um recado no portão de casa

"Existe muito bugre em Campo Grande e pessoas com mentalidade de índio", diz o dono da placa

Por Thailla Torres | 25/03/2017 08:48
A placa de Gelson está bem longe de ser um recado civilizado. (Foto: Marcos Ermínio)
A placa de Gelson está bem longe de ser um recado civilizado. (Foto: Marcos Ermínio)

Foi por acaso que uma placa no portão de uma residência no Carandá Bosque chamou tanto atenção. Na mensagem longa, a impressão é de que ali vive alguém cansado de ter gente folgada estacionando na frente da garagem.

Foram duas tentativas até encontrar o dono, pela curiosidade de entender o motivo de um recado tão indignado e, aparentemente, cheio de ódio, com uso de palavras como "excremento da sociedade".

O texto diz: "Nesta entrada de garagem seguidamente estacionam seus veículos, pessoas mal educadas, desrespeitosas e inescrupulosas. É a presença do excremento da sociedade civilizada. A prova é que uma placa já foi arrancada", diz.

O dono da casa é o aposentado Gelson Flori Muller, de 69 anos, que aceita dar entrevista depois de ser chamado por um dos filhos, que também faz questão de que a placa seja divulgada. "Se quiser filmar, pode botar o que você quiser no jornal", afirma.

Insatisfeito, Gelson afirma que vai fazer uma placa maior e com menos "elogios". (Foto: Marcos Ermínio)
Insatisfeito, Gelson afirma que vai fazer uma placa maior e com menos "elogios". (Foto: Marcos Ermínio)

Ele conta que colocou a placa por conta de motoristas que estacionam dos dois lados da rua, o impedindo de entrar com o carro na garagem. A rua é estreita, na quadra da frente há um salão de beleza e quando o movimento é intenso, o acesso fica difícil.

"O pessoal estaciona aqui e muitas vezes minha mulher não consegue sair. Se tiver um carro desse lado e do outro, você não sai. Tem que ser um bom motorista, porque as ruas são estreitas", afirma Gelson, que nasceu no Rio Grande do Sul, mas vive em Campo Grande há 17 anos.

Em tempos de intolerância e desgaste emocional, o apelo pela paciência para resolver questões como essa na base do diálogo não empolga Gelson. Ele não economiza na raiva, nem na hora de atingir o que ela considera menor. "Eu vou fazer uma placa maior. Como existe muito bugre em Campo Grande e pessoas com mentalidade de índio, elas não sabem que as leis foram criadas para respeitar", disse.

Lembrado pela reportagem que sua história seria publicada pelo Lado B, ele não se intimidou e disse que conheceu muito indígena, e chega a relacionar o comportamento selvagem com as etnias. "Conheci muito indígena em Rondônia, estive em cidade que os índios andaram pelados e não quero nada de índio".

Mesmo ciente de estar em um estado com uma das maiores populações indígenas do País, ele não teme em reforçar a ira contra as comunidades. "Porque se os índios são donos disso aqui, eu concordo com eles, mas quero ver a escritura de quem eles compraram. Se não, tem lugar para branco, não vai ter para o índio. Não gosto, não me envolvo e não quero saber de índio. Não convivo com essa mentalidade selvagem", dispara.

Apesar dos poucos elogios a Campo Grande, ele diz que escolheu a cidade como moradia pela beleza, mas que sua terra natal é mais evoluída. "Como pago meus impostos, tenho direito de escolher onde quero morar. Mas não é por isso que vou admitir viver igual essa bugrada solta por aí. O que tem de gente mal educada nessa cidade é impressionante. Para ser ruim, tem que melhorar muito".

Resistente ao diálogo com os motoristas, Gelson fala o que acredita e ainda por cima diz que vai aprontar mais. "Você não vê um carro meu estacionado errado por aí. Não que o Rio Grande do Sul seja melhor, mas em certas coisas, está anos luz na nossa frente. Eu botei isso (placa) agora, mas se colocarem o carro na calçada, vou pegar um palito e murchar os pneus. Se reclamar vou chamar a polícia", avisa.

E ele já anda pensando em um texto novo para a placa no portão. "Ainda estou estudando o texto que vou dar, esse aqui ainda elogia muito e não tenho motivo nenhum para estar elogiando", diz.

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