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Campo Grande, Domingo, 23 de Setembro de 2018

03/09/2018 09:39

Aos 103 anos, ninguém tira linha e agulha das mãos firmes de Dona Maria

Muito ativa e cercada pela família, ela diz que é possível envelhecer bem e manter a mente lúcida

Kimberly Teodoro
Com ponto atrás Dona Maria enfeita panos de prato com mãos firmes. (Foto: Kimberly Teodoro)Com "ponto atrás" Dona Maria enfeita panos de prato com mãos firmes. (Foto: Kimberly Teodoro)

Nascida em 2 de fevereiro de 1915, Maria Ferreira Rodrigues, descendente de paraguaios, veio para o Brasil ainda na barriga da mãe. Hoje, perto de completar 104 anos, Dona Maria ainda possui uma lucidez que é para poucos na mesma idade, as mãos são firmes e preservam a delicadeza de quem usa linha e agulha há uma vida para transformar pedaços de pano em arte.

Apesar do aparelho de surdez, das lentes grossas dos óculos e da cadeira de rodas, o tempo pouco parece ter interferido na memória, que segue um curso muito parecido com a da linha que toca o tecido durante a conversa.

Ela se lembra de tudo, embora nem sempre no mesmo instante. Quando esquece algo, o assunto carrega o olhar para um lugar que só ela habita e, quando encontra o caminho de volta, as respostas surgem como se fossem acontecimentos vividos ainda ontem. Vez por outra, as filhas precisam ajudar na tradução. "O aparelho faz ela ouvir o que estamos falando, mas não garante a compreensão. Quando ela está acostumada com a voz da pessoa é mais fácil para entender", explica Cladir, a filha mais nova e responsável por cuidar da mãe e da irmã mais velha, Luiza.

Maria Ferreira Rodrigues preserva a lucidez e a habilidade de contar histórias aos 103 anos. (Foto: Kimberly Teodoro)Maria Ferreira Rodrigues preserva a lucidez e a habilidade de contar histórias aos 103 anos. (Foto: Kimberly Teodoro)

Maria conta que a decisão da mãe de vir ao Brasil foi na verdade uma crise de ciúmes. “Meu pai era maçom e quando ele ia para as reuniões ela ficava em casa achando que ele estava com outras mulheres”.

Paraguaia “fogosa” e muito bonita, a mãe de Dona Maria, Joana Ferreira Ramires, também sofria com a opressão do marido, que lhe dava pouca liberdade e vez por outra também a acusava de ter um amante. Cansada, ela resolveu deixar tudo para trás e atravessar a fronteira grávida da filha caçula e trazendo as duas filhas mais velhas pela mão.

Por volta de 1916, quando Maria ainda era um bebê de colo, o pai, Doroteo Alvarez descobriu o paradeiro da esposa e veio buscar as filhas na colônia paraguaia, instalada em Jardim, onde a esposa Joana tinha amigos. “Ele levou as duas mais velhas e deixou mamãe, porque ela ainda mamava. Depois disso ele proibiu o contato entre elas e só fomos conhecer as irmãs que moravam no Paraguai 40 anos depois, quando ele morreu”, ajuda Cladir da Graça Rodrigues Barros, 70 anos, que já conhece as histórias da mãe de cor e salteado.

Dona Maria e o marido Arary, com quem passou 57 anos de vida. (Foto: Kimberly Teodoro)Dona Maria e o marido Arary, com quem passou 57 anos de vida. (Foto: Kimberly Teodoro)

Criada de maneira muito rígida e proibida pelo padrasto de estudar, Maria só frequentou um ano de escola, porque segundo ele “moça não precisava saber ler e escrever, isso só servia para escrever bilhetes para os namorados”. A infância foi dedicada a cuidar da casa e dos 10 irmãos mais novos, frutos do segundo casamento da mãe.

A liberdade veio com o marido. Dona Maria conta que se apaixonou primeiro pelo nome do rapaz que veio a cavalo visitar a fazenda do padrasto. “Eu ouvi o nome dele: Arary, depois é que fui conhecer pessoalmente.” Daí em diante foram 57 anos de casados e 7 filhos em 5 partos”, brinca ela ao contar que a primeira e a segunda gestação foram de casais de gêmeos.

Luíza, 78 anos, filha mais velha do casal, não têm reclamações ao lembrar da relação dos pais: “Ele era louco por ela e fazia de tudo para agradar. Inclusive, deixar a fazenda que herdou do pai e onde vivemos quando crianças para ir morar em Jardim, ele estava contrariado, mas mamãe queria que os filhos estudassem.”

Aos 103 anos Dona Maria preserva a mão firme e a delicadeza de bordadeira hábil. (Foto: Kimberly Teodoro)Aos 103 anos Dona Maria preserva a mão firme e a delicadeza de bordadeira hábil. (Foto: Kimberly Teodoro)

A família viveu em Jardim muitos anos e a casinha de madeira repleta de lembranças e histórias de Maria e do Arary ainda está lá. José Gonçalves Barros, 70 anos, é o “filhão” de dona Maria, casado com Cladir há quase 50 anos, ele tem uma relação única com a sogra, faz questão de manter a casa preservada e barrar os planos de reforma da esposa.

Para Maria, o segredo da longevidade é, justamente, a família. “Eu tive sorte de ter dois filhos que cuidam tão bem de mim”, diz ela fazendo referência a filha Cladir e ao genro José. Ela ainda sente falta do marido e de todos os filhos reunidos, mas está sempre cercada pelos incontáveis netos, bisnetos e tataranetos. Amor e cuidado não faltam.

Documento de identidade de Dona Maria comprova seus 103 anos (Foto: Kimberly Teodoro)Documento de identidade de Dona Maria comprova seus 103 anos (Foto: Kimberly Teodoro)

Apesar de reconhecer a importância dos cuidados e do afeto familiar, ela também atribui a mente afiada da mãe aos trabalhos manuais que ela faz todos os dias para exercitar tanto os dedos quando a memória.

Autodidata, Dona Maria foi aprendendo a costurar e bordar ao longo da vida com a mãe, vizinhas e amigas próximas. O profissionalizante de corte e costura, com diploma, e tudo veio só na vida adulta. “Muito do que ela fez e faz até hoje foi observando os outros e desmanchando os tecidos para usar a linha nos bordados. O mais importante é que ela nunca parou, e sempre foi muito ativa, foi isso que ajudou a manter a lucidez nessa idade”, diz Cladir.

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