Além do Pantanal, Sayegh tem fotos com o Papa, Pelé e até a Gretchen
Libanês fez história ao fazer mais de 10 mil cliques do bioma e exposições com eles foi parar em Tóquio

Além de ser o homem dos mais de 10 mil cliques do Pantanal e um dos primeiros a mostrar as belezas do bioma, as lentes de Georges El Sayegh já registraram inúmeros momentos históricos, políticos e artísticos. Entre eles, Pelé, o Papa e até Gretchen, nos bastidores de um programa do Clube do Bolinha em São Paulo.
No acervo que ele construiu ao longo de décadas aparecem nomes como Adriane Galisteu, Luiza Brunet, Ney Latorraca e Helô Pinheiro, a icônica "Garota de Ipanema", musa inspiradora da famosa canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes composta em 1962.
Quem puxa as lembranças é o filho, Munir Sayegh. Entre caixas, negativos e fotografias que atravessaram gerações, ele tenta manter viva a história do pai, um homem que saiu do Líbano para construir uma vida em Campo Grande e acabou se transformando em um dos nomes mais lembrados da fotografia pantaneira.

Georges El Sayegh nasceu em 27 de dezembro de 1924, na cidade de Mashghara, no Líbano. Anos depois, ainda jovem, atravessou o oceano seguindo o caminho de muitos imigrantes libaneses que buscavam oportunidades em terras brasileiras. A família chegou primeiro pelo Porto de Santos e seguiu para o interior do Paraná, onde ele trabalhou com parentes.
Foi apenas na década de 1950 que a história tomou outro rumo. Um cunhado que já vivia em Campo Grande fez o convite para que ele conhecesse a cidade. "Meu pai veio para cá como todo bom libanês, para ser comerciante. Ele montou restaurante, depois frutaria, depois loja de presentes. A fotografia começou quase sem querer", conta Munir.
A família se estabeleceu no coração da cidade, na Rua 14 de Julho. Entre a Dom Aquino e a Barão do Rio Branco, Georges abriu primeiro uma frutaria. Depois veio a loja de presentes. Foi nesse período que a fotografia começou a entrar na vida dele.
"No começo ele fazia casamento, formatura, foto de estúdio. Meu pai era muito comunicativo, fazia amizade com todo mundo. Foi assim que ele começou a trabalhar também com jornais e televisão," lembra o filho.
Georges passou a colaborar com veículos como o jornal Correio do Estado e a TV Morena. Fotografava eventos, produzia imagens para reportagens e registrava a movimentação da cidade. Com o tempo, abriu o próprio negócio: o Foto Morena, que funcionou por anos em galerias e depois na Rua Arthur Jorge.
Mas foi quando ele decidiu apontar a câmera para outro cenário que sua história ganhou um novo capítulo.
"Meu pai percebeu que estava vivendo em um estado onde existia uma das maiores riquezas naturais do mundo. E ele pensou: alguém precisa mostrar isso, o Pantanal na década de 60/70 tinha muitos lugares intocáveis. Ele tirava foto de arara azul, coisa rara hoje. Tirou foto de um bando de jacaré que até pareciam até pedras", conta Munir.
Assim começaram as viagens para o Pantanal. Sem drone, sem equipamento moderno, muitas vezes embarcando em aviões da base aérea ou passando dias em fazendas da região. O resultado foi um acervo de mais de 10 mil fotografias que o filho luta para organizar e manter em casa.

"Meu pai tinha um olhar diferente. Ele olhava para algo e achava bonito. Eu olhava aquilo que ele apontava e não via. Depois que ele fotografava, você começava a perceber a beleza", descreve o filho.
As imagens começaram a circular cada vez mais. Exposições foram realizadas pelo Brasil e até no exterior, incluindo uma mostra em Tóquio. Aos poucos, as fotografias do Pantanal viraram lembranças disputadas por quem passava por Campo Grande. Quando artistas e políticos visitavam a cidade, Georges fazia questão de presenteá-los.
"Eles vinham fazer show ou evento e iam procurar meu pai. Ele entregava uma fotografia do Pantanal ou um retrato que tinha feito deles. Papai fez contato com alguns fazendeiros da época, viajava ficava dias na fazenda, fazia muita foto de aves. começou a vender o material e jamais imaginou que ele poderia divulgar isso para o mundo".

Assim, com a câmera, surgiram encontros improváveis, como o de Albert Sabin. Em uma ocasião especial, durante a visita do Papa João Paulo II ao Brasil, Georges foi convidado pelo bispo Dom Vitório para representar a comunidade libanesa; foi aí que ele conheceu o Papa e registrou a imagem da bênção.
"Meu pai entregou para o Papa o Cálice da Vida. Ele ficou muito emocionado. O Papa abençoou ele e deu um terço." Outro momento marcante veio quando o empresário Roberto Marinho, dono da Globo, conheceu ele pessoalmente e adquiriu mais de 120 fotografias do Pantanal.
"Meu pai ficou nervoso quando soube. Ele nunca imaginou que aquilo poderia chegar tão longe. O Roberto disse que faria uma exposição na fundação que leva o nome dele".
Apesar do reconhecimento, nem sempre o crédito veio junto. "Muita gente usou as fotos do meu pai como arquivo e nem citava o nome dele, isso ainda acontece", lamenta Munir.
Hoje, décadas depois, o filho tenta organizar o que restou. Negativos guardados em caixas, fotografias reveladas, registros que contam não só a história de um homem, mas também de um tempo em que o Pantanal ainda parecia intocado e que mostram a história da cidade.
Confira a galeria de imagens:
"Eu comecei a revelar e digitalizar tudo para manter vivo o acervo dele", explica. Georges El Sayegh morreu em 2014, aos 89 anos. Deixou a esposa Nahia Saad Sayegh, quatro filhos: Munir, René, Soraya e Rose e seis netos.
Para o filho, o legado vai muito além da família. "Meu pai era apaixonado pela natureza. Ele tinha sensibilidade para ver beleza onde muita gente não via. E foi isso que ele tentou mostrar para o mundo. Uma coisa que ele sempre teve foi um amor pela natureza. Ele tinha um olhar da fotografia mesmo".
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