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Campo Grande, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

24/11/2018 07:46

Aos 12 anos, Hisnayla ensina os colegas de escola que cachos são lindos

A estudante campo-grandense ajuda a vencer o preconceito, aceitar os cabelos e mostra que o mundo é melhor com gente de personalidade

Thailla Torres
A menina sorridente ensinou na escola sobre identidade e aceitação dos cabelos. (Foto: Kísie Ainoã)A menina sorridente ensinou na escola sobre identidade e aceitação dos cabelos. (Foto: Kísie Ainoã)

Sorridente, comunicativa e empoderada. Aos 12 anos, a maquiagem pode até indicar que a menina é mais velha, mas Hisnayla Valejo não se importa muito com o que os outros dizem. A estudante prova todos os dias que a gente só é completa com personalidade. Criança ela viveu o preconceito por ser negra e com os cabelos cacheados. Mas com ajuda dos pais deu a volta por cima na dor e, graças à escola, levou a lição de vida aos colegas que aprenderam sobre identidade e como amar os cabelos de um jeito mais divertido, inclusive, com uso de lenços e turbantes.

Hisnayla chegou triste em casa pela primeira vez aos 8 anos, depois de ouvir dos amigos da escola que seu cabelo “era feio, feito de bucha e macarrão de miojo”. No abraço dos pais disse que não queria mais ter os cachos que viviam soltos e pediu à mãe um alisamento.

Coordenadora que também abriu mão da química, sentiu-se inspirada pela aluna. (Foto: Marina Pacheco)Coordenadora que também abriu mão da química, sentiu-se inspirada pela aluna. (Foto: Marina Pacheco)
Professor de Filosofia e Sociologia foi o idealizador do projeto que coloca alunos como protagonistas. (Foto: Marina Pacheco)Professor de Filosofia e Sociologia foi o idealizador do projeto que coloca alunos como protagonistas. (Foto: Marina Pacheco)

Indignados com a situação os pais não aceitaram o pedido da filha, conversaram com a menina sobre diversas questões com o objetivo de levá-la a reflexão. Quatro anos depois Hisnayla ainda lembra-se da conversa. “Eles conversaram comigo, não me deixaram alisar e agradeço, porque hoje eu amo muito meu cabelo”, diz.

Ao ouvir as palavras da estudante, dentro da escola, é impressionante sua postura política de mulher negra perante aos amigos para romper as barreiras racistas. "Representatividade importa e o respeito é essencial", diz a menina.

A chance de falar sobre preconceito e dar uma oficina de turbante para os colegas, na escola estadual Professor Henrique Ciryllo Correa, no Bairro Vila Rica, durante um dos projetos interdisciplinares, “Protagonizando com arte” que trabalha com temas atuais e fortalece as discussões dentro da escola onde o aluno é o protagonista com oficinas, filmes, palestras e produções áudio visuais.

Hisnayla deixa claro que aceitar os cabelos não é ser cacheada para o resto da vida, mas deixar as madeixas do jeito que ela quiser. “Todas podem pintar, todas podem alisar, todas podem cachear. O que não pode é fazer algo com seu cabelo só porque as pessoas dizem que ele é feio. Não existe cabelo feio, eu aprendi”.

O aluno João Vitor Vitório Furtado, de 15 anos, também quis aprender com a aluna sobre o turbante depois de ver o sofrimento de uma amiga nas ruas. “Ainda há muito preconceito porque uma das minhas amigas já teve o cabelo puxado na rua por uma mulher, em um bairro famoso, e foi chamada de macaca. Até hoje não encontraram essa mulher e minha amiga nunca esqueceu”, narra.

Os meninos também encaram o turbante e narraram histórias de preconceito. (Foto: Marina Pacheco)Os meninos também encaram o turbante e narraram histórias de preconceito. (Foto: Marina Pacheco)

A coordenadora Telma Soares Alencar, também se sentiu inspirada pela aluna, depois de viver oito anos alisando os cabelos. “Eu usava muita química até que um dia meu cabelo não aceitou mais e comecei o processo de transição. Quando vi a Hisnayla falando da história me identifiquei muito”, diz a coordenadora.

Para a mãe da aluna, Neia Valejo, de 39 anos, a dor foi saber que cedo ou mais tarde a filha vivenciaria o preconceito. “Tanto ela quanto o irmão gêmeo já sofreram discriminação racial, e isso é lamentável. Porque a gente quer proteger nossos filhos, mas isso está fora do nosso controle. Por isso, a única solução foi sempre conversar muito com eles”.

O diálogo de pai e mãe dentro de casa deu certo e os olhos de Neia brilham de orgulho. “Ela foi se aceitando, se achando linda e sempre disse a ela que nasceu para brilhar. Hoje, os dois são orgulhosos de serem negros e cada dia nasce um interesse de saber mais sobre a nossa história”.

Para Hisnayla a resposta contra o preconceito está no sorriso. “Quando alguém fala alguma coisa feia, entra por um ouvido e sai pelo outro. Meu cabelo é bonito, de toda menina é bonito e a gente tem que aprender a respeitar”.

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Hisnayla explicou às amigas que não importa se o cabelo é liso ou cacheado, o que é importa é o ter o cabelo do jeito que quiser, sem nenhum imposição.Hisnayla explicou às amigas que não importa se o cabelo é liso ou cacheado, o que é importa é o ter o cabelo do jeito que quiser, sem nenhum imposição.


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