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Campo Grande, Domingo, 25 de Agosto de 2019

27/06/2019 07:48

Aos 93 anos, Auzenir ganhou admiradores por “madrugar” na caminhada

Simpática, moradora do Corcovado virou inspiração no bairro e adora contar que viu o Bairro Tarumã nascer.

Danielle Valentim
Dona Auzenir chegou a região, quando rua só tinha quatro casas (Foto: Paulo Francis)Dona Auzenir chegou a região, quando rua só tinha quatro casas (Foto: Paulo Francis)
Selfies com admiradoras; dona Auzenir ao centro e servidora pública Keila Flores à direita. (Foto: Arquivo Pessoal)Selfies com admiradoras; dona Auzenir ao centro e servidora pública Keila Flores à direita. (Foto: Arquivo Pessoal)

A caminhada diária pela extensão da Avenida Bom Progresso, além de saudável já rendeu até selfie com admiradores de dona Auzenir Muniz de Aguiar, de 93 anos. O que pouca gente sabe é que a senhorinha que não falha um dia sequer de exercício é uma pioneira que chegou à região antes mesmo do nascimento dos bairros Coophavilla, Tarumã e Corcovado.

Haja história para quem já soma nove décadas, mas o Lado B resumiu e antes de contar sobre o dia a dia de dona Auzenir, vai começar da partida do Ceará.

Com respostas rápidas e memória ativa, Auzenir fala com convicção sobre o primeiro desembarque em São Paulo com o marido e a filha mais velha, que tinha apenas 1 ano. Na capital paulista, o trio ficou por três meses e, em seguida, desceu para o Paraná, onde após dois anos e meio, uma geada muito forte pôs fim à permanência.

A terceira região foi a Vila São Luiz de Cáceres, no norte do Mato Grosso, onde o casal viveu por 17 anos, o primeiro deles vivendo no meio do mato para abrir um lote. A dificuldade e distância eram tamanhas, que o marido pegava carona em caminhões para fazer compras na cidade e o retorno demorava oito dias.

“Eu ficava sozinha com as crianças e para as queixadas não invadirem eu colocava malas na porta do barraco, conta (Foto: Paulo Francis)“Eu ficava sozinha com as crianças e para as queixadas não invadirem eu colocava malas na porta do barraco", conta (Foto: Paulo Francis)

“Eu ficava sozinha com as crianças e para as queixadas não invadirem eu colocava malas na porta do barraco. Eu até tampava a boca deles para eles não chorarem. Por falta de médicos e assistência médica, meus filhos nasciam, adoeciam e morriam. Três foram enterrados lá, dois deles em Salto do Céu”, lembra.

A família então foi para Cuiabá onde viveu por mais um ano até a mudança definitiva para Campo Grande. A chegada à Rua Minuano - hoje Rua Verdes Mares - aconteceu no dia 1 de agosto de 1974, antes mesmo da divisão do Estado que aconteceria três anos depois, em 1977.

A casa de dez peças construída há 45 anos ainda está de pé. A via curtinha entre as avenidas Bom Progresso e Gunter Hans não pertencia a bairro nenhum e toda a área hoje chamada de “Corcovado” era conhecida como Rua Minuano.

Primeira casa de dona Auzenir. (Foto: Paulo Francis)Primeira casa de dona Auzenir. (Foto: Paulo Francis)
No mesmo lugar até hoje, Auzenir mora em uma casa dos fundos e aluga o primeiro imóvel que ainda tem um poço desativado. (Foto: Paulo Francis)No mesmo lugar até hoje, Auzenir mora em uma casa dos fundos e aluga o primeiro imóvel que ainda tem um poço desativado. (Foto: Paulo Francis)

“Nossa igrejinha era uma casinha de tábua. O hospital Adventista também já existia, mas era o prédio antigo que já foi até derrubado e construído de novo. Quando cheguei tinham apenas três moradores, o Carlos que era professor no Pênfigo, seu Nelson e Ivo. Nossa casa foi a quarta da rua”, lembra.

Na época, o ex-marido adquiriu a doença Pênfigo Foliáceo, popularmente conhecida como Fogo Selvagem. A enfermidade foi tratada no Hospital do Pênfigo por dez anos. Após a cura, ele foi embora para o Amazonas e abandonou dona Auzenir com seis crianças.

Para sustentar os filhos, Auzenir trabalhou como "sacoleira" e venda ambulante. Logo que os filhos completaram 10 anos, tiraram documentos e passaram a ajudá-la.

No mesmo lugar até hoje, Auzenir mora em uma casa dos fundos e aluga o primeiro imóvel que ainda tem um poço desativado. A idosa não é aposentada, mas recebe o benefício do Loas. Mesmo com as duas construções, o terreno de medida antiga - 13x52 metros - mais parece um quintal de sítio com um fundo cheio de pés de mandioca, bananeiras, limão e mamão.

Para sustentar os filhos, Auzenir conta que trabalhou como sacoleira e venda ambulante.  (Foto: Paulo Francis)Para sustentar os filhos, Auzenir conta que trabalhou como "sacoleira" e venda ambulante. (Foto: Paulo Francis)
Detalhe das mães de Auzenir aos 93 anos. (Foto: Paulo Francis)Detalhe das mães de Auzenir aos 93 anos. (Foto: Paulo Francis)

Vida ativa – Auzenir começou a caminhar há mais de 25 anos, durante a abertura simultânea do Tarumã e Coophavilla. A região antes tomada por mata fechada obrigava os moradores a se curvar em meio aos galhos para colher mangaba e guavira.

“Há anos fazendo essa caminhada nunca aconteceu nada comigo. Antes duas amigas me acompanhavam, íamos até a avenida do hospital e voltava. Depois que fiquei sozinha andava só aqui no quarteirão. Depois que abriram a Bom Progresso e mudei a caminhada para lá”, disse.

Além da caminhada, a senhorinha tem disposição para quatro dias de atividades físicas. O dia começa antes das 5h. “A saída acontece às 5h10. De primeiro eu andava bem de pressa agora ando mais devagar e volto às 6h. Eu vou de cima a baixo três vezes. Antes de sair eu passo um café e quando retorno tomo de novo, troco de roupa e vou para a física. Terça e quinta vou no projeto no Cras (Centro de Referência em Assistência Social) e segunda e quarta no Tarumã, onde tem a atividade física e a academia ao ar livre”, conta.

Com facilidade, Auzenir mostrou agilidade para calçar o par de tênis. (Foto: Paulo Francis)Com facilidade, Auzenir mostrou agilidade para calçar o par de tênis. (Foto: Paulo Francis)
Em dias frios, conta que coloca calça, casacos, touca e so deixa o olho para fora. (Foto: Paulo Francis)Em dias frios, conta que coloca calça, casacos, touca e so deixa o olho para fora. (Foto: Paulo Francis)

Com o avançar dos anos adquiriu diabetes, colesterol, anemia e labirintite, mas pela vida ativa garante não sentir dor em parte alguma do corpo. Com facilidade, Auzenir mostrou agilidade para calçar o par de tênis.

Em dias frios, conta que coloca calça, casacos, touca e só deixa o olho para fora. Dona Auzenir passou por um procedimento de retirada de verruga do rosto e não caminhou nesta semana, mas as atividades serão retomadas na próxima terça-feira.

Católica fiel, dona Auzenir viaja bastante, já foi cinco vezes ao Paraná onde mora a filha caçula, comemorou o aniversário de 92 anos no Ceará, mas vai realizar o sonho de conhecer Aparecida do Norte, em São Paulo, no mês que vem. “Me sinto em paz, feliz, entrego a Deus meu dia e Ele toma conta de mim. Foi difícil, mas meus filhos sempre me obedeceram. Tive dez filhos, quatro se foram, mas tenho 11 netos e seis bisnetos”, finaliza.

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