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Comportamento

Após superar vício, professor realizou sonho e hoje ajuda outras pessoas

Seja na igreja ou em projetos educacionais, ele dá um jeito de mudar a realidade de dependentes químicos

Jéssica Fernandes | 24/09/2022 07:28
Raphael de Souza Cosmo na formatura da faculdade, em 2016. (Foto: Arquivo pessoal)
Raphael de Souza Cosmo na formatura da faculdade, em 2016. (Foto: Arquivo pessoal)

Formado em Educação Física, Raphael de Souza Cosmo, de 32 anos, vivenciou na pele os efeitos da dependência química. Há 12 anos, ele procurou sozinho por tratamento, se recuperou e hoje é mestre em saúde e desenvolvimento. Seja nos artigos científicos ou na igreja, Raphael continua atrelado ao mundo que conheceu quando era usuário. A diferença é que hoje ele está no papel de quem oferece ajuda a outras pessoas.

O vício, segundo ele, surgiu na juventude quando ainda estava servindo o quartel. A ‘curiosidade’ foi o que instigou a experimentar pasta base e cocaína. No lugar dela veio o vício que, aos poucos, fez as relações que Raphael mantinha com amigos e familiares mudar.

"Não teve algo de influência ou de depressão foi curiosidade mesmo. Jovem, cabeça dura, fase rebelde da vida, acha que é dono do mundo. Eu comecei na maconha, mas não gostei e parti para pasta base. Nesses dois anos comecei a me afastar dos familiares, dos amigos, da sociedade e perder bens, moto, carro”, comenta o professor.

Ele e a filha Rafaelly, que atualmente tem 11 anos. (Foto: Arquivo pessoal)
Ele e a filha Rafaelly, que atualmente tem 11 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Quando percebeu o que estava acontecendo, ele resolveu mudar. Em 2011, após dois anos na dependência química, Raphael buscou pela Clínica da Alma. Na comunidade terapêutica, ele foi acolhido pelo pastor Milton e ficou 8 meses em tratamento, sendo seis deles na chácara da instituição.

Ao falar sobre essa fase de tratamento, Raphael explica que a chegada da filha Deborah Rafaelly, de 11 anos, fez com que ele quisesse mudar. “Eu acho que tem um pouco da vontade, da dedicação, pensar no futuro e não só no agora. O dependente químico, no processo de recuperação dele tem esse dia de cada vez, mas com pensar no futuro. Na época, eu tinha uma namorada, que hoje é minha esposa. Ela (Raíssa) acabou engravidando. Então, esse também foi um dos motivos de eu querer recuperação", afirma.

Mudança de vida - Por meio da clínica, Raphael conseguiu ser empregado numa empresa no ramo de sorvetes. Em 2013, ele deu o primeiro passo rumo a carreira que almejava. “Eu tinha o sonho de fazer faculdade de educação física e através da empresa me ajudaram a custear meu sonho. Me formei em licenciatura em 2015 e bacharel em 2016”, diz.

Na escola, o profissional com a turma de alunos. (Foto: Arquivo pessoal)
Na escola, o profissional com a turma de alunos. (Foto: Arquivo pessoal)

A razão por ter escolhido essa graduação, conforme ele, está relacionada a um curso que tinha feito há anos. “Em 2007, eu fiz o curso de arbitragem em futebol de campo. Eu fiz o curso, ingressei nas forças armadas e não dei continuidade ao curso. Eu tinha interesse em voltar e eu sempre gostei de esporte”, destaca.

Para o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), o bacharel escolheu como tema as comunidades voltadas para a recuperação de dependentes químicos. O profissional realizou um questionário sobre aceitação e inserção de professores de educação física nesses ambientes.

Raphael fala sobre o motivo de ter escolhido esse tema. "Despertou a curiosidade de inserir o exercício físico dentro dessas comunidades, porque na que eu passei não tinha nenhum profissional de educação física. Quando os internos tinham tempo, eles ficaram ociosos, sentados e eu vi que isso causava tédio. Alguns também desistiram por conta disso de não ter uma atividade orientada”, esclarece.

No centro da imagem, Raphael momentos antes da apitar a partida de futebol. (Foto: Arquivo pessoal)
No centro da imagem, Raphael momentos antes da apitar a partida de futebol. (Foto: Arquivo pessoal)

Recentemente, o professor defendeu a tese de mestrado na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Assim como na graduação, ele mais uma vez voltou à pesquisa para a questão das drogas. A pesquisa é intitulada ‘Percepção de adictos sobre a qualidade de vida e inserção de atividade física em comunidades terapêuticas de Campo Grande (MS)’.

Assim como Raphael narrou sua história para o Lado B, ele também compartilha a experiência com pessoas que chegam à igreja onde ele é membro. Na Sara Nossa Terra, o professor diz que costuma dar esse ‘testemunho’ de vida.

“Geralmente vem pessoas que têm história familiar que é dependente químico ou que já passaram por isso. Eu uso meu exemplo para ajudar as pessoas a saírem dessa vida. Não é atoa que já vieram bastante procurar ajuda e eu as encaminho para o pastor Milton”, relata.

Em 2011, Raphael iniciou o tratamento e recebeu apoio de pastor Milton. (Foto: Arquivo pessoal)
Em 2011, Raphael iniciou o tratamento e recebeu apoio de pastor Milton. (Foto: Arquivo pessoal)

Atualmente, o mestre em saúde e desenvolvimento está na última etapa do curso de formação da GCM (Guarda Civil Metropolitana). Ainda neste ano, Raphael quer dar o primeiro passo rumo ao doutorado em 2023. Além de ter realizado o sonho educacional, ele também conseguiu se tornar árbitro profissional pela Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul.

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