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Campo Grande, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

29/03/2019 07:23

Caminhos de Ricardo Brandão e Alberto Neder se cruzaram em meio à tortura

Festa em unidades militares reabre feridas de filhos de torturados na ditadura

Danielle Valentim
Advogado Ricardo Brandão à esquerda e médico Alberto Neder à direita. Ambos militantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e sobreviventes de prisões políticas e torturas na ditadura militar. (Foto: Arquivo Pessoal)Advogado Ricardo Brandão à esquerda e médico Alberto Neder à direita. Ambos militantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e sobreviventes de prisões políticas e torturas na ditadura militar. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Se as feridas do teu próximo não lhe causam dor, a sua doença é pior do que a dele”. A frase de Tinho Aires resume o sentimento de familiares de torturados durante a ditadura militar no Sul do Mato Grosso. O assunto não se apaga, mas volta a machucar forte os filhos de vítimas do golpe de 64, diante da determinação de que unidades militares comemorem da data.

A retirada do presidente João Goulart do poder marcou o início de um período de medo e repressão. Em meio a tantas recordações, familiares do advogado Ricardo Brandão e do médico Alberto Neder relembram a luta incansável contra o regime militar.

Mas por que esses dois nomes? - O fato é que, apesar da diferença de idade, a militância os uniu, durante poucos meses, em celas usadas em prisões políticas. Juntos, dividiram dores da tortura e temor de nunca mais voltarem às suas casas. Neder pode até não ter tido conhecimento, mas sua figura era de extrema importância para Ricardo Brandão, salvo da morte pelo médico.

Por telefone, Eliane Neder, filha de Alberto, não quis falar detalhadamente sobre o assunto, mas por telefone definiu como “absurda” a autorização de comemoração ao golpe. “Meu pai sofreu desde o início, não só durante a prisão, mas desde que entrou na faculdade, ele sempre foi perseguido... Tento tirar isso da memória”, justificou.

A reportagem confirmou dados, a pedidos das filhas, com o sociólogo e historiador Paulo Cabral, amigo da família Neder. “Eu o conheci em 1979. Ele fez o parto do meu primeiro filho. Minha esposa queria um médico mais experiente e eu trabalhava com a Sueli, filha de Alberto. Ela falou do pai e ele não atendia na rede pública. Mesmo assim, fez todo o pré-natal e o parto de graça”, conta.

Segundo ele, Alberto nasceu em Aquidauana e saiu do Estado para cursar Medicina na praia Vermelha, no Rio de Janeiro.

Estudar fora só foi possível porque o pai, Rachid Neder, tinha dinheiro, por ser representante na região da General Motors, Chevrolet e Frigidaire - marca de geladeiras. Ainda no Rio, Alberto se filiou ao Partido Comunista e, em 1935, já integrava a Aliança Libertadora Nacional.

Formado, Neder voltou a Campo Grande e começou a trabalhar com nomes importantes, sem deixar a militância política. Construiu nos anos seguintes, a Clínica Campo Grande com o irmão Alfredo e amigos. “Na época se tratava de um dos prédios mais modernos do Centro-Oeste, com tubulação de oxigênio. Depois, criou o serviço de telefônica ligando Cuiabá a Campo Grande.”, conta Paulo.

O golpe – Pela posição ideológica do médico, o estado foi asfixiando todos os negócios da família com o poder público. “A família toda foi atacada de um modo geral. Neste período ele se refugiou em uma fazenda em Rio Brilhante. Certo dia saiu para uma caçada e foi visto por um fazendeiro ligado a Ademat – entidade de extrema direita – então foi preso pelo Exército”, relata Paulo.

Alberto Neder foi preso como um nome perigoso, com direito a desfile pela Afonso Pena, algemado, dentro de um jipe do Exército.

A família lembra que o médico amava comemorar o aniversário, mas teve de “chorou” os 50 anos em uma cela. Foi na prisão que sua vida cruzou com a do estudante de Direito Ricardo Brandão. Mesmo sob toda e qualquer forma de ameaça, Alberto continuou exercendo a medicina com os companheiros presos. Ricardo só não morreu, porque Neder passava medicamentos para a cela ao lado.

Entre prisões, a data de saída desta época não é de conhecimento público. Já Ricardo Brandão foi levado ao Rio Janeiro, onde só saiu em 1969.

Maritza com o pai em um de seus aniversários. (Foto: Arquivo Pessoal)Maritza com o pai em um de seus aniversários. (Foto: Arquivo Pessoal)
Ricardo Brandão com a filha Katiuska Brandão. (Foto: Arquivo Pessoal)Ricardo Brandão com a filha Katiuska Brandão. (Foto: Arquivo Pessoal)

A defensora pública Maritza Bradão, filha de Ricardo Brandão, diz que, em casa, o assunto da ditadura militar sempre foi tratado como uma parte da história que não se deve esquecer. “Sempre foi ensinado sobre o respeito à liberdade e a cidadania e que a democracia deve ser respeitada e nunca oprimida. A ditadura militar não é algo para ser comemorado e sim uma lição para que os brasileiros não esqueçam da repressão política e falta de liberdade cometida”.

Histórias se cruzam na prisão - Trechos do artigo da doutora em História, Suzana Arakaki, da UEMS (Universidade do Estado de Mato Grosso do Sul) citam episódios envolvendo, o então estudante de Direito, Ricardo Brandão e o médico Alberto Neder.

O estudo de Suzana tem como base, inclusive, relados da viúva Olga Brandão. Ricardo era estudante no Rio de Janeiro, foi preso em Mato Grosso e conduzido novamente a cidade carioca, onde permaneceu preso de maio de 1964 até 1969.

O artigo também revela longa perseguição a Ricardo e mais integrantes da UNE (União Nacional do Estudantes), na época de faculdade. Após se livrar de uma prisão no Rio, Ricardo voltou a Mato Grosso, mas foi pego pelo Exército em Campo Grande enquanto passeava.

Foi preso por oficiais do Exército, pela primeira vez, aos 19 anos, na Praça Ari Coelho, em Campo Grande. Olga conta que o marido ficou só de cuecas numa cela e acabou doente. Teve gripe, constantes tosses e por fim uma tuberculose. "Ele só não morreu porque foi socorrido por outro preso político, o médico Alberto Neder, preso na cela vizinha".

O fato é relembrado até hoje pela filha Maritza Brandão. “Meu pai sempre relatava o apoio recebido da figura ilustre do doutor Alberto, o ajudando dentro da prisão, inclusive com medicamentos, evitando que morresse em virtude da tortura. Dr. Alberto recebia medicamentos e passava pela cela a ele”, lembra Maritza.

A prisão pelo Exército, em local desconhecido em Campo Grande, durou alguns meses até Ricardo ser mandado para o Rio de Janeiro, por pertencer ao Partido Comunista e ser um líder estudantil e ativista assumido contra o que estava acontecendo no país.

As informações constantes do depoimento dele à polícia na época mostram currículo subversivo  extenso, mas o motivo da primeira prisão seria carta destinada a um amigo e interceptada, onde ele manifestava ser contra a criação em Mato Grosso do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, ligado aos militares, por ser um órgão corrupto, e a criação do mesmo no seu Estado, viria criar um clima de intranquilidade.

A data de saída da prisão não consta no dossiê de Ricardo, mas segundo a esposa, ocorreu em 1967.

Ricardo foi um dos presidente a OAB-MS (Ordem de Advogados do Brasil) secção Mato Grosso do Sul. Ele faleceu no dia 6 de julho de 1996, conforme informações da família. Ainda em 2014, cidadãos civis e militares que resistiram ao Golpe de 1964 foram homenageados, na Câmara Municipal. Alberto Neder (in memorian) e Ricardo Brandão (in memorian) estavam na lista. Ambos foram homenageado com nome de rua em Campo Grande.

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