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Comportamento

Campo-grandense levou saudade da Esplanada para as ruas da Alemanha

Andando pelas ruas de Colônia, Victor lembrou da folia de rua de Campo Grande e escreveu sobre como tudo foi diferente neste ano

Por Raul Delvizio | 17/02/2021 12:15
Como em muitos lugares do mundo, assim também foi o Carnaval alemão (Foto: Reprodução)
Como em muitos lugares do mundo, assim também foi o Carnaval alemão (Foto: Reprodução)

No início de 2021, o campo-grandense Victor Miranda, 33 anos, se viu a quase 10 mil quilômetros longe do Brasil. Cientista político, ele se aventurou em plena pandemia na pesquisa de doutorado na cidade de Colônia (Köln), localizada no estado da Renânia, Alemanha. Por lá, descobriu que o Carnaval tão brasileiro também é celebrado nas terras germânicas. Com um misto de entusiasmo e saudades de casa, relembrou dos velhos tempos em que saia como folião nos blocos carnavalescos espalhados por Campo Grande.

Victor com Silvana Valu (Foto: Arquivo Pessoal)
Victor com Silvana Valu (Foto: Arquivo Pessoal)

Especialmente o Cordão Valu. Victor pulou Carnaval com a própria Silvana Valu e seu marido Jefferson Contar durante 2 anos consecutivos antes de se mudar para fora. Em clima de nostalgia, o pesquisador fez questão de escrever um relato sobre como é a folia alemã em comparação a brasileira. Diferente daqui, em que houve cancelamentos e o toque de recolher foi ferrenho, lá a população saiu se forma respeitosa e disciplinada às ruas, tornando um dos maiores carnavais do país em um manifesto político.

"Eu moro na cidade com o maior Carnaval de rua da Alemanha, um dos maiores da Europa. As restrições às aglomerações também foram severas por aqui, porém não houve toque de recolher e as pessoas foram às ruas de forma ordenada, somente acompanhados do núcleo familiar mais próximo ou daqueles que residem juntos. Muitos preferiram até passear de bicicleta, outros calçaram seus tênis e foram caminhar. Devido a forte tradição carnavalesca, elas saíram de casa fantasiadas. Esse foi o clima de Carnaval na pandemia", explica Victor.

Nas ruas, Victor observou que o espírito carnavalesco não ficou perdido (Foto: Arquivo Pessoal)
Nas ruas, Victor observou que o espírito carnavalesco não ficou perdido (Foto: Arquivo Pessoal)
Bandeira carnavalesca pendurada em uma fachada de edifício (Foto: Arquivo Pessoal)
Bandeira carnavalesca pendurada em uma fachada de edifício (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo ele, o Carnaval alemão e o brasileiro tem vários aspectos em comum. "Mas a maior diferença é o gênero e ritmos musicais, além da maneira mais eufórica de nos comportarmos, prevalescendo uma sensação de 'espírito coletivo'. Por aqui na Alemanha, entretanto, há um consenso de que a festividade se trata de um evento econômico, culturalmente importante e que deve ser levado a sério", pontua.

Mesmo com o inverno rigoroso avançando os países europeu neste ano, sem falar da pandemia do novo coronavírus, Victor conseguiu curtir a folia "civilizada". "A ausência de calor, dos amigos e do Carnaval propriamente dito é o que se faz presente comigo.

Em Colônica, temperatura está em 6 graus negativos (Foto: Arquivo Pessoal)
Em Colônica, temperatura está em 6 graus negativos (Foto: Arquivo Pessoal)

"Mesmo com a temperatura em 6 graus negativos, uma boa cervejinha renana me acompanhando, a ausência de calor, dos amigos e do carnaval é o que se faz presente agora aqui comigo. Mesmo assim, consegui dar uma escapada e compreender a importância de se viver em uma comunidade mais empática e justa socialmente", considera.

Leia abaixo o relato de Victor na íntegra:


O Carnaval das Ausências

"Frio com temperatura em 6 graus negativos nesse momento. Ausência de calor é o que sinto na pele. Apesar da presença das boas cervejas renanas me acompanhando, a ausência de calor, dos amigos e do carnaval é o que se faz presente agora aqui comigo, na Alemanha.

O carnaval de 2021 é o evento mundial das ausências. Falta gente na rua, falta bloco, falta o aperto entre desconhecidos se esbarrando em festa, falta até leito de hospital ou oxigênio por falta de competência e caráter de autoridades federais que posaram há três anos como solucionadoras de todos os problemas do Brasil, mas que se depararam com uma máquina estatal complexa e a falta do mínimo de capacidade de operação da parte delas.

Carnaval de rua na capital Berlin (Foto: Mohammed Alorabi/Unsplash)
Carnaval de rua na capital Berlin (Foto: Mohammed Alorabi/Unsplash)

Mas a ausência produz a oportunidade para se valorizar a presença. Lembrando Edmund Husserl, a consciência se forma também pela noção de que há o desconhecido e o ausente em meio às nossas percepções. Quando eu noto que me falta algo, posso pensar sobre aquilo que tenho (ou tinha, ou que poderia ter) e assim posso me organizar frente ao fenômeno da ausência. Não deixar a falta se tornar vazio angustiante é o que precisa nos mover.

Diante da falta de carnaval na cidade mais carnavalesca da Alemanha, Köln, as pessoas se pintam, sobem nas bicicletas e ficam andando pela cidade – as regras aqui estão duras, nada de bebida na rua, mas não há restrição para circulação. No Brasil, o velho costume de se ir trabalhar maquiado é a forma de contornar a ausência de carnaval. A ausência de carnaval na rua vai virar presença de gente online também. O nosso amado Cordão Valu vai estar mais um carnaval conosco, ou melhor, estaremos junto dele, dessa vez no YouTube.

Assim com o Brasil, a Alemanha também tem a tradição das festas e foliões (Foto: Orimi Protograph/Unsplash)
Assim com o Brasil, a Alemanha também tem a tradição das festas e foliões (Foto: Orimi Protograph/Unsplash)

O carnaval estará ausente das ruas mas manifestado em outras formas de compartilhamento da vida pública. Não é novidade a falta de espírito público nas ruas brasileiras, geralmente tratadas como extensão de propriedade e interesse privado. Também não é novidade a ausência de valorização de nossas tradições de carnaval. Mas ao atravessarmos um ano com tantas vidas perdidas por ausência (deliberada) de ações para combater as mazelas provocadas pela pandemia, vamos aproveitar a chance para notar todas as ausências e valorizar que temos o melhor carnaval do mundo. Vamos aprender com elas e dar a devida importância de se ter presente quem amamos e uma sociedade com empatia e justiça".

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