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Campo Grande, Sábado, 18 de Agosto de 2018

15/02/2018 07:52

Câncer levou 3 pessoas que eu amo em apenas 90 dias, mas enfrentei firme a dor

Plínio conta que encontrou força nos estudos e no amor da família para superar as perdas da vida.

Thailla Torres
Plínio e a esposa com quem foi casado durante 26 anos e o câncer a levou em 2016.Plínio e a esposa com quem foi casado durante 26 anos e o câncer a levou em 2016.

Aos 49 anos, o câncer levou a esposa, um irmão e uma irmã de Plínio de Goes em um curto espaço de tempo. Radialista há 30 anos em Aquidauana, ele acompanhou de perto o começo e o final da doença que trouxe à tona sentimentos que vão do amor ao ódio. Mas com o tempo, a dor da partida estabeleceu uma relação nova com a vida. E é sobre como superar a dor e enxergar a morte com outros olhos que ele fala agora no Voz da Experiência.

Plínio, a esposa e as filhas. Plínio, a esposa e as filhas.

O câncer levou três das pessoas que eu mais amo na vida. Ainda me pego questionando porque o destino trouxe uma doença tão cruel para perto de pessoas de bem como foram minha esposa Doria, meu irmão Dionísio e minha irmã Filomena.

Estava casado desde 1990, com ela tive três filhas e tudo ia bem com a nossa família até 2016, quando veio o primeiro diagnostico dentro de casa. Por coincidência eu estava no último ano de Geografia, na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), entrei na faculdade depois dos 40 anos por incentivo das minhas filhas e da minha família. Resolvi fazer o Enem e voltar a estudar, um sonho que até então eu nunca pude realizar.

O combinado era que minha esposa também voltaria à sala de aula. Ela ainda não tinha terminado o Ensino Médio, mas também sonhava em ter uma formação.

Mas a vida mudou alguns planos. Em 2016, Doria foi diagnosticada com câncer no colo do útero. Foram seis meses intensos de tratamento e uma esperança que se abriu no peito quando o médico nos mandou de volta para casa dizendo que ela tinha respondido bem a todos os tratamentos.

No mesmo período, meu irmão mais velho que morava comigo foi diagnosticado com câncer no pulmão e logo em seguida, uma das minhas irmãs também recebeu o diagnóstico.

A notícia foi avassaladora na família. Trouxe o medo, a dor e a primeira coisa que veio à cabeça, foi colocar em cheque a minha fé. Fiquei pensando em como Deus poderia existir se estava me deixando passar por toda aquela situação, vendo quem eu amo sofrer.

O irmão mais velho que faleceu três dias depois da esposa de Plínio.O irmão mais velho que faleceu três dias depois da esposa de Plínio.

Mas as respostas vieram na união da família. Sou um entre 11 irmãos que sempre tiveram o costume de visitar a casa do outro. A mesma com Doria, sempre fui muito mimado por ela, chegava do trabalho, ela quem fazia questão de servir a comidinha, sentávamos na varanda para horas de conversa. Uma companheira desde a primeira vez que nos conhecemos.

Nossa história começou em um baile de Aquidauana, eu amava dançar e ela também, na época tinha outra namorada que acabou brigando comigo na festa, jogou bebida no meu rosto e Doria foi a pessoa que apareceu para me ajudar. Ofereceu um pano para secar o rosto.

Ela era minha ouvinte, já me conhecia pelo rádio e nos apaixonamos. Sempre foi uma mãe e mulher muito forte, tanto que a doença não abalou sua vontade de viver. Ela encarou a todos os tratamentos com muita força

Durante seis meses viajamos para Barretos para os tratamentos de radioterapia e quimioterapia. Os médicos diziam que ela estava respondendo bem ao tratamento, mas em dezembro de 2015 ela começou a passar mal e foi diagnosticada metástase.

Minha esposa faleceu em 15 março de 2016, três dias depois, meu irmão que estava na UTI também faleceu, passaram dois meses, chegou a vez da minha irmã. Não tive tempo de superar uma dor para encarar outra. Vivi três de uma vez só, intensas, que me faziam questionar o porquê tudo aquilo estava acontecendo na minha vida e das minhas filhas.

Mas na dificuldade a gente tira forças de onde não tem. O primeiro passo para superar o luto foi continuar minha faculdade, eu prometi a minha esposa que me formaria e cuidaria bem das filhas como ela sempre cuidou.
Não foi fácil, durante o tratamento eu continuei a rotina da universidade, para não perder o ano e nem precisar trancar a matricula. As pessoas me questionavam, muitas vezes, como era possível em meio a um problema tão grande como esse, eu continuar firme nos estudos.

Mas eu passei a acreditar na vida e ao mesmo tempo entender que ninguém fica eternamente por aqui. O porque a vida levou tão cedo as pessoas que eu amo? Ainda não encontrei essa resposta, mas eu descobri o que é realmente importante.

Minha esposa e meu irmãos me fizeram enxergar que não importa o tempo, é necessário fazer o que gosta, dizer o que sente e demonstrar o carinho enquanto todos estão por perto. Tive sorte de ter tudo isso com a minha família e não deixamos muita coisa para depois.

Ao mesmo tempo eu carregava comigo outra preocupação: se eu perder as forças, o que vai ser da minha família? Então eu não tive alternativa. Decidi viver em meio ao câncer, continuei estudando, me formei, mas principalmente, procurei ajuda psicológica.

Eu e minhas filhas. Muitas vezes em um momento como esse, a família ainda resiste em procurar ajuda. Mas é o certo, porque o câncer deixa a gente com um vazio muito grande que ao longo do tempo precisa ser preenchido com a vontade de viver. Sem ajuda, a gente perde o rumo.

É claro que eu também sofri, sofri muito, ainda sofro quando me pego lembrando dos natais, aniversários e datas em que a felicidade foi substituída pela saudade. Ainda chego em casa e imagino que vou encontrar minha esposa lá. Mas aí eu lembro do que ficou dela, dos meus irmãos e a parte boa de cada um me faz seguir em frente.

O segredo para não desistir foi esse, guardei um pouquinho do melhor de cada pessoa aqui dentro, continuei estudando, cuidando da família. Assim encarei a perda e bati de frente com o problema.

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